O que provocou o ataque à maior central da Europa? Corremos o risco de uma catástrofe nuclear? Um guia para perceber o que está em causa

4 mar, 12:50
Central nuclear Zaporizhzhia em Enerhodar foi alvo de ataque russo (via AP Photos)

Romão Ramos, técnico do Movimento Ibérico Anti-nuclear, explicou à CNN Portugal tudo o que está em causa no ataque desta madrugada à maior central nuclear da Europa

A guerra na Ucrânia tomou novas proporções na madrugada desta sexta-feira, quando uma das maiores centrais nucleares da Europa, a de Zaporizhzhia, foi alvo de ataque pelos militares russos. O incidente levou mesmo o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, a alertar que uma explosão da central seria "10 vezes pior do que Chernobyl". Horas depois, o alívio - o incêndio que, na sequência do bombardeamento, deflagrou num edifício a cerca de 150 metros, não atingiu os reatores da central e, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atómica, os níveis de radiação permaneceram inalterados.

O técnico Romão Ramos, do Movimento Ibérico Anti-nuclear, explicou à CNN Portugal o que se sabe, até ao momento, sobre este ataque, nomeadamente o que o terá provocado, os perigos que lhe estão associados e o que deve fazer a Europa para evitar o risco de uma catástrofe nuclear.

O que provocou este ataque da Rússia?

Para Romão Ramos, as tropas russas não tinham como objetivo "bombardear a própria central nuclear", até porque, se o fizessem, estaríamos perante um "um incidente nuclear ao nível do que se passou em Chernobyl", que comprometeria não só a Ucrânia, como também a própria Rússia, Bielorrússia, e "praticamente toda a Europa", sobretudo nos países nórdicos e escandinavos, como a Polónia, Estónia, Letónia e Lituânia.

"Queremos acreditar que isto foi uma situação involuntária e que será única neste cenário", considerou.

Para o técnico, que já foi militar de artilharia, o que terá acontecido foi um disparo de artilharia terrestre "que acabou por chegar a um sítio que nem a própria Rússia queria atingir", devido a uma "perturbação" ou "desvio" da temperatura ambiente e do vento, que acabou por comprometer "em centenas de metros" o local onde a munição deveria cair.

Há o risco de uma explosão da central nuclear?

De acordo com o técnico, o ataque desta madrugada não coloca em risco uma explosão da central nuclear, uma vez que atingiu uma área fora do perímetro dos seis reatores da central, nomeadamente uma sala de formação e um dos laboratórios que a compõem. Portanto, ao não atingir o complexo da central, "não compete em nada o seu funcionamento", explicou.

Romão Ramos acredita que "os próprios militares russos terão com eles algum corpo de engenharia habituado a fazer gestão de centrais nucleares, para assegurar que a central tem algum tipo de gestão".

"Penso que esta situação, à partida, fica estabilizada com esta ocupação dos militares russos", argumentou.

Mas, caso a central venha a ser novamente atacada, quer pelas forças ucranianas para obrigar à retirada dos militares russos, quer por outro motivo qualquer, e que atinja o perímetro dos reatores, tal pode, efetivamente, resultar numa catástrofe nuclear. "Num cenário de guerra, podemos esperar sempre uma situação dessa natureza", vincou.

O que acontece em caso de explosão da central nuclear?

Se um dos reatores da central nuclear for atingido, toda a bacia hidrográfica do rio Dnipro ficaria poluída e as águas com radioatividade acabariam por chegar ao Mar Negro, comprometendo os países em seu redor, nomeadamente a Moldávia, Roménia, Turquia, Bulgária, Geórgia, a própria Rússia e toda a zona da Crimeia.

Além da radiotividade do mar, seria também provável uma implosão dos reatores, que provocaria a formação de "uma nuvem radioativa enorme", que, por força dos ventos, "acabaria por chegar a uma série de países da Europa", explicou Romão Ramos, lembrando o que aconteceu na central de Chernobyl, em 1986.

"A repetir-se o que aconteceu em Chernobyl, os países mais afetados seriam a Ucrânia, Bielorrússia, a parte mais ocidental da Rússia, a Polónia, e algumas zonas mais altas da Lituânia, Letónia e Estónia. Relembro que, ainda hoje, na Noruega, Suécia e Finlândia, existem zonas com centenas de hectares que estão fechadas e interditas à população porque essa nuvem radioativa, quando começa a baixar, instala-se sobretudo nas zonas de maior altitude", disse.

Na altura, "só mesmo Portugal, Espanha e o sul de Itália é que não ficaram afetados pela nuvem radioativa que foi libertada em Chernobyl", recordou.

Seria, portanto, nos países com regiões montanhosas que teriam lugar "as consequências mais gravosas" de um incidente nuclear, acrescentou.

O que deve ser feito agora para impedir um incidente nuclear?

Para Romão Ramos, nas próximas rondas de negociação entre a Rússia e a Ucrânia, deveria haver um acordo para garantir que as zonas das centrais nucleares ficassem "completamente fora do alcance de bombardeamentos".

Além disso, acrescentou, a Agência Internacional da Energia Atómica deveria enviar enviar técnicos para monitorizar as centrais nucleares, não só as quatro que ainda estão em funcionamento, como também as cinco centrais que foram desativadas, entre as quais a de Chernobyl, para fiscalizar e garantir que essas zonas, que ainda têm resíduos nucleares, não sejam atacadas por bombardeamentos.

Romão Ramos lembrou que o Movimento Ibérico Anti-nuclear tem alertado para o facto de a energia atómica, "por muito que seja apresentada como solução de energia não poluente, tem sempre este problema atrás". "Um colapso da produção, um colapso do sistema de arrefecimento, da ventilação da central, pode gerar um dos maiores desastres ambientais", considerou.

O técnico reforçou, por isso, a importância da substituição da energia atómica pelas energias renováveis. "Ontem o mundo não teria ficado tão assustado quando soube do ataque à central nuclear se estivéssemos a falar de um parque fotovoltaico ou eólico", assinalou.

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