Um festival "feliz" que vai juntar em Sintra poetas, romancistas e outros pensadores

Há 20 min
Escritora venezuelana Karina Sainz Borgo (GettyImages)
Escritora venezuelana Karina Sainz Borgo (GettyImages)

Raquel Marinho, autora do podcast "O Poema Ensina a Cair", assume com Pedro Mexia a curadoria do Festival Literário Internacional de Sintra, que se realiza entre 13 e 22 de novembro

Chama-se Festival Literário Internacional de Sintra ou, na sua versão curta, FLIS. Mas também lhe podemos chamar "Feliz". Raquel Marinho gosta dessa possibilidade de brincar com as palavras. O "Feliz" vai acontecer pela primeira vez entre 13 e 22 de novembro, e entre os nomes já anunciados destacam-se escritores como Hélia Correia, Ana Paula Tavares, Valter Hugo Mãe, Karina Sainz Borgo (na foto em cima), Pacheco Pereira ou José Gil.

Raquel Marinho, que assume a curadoria com Pedro Mexia, explica que a ideia para o festival já é antiga. "É um bocadinho aquilo que eu já faço há muito tempo, que é falar com escritores, só que aqui ganha uma outra escala", conta.

Além de ser uma frequentadora de eventos literários desde sempre, Raquel Marinho foi jornalista durante 25 anos e, em 2014, criou "O Poema Ensina a Cair, primeiro como uma rubrica no Expresso e, depois, em 2020, como um podcast independente onde entrevista escritores, editores e outras pessoas ligadas à cultura, numa conversa sobre poesia, mas também sobre a arte e sobre a vida.

A poesia tem muito má publicidade, admite. Muitas pessoas ainda acham que a poesia é algo aborrecido ou hermético, difícil de compreender. O que Raquel Marinho tem feito ao longo dos últimos é desmontar um bocado essa imagem. "No podcast faço questão de não ter pressa. As conversas têm o tempo que precisam ter, não há regras", explica. "O Poema Ensina a Cair" ganhou o prémio de Melhor Podcast de Arte e Cultura de 2021 no Festival Podes e, no ano passado, foi novamente premiado no Podes como Melhor podcast de Entrevista. "O Poema Ensina a Cair" foi conquistando o seu lugar entre as pessoas que gostam de poesia, mas foi mais longe do que isso. Nas suas páginas nas redes sociais, que têm milhares seguidores, Raquel vai partilhando todos os dias poemas ou excertos de poemas, tendo-se tornado uma das grandes divulgadoras de poesias nas redes sociais. "As pessoas mandam-me mensagens a perguntarem de que livro é aquele poema ou aqueles versos e a agradecer por terem descoberto um poeta que não conheciam. Sei que há pessoas que partilham aqueles poemas nas suas redes, que os enviam aos amigos. É muito bonito."

A comunidade não é apenas digital. Às vezes as conversas são gravadas com público, além disso Raquel Marinho organiza sessões de poesia e também realiza workshops em escolas. E assim "O Poema Ensina a Cair" tem estado presente em várias feiras do livro e festivais literários. Nos últimos anos, Pedro Mexia, poeta, cronista e crítico literário, acabou por se tornar um colaborar habitual do projeto, com uma rubrica mensal. E, por isso, quando Raquel Marinho se juntou à Câmara de Sintra para organizar um festival literário, imediatamente desafiou Pedro Mexia a se juntar a ela na curadoria do evento.

"A poesia parece ser uma coisa muito distante e eu tento contrair essa ideia", diz Raquel Marinho. A ideia de proximidade é um dos fundamentos do FLIS. O grosso da programação do festival acontece num único espaço, o MU.SA - Museu de Artes de Sintra e a programação, apesar de se estender ao longo de dez dias, está concentrada numa curta janela temporal - nos dias de semana será entre a hora do almoço e a hora do jantar - para que o público não se disperse e possa disfrutar de todos os encontros.

Haverá 25 conversas com escritores nacionais e internacionais, muitas delas moderadas por Raquel Marinho e Pedro Mexia - "porque é uma coisa que nós gostamos de fazer", diz Raquel Marinho. A ideia é apenas juntar pessoas à conversa à volta de uma mesa, recuperando o prazer das tertúlias. "Optámos por um modelo em que as conversas não têm um tema", explica Pedro Mexia, lembrando que esse é também um pouco o modelo do podcast. "É uma conversa entre pessoas e elas combinam entre si sobre o que querem falar. Emparelhámos pessoas que achámos que fazia sentido. Não são apenas escritores, são escritores, músicos, cientistas, filósofos. E os moderadores também não são os mais óbvios."

