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Pacheco Pereira em entrevista: "Quando deixo de falar de trabalhadores e passo a falar de colaboradores, os trabalhadores deixam de existir"

Tiago Palma , texto e fotos
1 mai, 08:00
Entrevista com Pacheco Pereira

ENTREVISTA || Historiador, antigo deputado e guardador obstinado da memória política e social portuguesa, José Pacheco Pereira fala sobre este 1.º de Maio, e passados, como quem nos abre uma sequência de gavetas onde cabem o século XIX, os sindicatos nacionais do Estado Novo, as greves do marcelismo, a rua de 1974, a fratura entre CGTP e UGT, a troika, os novos sindicatos, o Chega e o pacote laboral do Governo. Mas a conversa acaba por ir mais longe: às palavras que desaparecem, às mulheres afastadas do trabalho fabril, aos jovens explorados nos call centers, à manipulação nas redes sociais e ao país que, quando deixa de reconhecer os seus trabalhadores, começa também a perder uma parte da democracia que julgava garantida

Há sítios onde a história parece ter ficado arrumada em caixas. E há sítios onde ela continua a entrar pela porta, em sacos, pastas, dossiers, cartazes dobrados, fotografias antigas, papéis herdados de pais e avós, jornais que alguém guardou sem saber muito bem porquê, como se a memória também fosse uma forma de instinto. A Ephemera, no Barreiro, é mais a segunda coisa do que a primeira.

Chegamos ao fim da manhã, numa zona industrial que ainda tem o nome, a sombra e a ossatura do que já foi. O Barreiro que fez greves, turnos, sirenes, barcos, metal, química, oficinas, ferrugem, fuligem e multidão já não existe assim. Ou existe menos. Ficou nos edifícios, nos nomes, na memória de quem passou por eles e na matéria que José Pacheco Pereira foi recolhendo antes que as limpezas de casa, as heranças mal resolvidas ou a vergonha de certos passados a fizessem desaparecer. Ficou, sobretudo, naquele arquivo onde o país que se habituou a deitar papéis fora encontra alguém que ainda se baixa para os apanhar.

Quando entramos, Pacheco Pereira está num recanto a mostrar um vídeo no telemóvel a uma colaboradora. Há voluntários, gente a circular, pessoas que trazem coisas, pessoas que sabem onde estão outras coisas. Ele interrompe, retoma, ordena, explica. Não é ali uma presença decorativa. Coordena, faz, chama, pergunta, corrige, decide. Assim que percebe a entrada do jornalista, lança: “Aqui está o homem.” Depois chama: “Venha cá, chegue-se.”

No telemóvel, há um palco. Um grupo de raparigas jovens, “da cena punk do Barreiro”, prepara-se para tocar. Antes do ataque seco da bateria, das guitarras serradas e daquela energia curta que existe na música como existe uma pedra atirada contra uma montra, uma delas dedica a canção a Pacheco Pereira. “Porque ele teve os tomates.” Para quê? “Para debater com o outro.” O outro é André Ventura.

A entrevista não será sobre isso. Nem sobre o debate televisivo com Ventura. Nem sequer sobre Pacheco Pereira ter sido, nos últimos dias, parado na rua por pessoas que lhe pediam fotografias, que lhe agradeciam, que lhe devolviam qualquer coisa como quem encontra, numa figura pública, uma forma inesperada de representação. Ele prefere dizer-se “abordado”. Aconteceu-lhe também no 25 de Abril, na Avenida da Liberdade, onde esteve a recolher cartazes, faixas e outros materiais para a Ephemera. Nunca vira tanta gente. Não se viam as faixas, recordará depois, porque as pessoas eram demasiadas. Mas tudo acaba por entrar na conversa.

Enquanto falamos, chegam pessoas comuns com arquivos pessoais ou herdados. Papéis de família. Restos organizados de vidas políticas, sindicais, associativas, clandestinas ou simplesmente atentas. Entregam-nos à Ephemera como quem entrega uma parte da casa a um lugar onde a casa poderá continuar. Algumas pedem uma fotografia com Pacheco Pereira. Ele aceita sempre. Encaminha-as para o mesmo ponto, diante de uma tarja onde se lê “CORAGEM”, em letras sobre um vermelho vivo, quase de bandeira, quase de aviso. A pose, ensina, é “napoleónica”.

