Como é que Putin quer tomar Kiev? Um explicador sobre a estratégia militar dos russos

9 mar, 18:00
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

Dois especialistas militares explicam qual pode ser a visão militar estratégica de Vladimir Putin para cercar a capital ucraniana. E se o plano A falhar, terá Putin um plano B?

Estamos no 14.º dia de guerra e as tropas russas já conseguiram tomar as cidades de Kherson, Melitopol, Berdiansk, Polohy e Konotop. Mariupol está cercada, mas não é controlada pelos russos. Mas e Kiev? Putin não tem tido o trabalho facilitado na capital ucraniana. Como vai ele cercar Kiev? Com as tropas do Sul? Onde está a coluna militar com 64 quilómetros?  

De acordo com o Major-General João Vieira Borges, Vladimir Putin poderia avançar com três modalidades de ação:

  • Um cerco de pressão sobre a fome, a sede e jogar com o lado psicológico da população - no fundo, como estão a fazer em Mariupol - e aproveitar isso para negociar;
  • Um cerco com entrada de forças especiais - "Apesar de ser improvável, uma vez que a cidade está muito preparada para isso", explicou;
  • Um cerco com uma destruição maior e com a entrada de forças mecanizadas - "Esta é a pior de todas, porque implica mesmo muita destruição"; 

No cenário atual, em que além da negociação entre presidentes, também já existe negociações ao nível dos ministros dos Negócios Estrangeiros, com mediadores de outros países, como é o caso da Turquia, o também professor do Instituto Universitário Militar (IUM) acredita que "é a modalidade um que vai prevalecer".  

Putin já percebeu que não iria ganhar com a destruição da cidade de Kiev e não nos podemos esquecer que isto é uma operação estratégica com dimensão politica".

Apesar de, à primeira vista, parecer ser uma estratégia idêntica à que está a ser aplicada em Mariupol, o Major-General Vieira Borges esclareceu que em Mariupol  "houve combates e houve muita destruição". Uma modalidade que diz esperar que não aconteça em Kiev". Para além disso, não são cidades comparáveis porque "são diferentes não só na dimensão, como na conjuntura". 

Partilhando da mesma visão, o Major-General Carlos Branco defendeu que "conquistar Mariupol não é o mesmo que conquistar Kiev, por terem significados simbólicos e políticos diferentes". E ressalva que existe ainda uma diferença entre o avanço no norte e no sul: "No sul os agregados urbanos são mais abertos, no Norte existe muita floresta e a floresta dificuldade o movimento tático". 

O especialista militar da CNN Portugal, também aposta na primeira modalidade de ação, uma "alternativa medieval", considerou. "Há cerca de cinco dias já havia indicações de racionamento de alimentos em Kiev e, por outro lado, racionamento de combustíveis a civis. Presumo que se tenha deteriorado de forma significativa".

Em que momento entra a coluna de 64 quilómetros a norte de Kiev?

A verdade é que há vários dias que se ouve falar da coluna militar com 64 quilómetros que está às portas de Kiev, na zona norte, e praticamente dali não se tem mexido. Estarão a adiar a entrada em Kiev ou a aguardar reforços do sul? 

Segundo o Major-General João Vieira Borges, "as tropas do sul vão reforçar o cerco" - o que "seguramente fazia parte do plano inicial. "Do norte virão os apoios logísticos, parte da tal coluna", diz. E acrescenta: 

"A coluna tem uma componente de unidades de combate e outra de unidades logísticas para apoiar o conjunto. No entanto, julgo que tem poder de fogo suficiente para uma primeira fase - bombardeamentos de pontos estratégicos. O lado russo também não quer baixas e, por isso, se a relação de forças for maior, com as tais tropas de sul, melhor será".

Imagem de satélite da coluna militar russa na Ucrânia (Maxar/Associated Press)

E se este plano falhar? Qual é o plano B de Putin? 

