"Deram-nos a ordem de matar todos os que virmos". Reveladas chamadas do Exército russo na Ucrânia

CNN Portugal , HCL
29 set, 21:38
Coluna russa na estrada que liga Donetsk a Mariupol (Maximilian Clarke/Getty Images)

Telefonemas intercetados no campo de batalha fornecem provas da desordem dentro das fileiras nos primeiros momentos da invasão, mas também de assassinatos de civis em Bucha

Milhares de chamadas intercetadas feitas por soldados russos na Ucrânia e obtidas pelo jornal The New York Times (NYT) revelam novas provas de atrocidades de larga escala cometidas pelas forças de Moscovo, mas também de um sentimendo de raiva dentro das fileiras do seu exército.

As chamadas, expostas numa reportagem publicada esta quinta-feira, foram feitas em Março por dezenas de tropas na cidade de Bucha e arredores, nas periferias da capital, Kiev.

"Mãe, esta guerra é a decisão mais estúpida que o nosso governo alguma vez tomou", terá dito um soldado chamado Sergey à sua mãe.

Usando 22 telefones partilhados, as tropas ligaram para centenas de números de telefone na Rússia durante um período de várias semanas, telefonando para esposas, parentes e amigos, apesar de terem recebido ordens para não o fazerem.

As conversas, inicialmente intercetadas pelas autoridades ucranianas antes de serem transmitidas ao jornal, lançaram uma nova luz sobre a desordem que se viveu nas primeiras fases da ofensiva russa. Além disso, as conversas contêm referências aos assassínios de civis que podem constituir prova de crimes de guerra.

Os soldados relatam ter sido atirados para a guerra sem aviso prévio, sofrendo perdas crescentes à medida que a sua tentativa de capturar Kiev parecia cada vez mais distante e que iam recebendo ordens para "matar todos os que vemos".

Um desses soldados chega mesmo a denunciar abertamente o presidente russo Vladimir Putin como um "tolo" por ter ordenado a invasão.

Estas provas obtidas pelo The New York Times indicam que dentro de semanas após o início da ofensiva, a 24 de Fevereiro, as forças russas já estavam a sofrer perdas pesadas. Entre as fileiras, parecia existir a consciência de que a captura da capital ucraniana se revelaria impossível também parecia ter-se instalado.

O NYT, que publicou apenas os primeiros nomes dos soldados com o intuito de proteger as suas identidades, citou Sergey, um paraquedista russo, que conta à mãe que apenas 38 do seu grupo de 400 soldados destacados tinham sobrevivido. Outros soldados relataram ter perdido até 60% do seu regimento, enquanto os seus entes queridos na Rússia advertiram que "os caixões continuavam a chegar".

"Deram-nos a ordem de matar todos os que virmos"

"Estamos a enterrar um homem atrás do outro, isto é um pesadelo", disse outro soldado, não identificado, numa chamada.

Noutras conversas, as tropas russas expuseram as ordens dadas pelos comandantes em Bucha, onde as forças russas são acusadas por Kiev de terem cometido vários crimes de guerra, incluindo a execução de centenas de civis. Moscovo nega as acusações.

"Disseram-nos que, para onde vamos, há muitos civis a andar por aí. E deram-nos a ordem de matar todos os que virmos", disse Sergey, num telefonema com a sua namorada.

As conversas também revelam que os soldados começaram rapidamente a relatar um número crescente de mortos. Um soldado chamado Aleksandr disse a um familiar que há "corpos deitados na estrada" em Bucha com "membros espalhados por aí". "Não são nossos, estão a matar civis", disse.

Sobre o mesmo assunto, Sergey disse à sua mãe que existe uma "montanha de cadáveres na floresta". Numa chamada para a sua namorada, também confessou ter recebido ordem para executar três homens que "passavam pelos nossos armazéns".

"Detivemo-los, despimo-los e verificámos todas as suas roupas. Depois teve de ser tomada a decisão sobre se os deixávamos ir. Se os deixássemos ir, eles poderiam dar informações sobre a nossa posição... Assim, foi decidido matá-los", disse Sergey, em chamada.

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