E depois há o 1.º de Maio. Que melhor sítio haveria para falar dele do que este Barreiro quase desaparecido e ainda tão presente? A cidade operária que já não é o que foi. O território onde a palavra fábrica continua a ter peso mesmo quando muitas fábricas fecharam. O lugar onde se pode falar de sindicatos sem os transformar apenas em siglas, de trabalho sem o reduzir a legislação, de trabalhadores sem os esconder atrás de palavras mais macias.

Pacheco Pereira começa no século XIX, no Passeio às Hortas, nas oito horas, na luta contra os abusos do horário e das condições de trabalho. Passa pelo Estado Novo, pelos sindicatos nacionais copiados da Itália fascista, pela repressão, pela PIDE dentro ou à porta das empresas, pelas greves do marcelismo, pelos metalúrgicos, pelos têxteis, pelos caixeiros, pelos bancários, pelas universidades ingovernáveis e pelos quartéis onde também chegavam José Afonso e a guerra colonial. O 25 de Abril, lembra, não foi apenas um movimento de capitães. Antes dos capitães houve desgaste social. Houve estudantes. Fábricas. Trabalhadores. Um país que já não era possível esconder.

Depois vem o primeiro 1.º de Maio livre, em 1974. A palavra que escolhe é “explosão”. Uma explosão de rua, sindicatos, cartazes, partidos, famílias, militantes e gente que não cabia apenas no movimento sindical. Mário Soares e Álvaro Cunhal estiveram na mesma tribuna, mas a unidade duraria pouco. O pluralismo sindical, a Carta Aberta, a UGT, a divisão entre a rua e a concertação, tudo isso viria depois. Como viriam a troika, o Que se Lixe a Troika, as manifestações que a televisão viu melhor quando eram novas e pior quando vinham de um mundo velho, reformado, fabril, abandonado pela comunicação social.

O trabalho mudou, reconhece. "Mas não tanto como se repete." Ainda há fábricas, máquinas perigosas, mulheres no têxtil, imigrantes nas estufas, jovens nos call centers, precariedade. "Não há uma única medida no pacote laboral do Governo a favor dos trabalhadores." Ainda há sindicatos grandes e pequenos, clássicos e setoriais, orgânicos e inorgânicos. "Mas há um enfraquecimento objetivo dos sindicatos." E há também a direita radical a tentar entrar na rua laboral, como se a disputa pelo trabalho já não pertencesse apenas à esquerda. "Duvido que Ventura esteja no 1.º de Maio."

A certa altura, a conversa deixa de ser só sobre sindicatos. Talvez nunca tenha sido. O 1.º de Maio é trabalho, mas é também linguagem, memória, representação e apagamento. É o modo como a velha rua operária, mesmo encolhida, ainda pode regressar quando a crise deixa de ser apenas laboral e passa a ser democrática. No Barreiro, entre caixas de arquivo, cartazes recolhidos na Avenida da Liberdade e pessoas que continuam a chegar com papéis para salvar, Pacheco Pereira fala menos de nostalgia do que de perda. E talvez seja isso que liga o 25 de Abril ao 1.º de Maio deste ano: “Nunca vi maior [descida da Avenida] como neste ano. As pessoas não sabem, mas sentem que são manipuladas. E isso é hoje um dos fatores importantes da motivação política.”

Eu gostava de começar pelo sítio onde estamos e por outros sítios da Ephemera. O Pacheco Pereira tem passado grande parte da sua vida a guardar, a arquivar papéis que muitas vezes a política costuma deitar fora. E esses panfletos e esses comunicados aqui na Ephemera, muitos também são do 1.º de Maio e até estão organizados pelo antes e pelo depois de 1974. Este 1.º de Maio vai ser certamente marcado pela contestação. O que é que ainda se reconhece neste 1.º de Maio da velha rua operária? Ou já não há nada dessa velha rua operária, uma vez que tem esse arquivo do antes e do depois?