Os objetivos de Vladimir Putin passam por ficar com a Crimeia e Donbass, de maneira a conseguir controlar a zona dos mares - Mar Negro e o Mar de Azov. Este "sempre foi um sonho e uma necessidade estratégica para a Rússia. E não é de agora, é de há muito na História", explica o Major-General Vieira Borges. 

"Nas palavras de Putin, está subjacente atingir o objetivo. A potência ocupante se não ganha, perde. A maneira como ele depois justifica a vitória... Depende das negociações. Perde, claramente, politicamente falando. Para materializar a vitória, isso tem a ver com a conquista do sul. O controlo de todas as cidades para controlar os mares".

Se não conseguir negociar isto com o cerco a Kiev, então aqui entra o plano B: "Se Putin perceber que perdeu política e militarmente, então aí sim, avançamos para o plano extremo: avançar com um ataque frontal, destruir tudo. A seguir à ocupação [de Kiev], avançam para a fase de guerrilha para tomarem o poder". 

Aqui, a estratégia passaria por tomar o Palácio Mariyinsky - residência oficial do presidente da Ucrânia -, "colocar uma bandeira russa e carros blindados à porta". Depois tomar "pontos chaves da cidade que eles sabem que têm de controlar": comunicações, energia, água, televisões. Terminada a ocupação, "avançam para a fase de guerrilha, para tomarem o poder". 

Ainda assim, o Major-General Carlos Branco não prevê que uma ofensiva militar desta dimensão "aconteça nos tempos mais próximos", porque "os russos não querem ter baixas". E, mesmo que viesse a acontecer, explica o especialista militar da CNN Portugal, "seria sempre após a saída dos civis não combatentes". Ou seja,  "numa operação militar com pés e cabeça é assim que funciona". 

Seguramente não vai acontecer nas próximas 48 horas, mas também não temos hipótese de previsões. O que lhe posso garantir é que, a curto prazo, essa opção não está em cima. In extremis, se isso acontecer, é porque a Rússia perdeu em todas as frentes, militar e politica. Estaria de cabeça perdida". 

Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

O especialista militar da CNN Portugal relembra ainda que, neste momento, já estão a decorrer negociações sobre "qual vai ser a configuração da próxima Ucrânia sem a Crimeia e sem Donbass". 

As vitórias de Putin e as derrotas do Ocidente

Em suma, Putin não tem ideias de avançar com um ataque de frente a Kiev, nem de invadir o palácio presidencial, colocar lá uma bandeira russa e colocar carros blindados à porta. O que o presidente russo tem em mente é cercar Kiev, colocar tropas em pontos chaves da cidade para conseguir controlar serviços essenciais - televisões, comunicações, água, energia - e negociar os objetivos políticos a partir daqui. 

Se não conseguir e se Putin perceber que perdeu política e militarmente, então aí sim, pode colocar em prática o plano extremo: destruir e tomar Kiev. A seguir à ocupação, avançaria para a fase de guerrilha, para tomar o poder.

Mas o Major-General João Vieira Borges deixou uma ressalva. Se, por um lado, temos uma "comunidade internacional a agir como nunca agiu", por outro, Putin "tem ganho todas as guerras e o Ocidente tem perdido. Afeganistão, Iraque, Líbia".

É preciso aguardar para perceber como vai correr a quarta ronda de negociações entre a Ucrânia e a Rússia, ainda sem data, porque esta é uma guerra dominada pela incerteza, o que cria uma instabilidade nas previsões do que vai acontecer a seguir. Uma coisa é certa, a comunidade internacional está "a diminuir a liberdade de ação de Putin", assegurou o Major-General. 

Esta quarta-feira, a porta-voz do Kremlin, Maria Zakharova, ministra dos Negócios Estrangeiros, voltou a insistir que Moscovo está a realizar uma "operação militar especial", que continua a desenvolver-se "estritamente de acordo com o plano", plano esse que, assegura, não passa por derrubar o governo de Kiev.

Segundo a ministra, a Rússia prefere que os seus objetivos para a Ucrânia (desmilitarização e neutralidade) sejam atingidos pela via negocial, esperando por isso "progressos significativos" na próxima ronda de conversações.

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