O que resta à Ucrânia (e ao Ocidente) para evitar a "calamidade, a catástrofe, a desgraça completa, o sacrifício de muitas vidas humanas" em Zaporizhzhia

10 ago, 07:00
Ucrânia: Central de Zaporizhzhia, em Enerhodar

A central nuclear de Zaporizhzhia voltou a ser um dos temas da guerra da Ucrânia depois do ataque russo de março que provocou um grande susto na região e na Europa inteira. E como a "política da terra queimada" é a "doutrina militar russa desde o tempo de Estaline", não há boas notícias para a Ucrânia (e para o Ocidente que a apoia). Mas há uma saída - que na verdade será a única maneira de voltar a entrar naquela central

O major-general Isidro Morais Pereira é perentório: “Durante um conflito, as centrais nucleares devem ser sempre áreas protegidas, com um perímetro de segurança suficientemente afastado”. Isso mesmo defendeu o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que pediu o fim dos ataques “suicidas”. Portanto: a retoma do controlo da central por parte da Ucrânia é uma das prioridades de Kiev e do Ocidente - mas como podem as forças ucranianas fazê-lo sem causar danos que se transformem num desastre?

“Não é impossível mas é muito difícil”, considera o major-general Isidro Morais Pereira. “As forças ucranianas só podem tomar a central à custa de um ataque terrestre e do sacrifício de muitas vidas humanas. Normalmente, quando se faz um ataque com tropa de infantaria ou de operações especiais, prepara-se o terreno bombardeando as posições inimigas por forma a destruir parte delas, de modo a avançar rumo ao objetivo e conquistá-lo. Neste caso, uma tomada da central de Zaporizhzhia terá de ser feita exclusivamente à custa de infantaria e pela utilização de munições de armas ligeiras. A utilização de lança-foguetes múltiplos, de granadas de artilharia ou de bombas de aviação está fora de questão, poderia provocar uma verdadeira catástrofe. A própria Rússia está a minar o terreno à volta da central, é uma operação extraordinariamente arriscada.”

Isidro Morais Pereira aponta também para o facto de a Rússia poder estar a usar a central “como porto de abrigo para cerca de 500 combatentes e para manter material bélico ao abrigo de possíveis ataques das forças ucranianas”, o que a torna um “alvo militar legítimo”. “No entanto, neste caso, nunca as forças ucranianas ousariam atacar a central, isso iria causar uma calamidade e uma destruição difíceis de prever. A utilização de uma central nuclear para estes fins é quase inconcebível.”

O que resta à Ucrânia

Mas se a Ucrânia está limitada, até porque também “quer conter a destruição durante a reconquista do seu território”, Moscovo “utiliza o seu potencial todo. “A Rússia não tem essas limitações. Sempre mostrou, desde o início da invasão, que se rege pela política da terra queimada. Desde o tempo de Estaline que é esta a doutrina militar. Para a Rússia, a artilharia é a rainha das batalhas. Usa maioritariamente o fogo na condução da guerra enquanto, por exemplo, no mundo ocidental se utiliza o fogo para preparar o campo de batalha e depois, através do movimento, se conquistar os objetivos. É utilizado na medida necessário. No caso da Rússia não é assim, é a política de rolo compressor. Estão a recorrer a fogos de artilharia na zona da central porque sabem que os ucranianos não vão responder da mesma maneira”, explica Isidro Morais Pereira.

Perante este cenário, o major-general afirma que esta central nuclear é “praticamente inconquistável”. “Basta um erro. Em munições de artilharia, um pequeno desvio pode significar que a munição cai um quilómetro ao lado e atingir um reator, seria uma desgraça completa. É algo que a Ucrânia não quer.” Quer dizer que a Ucrânia não tem alternativa a não ser dar Zaporizhzhia por perdida? “Conquistar a central só através de uma ação de cerco. Se a Ucrânia conseguir tomar todas as regiões ao redor do local, pode fazer um cerco até que os russos se rendam. Não entra comida, não entra água”, explica o major-general. Mas esta estratégia tem uma limitação: “É preciso pensar nos funcionários da central, que também são ucranianos. Se houver uma ação de cerco, os próprios trabalhadores também deixam de ser capazes de operar a central, que tem de ser bem gerida para não causar problemas. É muitíssimo complicado”.

 

 

O risco de catástrofe - para a Ucrânia e não só

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, disse no sábado estar “extremamente preocupado” com o risco de “catástrofe nuclear”. "Estou extremamente preocupado com os bombardeamentos de ontem [sexta-feira] da maior central nuclear da Europa, o que sublinha o risco muito real de uma catástrofe nuclear que ameaça a saúde pública e o ambiente, na Ucrânia e não só", advertiu Grossi, considerando que se "está a brincar com o fogo".