Já não há, mas há alguma memória do 1.º de Maio. Principalmente as centrais sindicais, de um modo geral, vão a essa memória, que é uma memória do século XIX, muito ligada à luta pelas oito horas, mas que, no fundo, acabou por personificar, em geral, a luta operária contra a exploração, a luta operária contra os abusos no horário de trabalho, os abusos nas condições de trabalho. E isso veio numa tradição que tem muito a ver com a história, de facto, do 1.º de Maio.

Ela é diferente de país para país. Há países em que a tradição do 1.º de Maio é muito forte — por estranho que pareça, o Reino Unido, por exemplo, em que os sindicatos estão muito ligados ao Partido Trabalhista. Mesmo nos Estados Unidos, no Canadá, de um modo geral na Europa, em Espanha, em França, em Itália. E essa tradição vai buscar ao passado, essencialmente, a luta operária por melhores salários, melhores condições de vida e também reivindicações que, nalguns casos, são diretamente políticas.

Aliás, desde o início elas são políticas. Em Portugal, no século XIX, o 1.º de Maio começou pelo chamado Passeio às Hortas, que é no tempo do Partido Socialista original, do Azedo Gneco e outros. Eles faziam, até em carros de bois e tudo, a festa nos arrabaldes de Lisboa, nas hortas. E esse era o início do 1.º de Maio em Portugal.

Claro que, depois, durante o Estado Novo, o 1.º de Maio tornou-se uma coisa subversiva e perseguida. E, portanto, as manifestações do 1.º de Maio foram proibidas. Depois, dependendo da tradição dominante, nos anos 30 a tradição dominante é anarquista e anarco-sindicalista; a partir de 1941, a tradição dominante é comunista; e, nos últimos anos do regime, os esquerdistas começam também a aparecer na rua.

Antes do 25 de Abril, e durante o Estado Novo, o regime não proibiu apenas os sindicatos livres. Na verdade, tomou conta da palavra "sindicato", com os chamados sindicatos nacionais. Eu tirei aqui alguns números: estes são de 1963, foram os que encontrei. Havia 330 sindicatos, 22 federações, sete uniões, mas sem liberdade sindical real, não é?

Claro. Depois lembre-me de lhe dar um livro que tenho ali sobre isso.

Lembrarei. Mas perguntava: não se pode chamar sindicatos àquilo que existia?

Não, não eram. O que é que acontece? Com o Estatuto do Trabalho Nacional, que é copiado da Itália fascista, os sindicatos nacionais passam a depender, em muitos aspetos, diretamente do Governo.

Por exemplo, a homologação das direções. Portanto, deixou de haver eleições livres nos sindicatos. Esses sindicatos nacionais, nalguns casos, absorveram sindicatos que vinham da tradição sindicalista revolucionária da Primeira República. E, no final dos anos do Estado Novo, no período do marcelismo, surgiu uma contestação a esses sindicatos com as chamadas listas não corporativas.

E as listas não corporativas, em certos setores, como por exemplo nos serviços, nos bancários, nos escritórios, no comércio e também no meio operário, com os têxteis e com os metalúrgicos, começaram a ganhar as eleições. Numa fase inicial do marcelismo, essas direções tomavam posse. Uma das grandes alterações sindicais da época foi que as eleições não tinham de ir à homologação do Ministério.

Isso permitiu uma certa liberdade durante alguns anos. Depois, o que aconteceu é que não se voltou propriamente ao mesmo, mas o que fazia o Estado Novo era adiar a homologação, e isso significava que listas eleitas não corporativas não tomavam posse. Mas há um grande surto sindical de 1969 a 1974. É esse o livro que eu lhe vou dar depois.

A exposição de que estávamos a falar no início desta conversa, ainda antes de eu começar a gravar, "Unidos Venceremos!", da qual foi comissário científico, também quis mostrar esse lado do peso das greves no tempo final do marcelismo.

Sendo que a repressão continuava na mesma. Particularmente quem fazia greve — não é preciso ir mais longe: aqui, o Barreiro e a Lisnave — era despedido. E havia empresas que tinham delegações da PIDE, faziam contratos com a PIDE.

