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Diretor executivo CNN Portugal

Costa asneirou no governo: ou arranca agora ou desfaz-se (e devia chamar o Fernando)

30 ago, 12:54
Marta Temido (fotos de arquivo)

O primeiro-ministro tem um problema nas articulações. A saída de Marta Temido é um fracasso do PM, mas ele até pode agora dar a volta ao texto. Ao seu texto.

O governo de Costa mais forte por fora é o governo de Costa mais frágil por dentro. Está a desfazer-se em pedaços. A demissão de Marta Temido abre vaga para um nome óbvio na Saúde – já lá iremos. Mas dá também a oportunidade para um segundo arranque de um governo que já deu muitos tiros no pé e ainda não deu uma para a caixa.

É isto uma maioria absoluta? Um projeto político empenhado em passar cheques mas desabonado de ideias? Um governo tão displicente consigo próprio que se torna arrogante sobre si mesmo? Um aquário de peixes-néon que no reflexo do vidro se veem tubarões?

Não.

Marta Temido saiu porque já nada nem ninguém a sustentava, foi uma ministra excelente na emergência e péssima nas urgências. Teve nota alta na pandemia e foi útil para o servicinho de se atirar às Ordens. Depois, noves fora, nada. Nem força, nem projeto, nem reforma, nem futuro político.

Teve sim um falhanço trágico: em junho, depois da morte de um bebé, anunciou medidas a dois tempos: a curto e a longo prazo. O longo já não teve tempo porque o curto fracassou. Aumentando "a articulação” – outra vez a articulação… - entre urgências de obstetrícia, o verão seria resolvido. Mas outro bebé morreu em julho e uma mulher grávida morreu em agosto, saindo do maior hospital do país “estável” para nove quilómetros depois chegar a outro hospital em coma.  

A ministra não resistiria – antecipou-se e demitiu-se de madrugada. Já não tinha apoios: aos profissionais de saúde, privados e oposição juntaram-se as críticas no governo (de Fernando Medina), a retirada de apoio de Belém (Marcelo) e o desalinhamento da DGS (Graça Freitas), que alertou para a falta de profissionais no inverno depois da falta de profissionais no verão. Temido era cadáver político adiado.

Este fracasso foi também do primeiro-ministro, que não só reconduziu Temido como prometeu em junho que “parte dos problemas [do SNS] a partir de segunda estará normalizada”. Dez segundas-feiras depois, a ministra demitiu-se. Porquê agora? Porque depois de mais uma morte trágica que selou o fracasso do plano de curto prazo, se Marta Temido não se demitisse hoje teria de demitir-se amanhã.

Nenhum problema se resolverá sem a entrada de um ministro diferente. O meu nome óbvio é Fernando Araújo, diretor do Hospital de São João no Porto, pela gestão que dá uma abada a hospitais de Lisboa, em articulação com a ARS Norte, que outra abada dá a sul e que ele também já presidiu. Costa quer mudar? Convide Fernando, próximo de Adalberto Campos Fernandes (o antigo ministro que não pode com a ex-ministra) e de Manuel Pizarro (outro ministeriável, que levou Fernando a ações de campanha de Costa). Costa não quer mudar? Então escreva “esquerda do PS” na agenda e ligue para um dos números.

Mudar significa coragem nas remunerações e exclusividades dos profissionais, investimento no SNS, estratégia entre públicos e privados e sobretudo força política para garantir a tal “articulação” entre instituições.

Mas Costa precisa de mais do que um ministro.

Precisa de recuperar autoridade no governo e de melhor equipa. Os maiores problemas não vêm do tal chavão dos “problemas de coordenação política”. Sim, o governo precisa de assessores batidos e que não se importem de serem desconhecidos, mas o que mais falta é melhor projeto político, frescura, liderança e ministros.

O governo só tem cinco meses mas parece ter os sete anos que o primeiro primeiro ministro acumula. Prepara-se para anunciar um pacotão de apoios e subsídios aos carenciados por causa da inflação mas não tem uma ideia de país além de gastar fundos europeus. A maioria absoluta gerou uma descarga de cansaço e Costa concentrou decisões perdendo eficácia. Fez um governo em que as maiores surpresas ainda não surpreenderam – António Costa Silva e Elvira Fortunato – e as maiores ausências já criam carência – Augusto Santos Silva, João Pedro Matos Fernandes ou Pedro Siza Vieira.

O problema das articulações de António Costa exige mais do que manobras de comunicação para mudar de assunto. Exige ideias políticas para o país que mereçam a maioria absoluta, um primeiro-ministro mais enérgico e um governo melhor. A demissão de Marta Temido é um fracasso do primeiro-ministro, mas dá-lhe a oportunidade de chegar à reentré do PS a 11 de setembro e fazer outro arranque de um governo novo que parece ter nascido velho. Ou arranca aqui ou já não arrancará. Mesmo que, com maioria absoluta, ninguém os possa arrancar de lá.

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