Este risco é mesmo real? À CNN Portugal, o físico Luis Guimarãis diz qual é, para si, o maior risco ao bom funcionamento da central. E não é um ataque bélico. “O diretor da AIEA anunciou sete pilares para a manutenção do bom funcionamento dos reatores. Um dos pilares é a contínua renovação de peças. As cadeias de fornecimento do material que se vai avariando não estão asseguradas. Pode acontecer o mau funcionamento de uma válvula de um circuito de arrefecimento, pode não haver peças de substituição no local, não se sabe. Na minha opinião, esse é o principal risco, a não existência de componentes para assegurar o bom funcionamento dos reatores.”

Em março, quando a guerra chegou à central, Pedro Sampaio Nunes, engenheiro e antigo diretor da Comissão Europeia das Energias Convencionais e das Novas Tecnologias de Energia, explicou à CNN Portugal que, ao contrário do que acontecia com Chernobyl, as centrais nucleares atuais “são intrinsecamente seguras do ponto de vista da sua operação e da sua arquitetura". Uma central nuclear está desenhada, por exemplo, para resistir ao impacto provocado pela queda de um avião. "As centrais têm uma estrutura de contenção, em betão, que protege o núcleo e é muito resistente. É extremamente difícil entrar", garante, o que faz com que a central seja bastante resistente a ataques armados.

Posto este cenário, que tipo de armamento pode originar uma fuga de radiação em Zaporizhzhia? “Teria de ser um míssil tipo Iskander, com um payload bastante grande. É preciso um míssil de grandes dimensões para fazer dano de fora para dentro”, considera Luis Guimarãis, que vinca que o maior risco pode vir de dentro para fora. “O exército russo tem engenheiros nucleares. O design da central de Zaporizhzhia é soviético, é o standard da Rosatom, a Agência de Energia Nuclear Russa. Conhecem a central por dentro e por fora. Eles sabem o que estão a fazer. De certeza que sabem contornar a segurança. Danificar a central com explosivos como granadas ou munições leves, mesmo dentro dos edifícios dos reatores, é difícil. Mas o problema aqui são atos de vandalismo. Se houver um acidente, a grande probabilidade é que seja por sabotagem.”

E porque é que a Rússia poderá querer sabotar a central? A resposta de Luis Guimarãis remete para o capítulo económico. “Os seis reatores de Zaporizhzhia a funcionar em pleno durante um ano, a vender eletricidade para a União Europeia aos preços atuais, é qualquer coisa como 3% do PIB da Ucrânia em 2021. A Ucrânia vai precisar desta central para se reconstruir no pós-guerra, é uma das infraestruturas mais valiosas de todo o país. Pode haver uma sabotagem russa para inutilizar os reatores para que a Ucrânia fique mais vulnerável no pós-guerra, com menor capacidade de reconstrução.”

E se houver uma fuga de radiação?

Em março, Romão Ramos, do Movimento Ibérico Antinuclear, afirmou à CNN Portugal que, caso haja uma fuga num dos reatores, “toda a bacia hidrográfica do rio Dniepre ficaria poluída e as águas com radioatividade acabariam por chegar ao Mar Negro, comprometendo os países em seu redor, nomeadamente a Moldávia, Roménia, Turquia, Bulgária, Geórgia, a própria Rússia e toda a zona da Crimeia”.

Além da radioatividade do mar, seria também provável uma implosão dos reatores, que provocaria a formação de "uma nuvem radioativa enorme" que, por força dos ventos, "acabaria por chegar a uma série de países da Europa", explicou o ativista, lembrando o que aconteceu na central de Chernobyl, em 1986.

"A repetir-se o que aconteceu em Chernobyl, os países mais afetados seriam Ucrânia, Bielorrússia, a parte mais ocidental da Rússia, a Polónia e algumas zonas mais altas da Lituânia, Letónia e Estónia. Relembro que, ainda hoje, na Noruega, Suécia e Finlândia, existem zonas com centenas de hectares que estão fechadas e interditas à população porque essa nuvem radioativa, quando começa a baixar, instala-se sobretudo nas zonas de maior altitude", disse. "Só mesmo Portugal, Espanha e o sul de Itália é que não ficaram afetados pela nuvem radioativa que foi libertada em Chernobyl." Seria, portanto, nos países com regiões montanhosas que iriam ocorrer "as consequências mais gravosas" de um incidente nuclear.

Para Romão Ramos, tem de haver um acordo para garantir que as zonas das centrais nucleares fiquem "completamente fora do alcance de bombardeamentos". Além disso, acrescentou, a Agência Internacional da Energia Atómica devia enviar técnicos para monitorizar as centrais nucleares, não só as quatro que ainda estão em funcionamento como também as cinco centrais que foram desativadas, entre as quais a de Chernobyl, para fiscalizar e garantir que essas zonas, que ainda têm resíduos nucleares, não sejam atacadas por bombardeamentos.

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