A escolha dos autores foi feita em conjunto pelos dois curadores e Raquel não esconde que está muito satisfeita com o programa apresentado, embora reconheça que houve muitos nomes que tiveram de ficar de fora, por um lado por uma questão de disponibilidade, por outro lado porque foi necessário fazer escolhas. Afinal, esta é apenas a primeira edição - os curadores não podem garantir que haverá outras edições, mas ambos gostariam que assim fosse. 

Entre os nomes internacionais o destaque vai para Julia May Jonas, escritora norte-americana que escreveu o romance que deu origem à série da Netflix "Vladimir", com Rachel Weisz e Leo Woodall. Vem também a escritora venezuelana Karina Sainz Borgo, que vive em Espanha e que este ano esteve no LeV - Literatura em Viagem a apresentar o seu livro mais recente, "Nazarena". A poeta espanhola Amalia Bautista, que "é muito querida do público português" e que até já foi uma das entrevistadas n'"O Poema Ensina a Cair", é outra das participantes.

No primeiro dia, a conversa será com Dulce Maria Cardoso, autora de obras como "O Retorno", "Os Meus Sentimentos" e "Elite" - livro que ganhou o prémio Oceanos em 2019. 

O festival terá duas escritoras galardoadas com o Prémio Camões: a portuguesa Hélia Correia (premiada em 2015) e a poeta angolana Ana Paula Tavares (2026). 

No programa encontramos tanto vozes consagradas como novos autores de ficção, incluindo Valter Hugo Mãe, Luísa Costa Gomes, José Eduardo Agualusa, Djaimilia Pereira de Almeida, Bruno Vieira de Almeida, Patrícia Portela, Gonçalo M. Tavares, Joana Bértholo, Valério Romão ou Sandro William Junqueira a que se junta um grupo significativo de poetas, como Maria do Rosário Pedreira, Jorge Sousa Braga, Daniel Jonas, Luís Quintais, Raquel Nobre Guerra e Andreia C. Faria.

"Era importante ter poesia todos os dias, era uma coisa que nós queríamos e conseguimos. Todos dias temos uma mesa de poesia. Mas também temos autores de ficção e ensaístas, temos de tudo", diz Raquel Marinho. Participantes como o escritor Paulo José Miranda, a ilustradora Catarina Sobral, os historiadores Rui Tavares e José Pacheco Pereira, o político e comentador da CNN Portugal Paulo Portas, o ensaísta António de Castro Caeiro e o cientista Carlos Fiolhais mostram bem a diversidade do programa. E, a encerrar, haverá uma conferência do filósofo José Gil. 

Além das conversas com os escritores, haverá quatro conversas musicadas - com Mafalda Veiga, Tiago Bettencourt, Luísa Sobral e António Zambujo. "São conversas, não são concertos", avisa Raquel Marinho. "Terão música pelo meio, mas são conversas." 

E no fim de semana haverá concertos de Mário Laginha e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, estes no Centro Cultural Olga Cadaval.

Raquel Marinho destaca ainda o trabalho com a comunidade, nomeadamente com intervenções nos transportes públicos e visitas às escolas. "Este é um trabalho que eu gosto muito e que já estamos a fazer. Fui a escolas das 15 freguesias do concelho, falámos sobre poesia, lemos poemas e depois os alunos escreveram os seus próprios poemas, que são incríveis", explica. Alguns desses poemas vão estar presentes na "exposição sonora" no MU.SA: os visitantes terão à sua disposição vários telefones e, ligando um número, poderão ouvir um poema. 

Finalmente, uma parceria com a livraria Snob permitirá ter alguns livros - dos autores presentes e não só - à venda no festival.

O Festival Literário Internacional de Sintra é uma iniciativa da Câmara Municipal de Sintra e da Fundação Cultursintra, com organização da OPEAC - O Poema Ensina a Cair. A entrada é livre.

Logotipo do projecto Texto: Premium
Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Livros

Mais Livros

Mais Lidas