A Lisnave tinha.

A Lisnave, por exemplo. Tinha em permanência um inspetor da PIDE, ou relações com a PIDE, para poder controlar os operários. Portanto, o mundo operário explodiu no 1.º de Maio de 1974. Muito mais do que o mundo operário, mas o mundo operário significativamente.

Os sindicatos que eram não corporativos continuaram a sua atuação. Aí passou a haver um conflito entre socialistas e comunistas, mas isso marca todo esse período. E outros continuaram ligados, neste caso, à CGTP e, mais tarde, com a divisão do movimento sindical, à UGT. Mas a grande central sindical operária sempre foi a CGTP.

A CGTP, que já tinha começado a organizar-se antes do 25 de Abril, nas reuniões dos sindicatos não corporativos, depois tomou conta praticamente de todo o movimento sindical e quis tomar conta ainda mais do que isso com a unicidade sindical. A unicidade sindical é um momento importante do período de 1975. É o PS, em grande parte, que resiste à ideia de que só podia haver um sindicato numa área. E isso, evidentemente, é uma iniciativa do Partido Comunista para tentar controlar o conjunto do movimento sindical. Essa iniciativa foi abalada primeiro com a Carta Aberta e depois com a UGT.

Eu vou só voltar um bocadinho atrás em relação à Carta Aberta, já lá chegaremos. Falando daquele período de 1968 a 1974, esse peso das fábricas, dos metalúrgicos, dos caixeiros, dos bancários, de tantos outros — muito disto estava retratado nessa exposição que comissariou — também tem um peso no 25 de Abril, quanto mais não seja no desgaste do marcelismo?

Tem, tem, muito.

Porque associamos muito o 25 de Abril ao movimento dos capitães, naturalmente. Essa é a parte final, mas há um desgaste social anterior.

Sim, sim. O movimento dos capitães é influenciado pelo movimento estudantil, que tornou as universidades ingovernáveis pelo Estado Novo, e pelo movimento sindical daquele período. As manifestações, as próprias vitórias sindicais, foram muito expressivas. E muitos militares do MFA, mesmo nos seus aquartelamentos — que é uma coisa que nunca foi bem estudada —, tinham placards com coisas de José Afonso, que no fundo eram anticoloniais. Mesmo nos Comandos da Amadora, portanto, mesmo naquele sítio...

Do Jaime Neves.

[Risos] Mesmo naquele sítio do Jaime Neves. E é evidente que alguns militares, particularmente os que vão ser oficiais, têm aulas no Técnico, portanto têm acesso direto ao movimento estudantil. E muitos deles conheciam, por razões familiares, por verem à volta. Quer dizer, deixou de ser possível esconder essa contestação e, portanto, o movimento sindical é um dos elementos que condiciona não só o MFA, particularmente aqueles setores de topo do MFA, como o Melo Antunes, que tinha sido candidato pela oposição, como também, de um modo geral, todo o movimento político.

O 1.º de Maio não é propriamente uma grande manifestação sindical, porque ela é subsumida por dezenas, se não centenas, de milhares de pessoas que não são sindicalizadas. Portanto, o 1.º de Maio funcionou como uma válvula de escape num dia de tradição operária.

E depois a história do movimento sindical também reflete crises, em particular crises que têm que ver com a desindustrialização, com a perda de influência em certos setores. Na Margem Sul, por exemplo, muitas fábricas fecharam e, portanto, há uma crise, há uma competição com os setores de serviços. Portanto, o mundo operário, sem nunca deixar de manter uma relação forte com a CGTP, foi diminuindo e encolhendo.

E, ao mesmo tempo, também as ideias e a visão do mundo mudaram em muitos aspetos.

Eu queria falar daquele 1.º de Maio de 1974, porque encontrámos imagens muito interessantes na Cinemateca, que têm a ver até com a representação. Eu encontrei sindicatos de todos os tipos, muito localizados até, o sindicato dos eletricistas de Queluz. Vi a famosa frase da Sophia de Mello Breyner, "A poesia está na rua" — que depois, no 1.º de Maio de 1975, inspiraria os célebres cartazes da Vieira da Silva —, que representava o Centro Nacional de Cultura e era a cineasta Margarida Gil a segurar o cartaz, a frase. Enfim...

A melhor descrição é uma explosão.

Sim, é uma explosão, mas tinha duas figuras no estádio.

Sim, tinha.

E essas duas figuras, Mário Soares e Álvaro Cunhal, embora aquilo pudesse parecer algum tipo de unidade, a verdade é que ambas já disputavam esse poder sindical.

No primeiro 1.º de Maio, essa disputa ainda não é muito evidente.

Mas, quando eles discursam, parece-me que já há uma disputa.

Por uma razão: o discurso mais revolucionário é do Mário Soares e não do Álvaro Cunhal. Porque Cunhal, que regressa nas vésperas do 1.º de Maio, tinha muito receio, desconfiava dos militares e tinha muito receio de que uma deslocação rápida para a esquerda, com bandeiras vermelhas, foices e martelos, provocasse uma reação. E, portanto, ele faz um discurso objetivamente mais conservador do que faz Mário Soares.

Depois, no 1.º de Maio seguinte, houve os incidentes conhecidos em 1975, que se repetiram em 1976 e por aí adiante. E isso fragilizou o movimento operário e fragilizou o 1.º de Maio. Porque, entretanto, os partidos começaram a ter relações internacionais e os sindicatos também. A Federação Sindical Mundial, ligada à União Soviética, com a CGTP. E muitos sindicatos muito fortes, com muitos recursos, como eram os alemães, por exemplo, apoiaram a criação da UGT.

Portanto, o movimento sindical dividiu-se desde o início da década de 1980. E é claro que essa divisão se mantém até hoje.

Mas logo ali, com a Carta Aberta de que o Pacheco Pereira falava, de 1976, isso salvou a liberdade sindical ou, na verdade, acabou por fechar o sindicalismo português durante décadas dentro dessa geografia dos dois partidos, PS e PCP? Ou havia outro sindicalismo?

Não. Depois, mais tarde, surgiu um sindicalismo independente.

Mas muito mais tarde.

Mas muito mais tarde. Portanto, não, não havia outro sindicalismo: os nossos sindicatos eram ou do lado do PS ou do lado do PC.

Tem uma pluralidade muito fechada.

Pois. Os esquerdistas tinham influência em alguns sindicatos. Os químicos, por exemplo, em Lisboa. Alguns têxteis, o calçado. Havia sindicatos dirigidos ou por trotskistas ou por maoístas. Mas, de um modo geral, a dominação do Partido Comunista é muito importante nos sindicatos da indústria pesada, chamemos assim, da metalurgia. Mesmo nas comissões de trabalhadores.

Porque aí também há um elemento que surge, que são as comissões de trabalhadores, e que também é relevante para este julgamento. Mas isso é a divisão. Repare: o PS, em particular, não tinha tradição sindical. Por exemplo, em Espanha, o PSOE tinha uma componente sindical forte. E isso, na realidade, só surgiu quando eles se dividiram. Agora, o mundo operário, chamemos-lhe assim, e o mundo dos serviços ligados aos sindicatos mudaram muito.

E, portanto, há um enfraquecimento objetivo dos sindicatos. Agora, o que está a revelar-se nestes dias, como aliás já se revelou em períodos anteriores, é que, face a ofensivas governamentais sobre os direitos, de um modo geral as duas centrais, mesmo que não o digam, colaboram.

Sim. Parece que foi há muito tempo, mas não foi há muito tempo. Foi em 1990, quando é assinado o primeiro grande acordo económico-social, pela UGT, com a CIP e, na altura, com a Confederação do Comércio. Acho que, talvez a partir dessa década de 1990, o que se percebe — posso estar enganado, porque nunca vivi muito esse período — é que uma das centrais sindicais ganhou a rua e a outra ganhou a concertação.

Sim, sem dúvida. Sem dúvida.

Qual das duas estratégias é que resultou melhor?

As duas, as duas. Não se pode pôr uma contra a outra porque, na prática, há as duas. Eles não falam para as mesmas pessoas, que é outra coisa. A UGT é forte nos sindicatos de serviços, portanto fala, no fundo, para uma pequena burguesia e uma média burguesia que trabalha.

Em alguns casos, os seus pais e avós viveram na pobreza e os seus filhos, através do acesso aos bancários, às polícias, aos professores primários, aos professores em geral, fazem essa transição da pobreza para a classe média, digamos assim. E a UGT fala para essas pessoas. Como o PS também, em grande parte.

O Partido Comunista fala para os setores operários tradicionais e é vítima do encolhimento desse setor.

Do desmantelamento.

Com o desaparecimento de grande parte das indústrias. Embora eu às vezes diga, não a si, aos seus colegas: vão a uma fábrica. Porque o mundo comunicacional não sabe o que é. Ainda há centenas de milhares de pessoas a trabalhar em fábricas. Temos feito [Ephemera] coisas aqui em fábricas antigas.

Esse mundo fabril acabou, em grande parte, mas ainda subsiste. E esse mundo, evidentemente, tem uma relação muito próxima com a CGTP.

Nós, quando falámos ao telefone, brevemente, para combinar esta entrevista, falámos — ou sugeri eu — que este 1.º de Maio poderia ter alguma comparação com os anos da troika. Já lá iremos. Mas, em relação aos anos da troika, há algo que me parece muito interessante. As pessoas estavam na rua, obviamente...

O Que se Lixe a troika, sim.

Sim, sim. Mas, e esta é a pergunta: a rua estava cheia, ou as ruas encheram nesse período, mas havia uma contradição, pelo menos parece-me. As pessoas desinteressavam-se dos sindicatos, afastavam-se dos sindicatos. Ou seja, estavam na rua, mas não estavam sindicalizadas.

Sim. O próprio nome, Que se Lixe a Troika, era uma coisa que nenhum sindicalista tradicional daria. Porque são muito conservadores nesses aspetos da linguagem.

Mas parece-me quase uma contradição.

Sim, sim. E havia outra coisa: porque é que a manifestação do Que se Lixe a Troika teve sucesso? Em grande parte porque ela é mais forte no mundo comunicacional...

Já com as redes sociais?

Sim. O que é que acontece? Muitos jovens jornalistas, no seu caso e noutros, mas eu vi isso no Público e nos outros jornais, eram muito atraídos por aquele aspeto da festa, do nome, das manifestações de gente mais nova.

E também pelas figuras que se aproximavam do movimento.

Exatamente. No entanto, a CGTP fez uma manifestação provavelmente maior do que o Que se Lixe a Troika na altura. O que é que acontece? São gente mais velha, são gente reformada, são gente que vem de um mundo que a comunicação social abandonou há muito tempo.

E isso, olhe, mérito da CNN, que veio cá quando foi da nossa exposição aqui no Barreiro: vieram cá, estiveram numa fábrica e, pela primeira vez, falaram com comissões de trabalhadores no próprio sítio de trabalho, filmaram as máquinas, filmaram uma coisa que se percebia: que o trabalho fabril é perigoso.

Porque as pessoas têm de se proteger de máquinas. E isso foi um dos raros casos em que imagens desse género apareceram. Porque uma das coisas que acontece hoje é que esse mundo operário, esse mundo fabril, está completamente abandonado pela comunicação. Como se não houvesse. Há centenas de milhares de pessoas que trabalham em fábricas.

Agora com os lay-offs, com o mau tempo na região Centro, percebeu-se bem isso.

Exatamente. Exatamente. São muitas fábricas. E há outra coisa: há uma ignorância sobre como é que nas fábricas, por exemplo, no período da troika — e penso que hoje também há alguns aspetos desse género —, se dá um retrocesso civilizacional importante com as mulheres.

Há muitas operárias fabris, por exemplo no têxtil. Essas foram as primeiras a ser despedidas. E uma coisa é ser operária e outra coisa é ser doméstica. E, quando passaram de operárias a domésticas, há um retrocesso civilizacional significativo. Nunca ninguém tratou disso.

Curiosamente, havia o Sindicato do Serviço Doméstico, que está bem retratado no livro das Três Marias, nas "Novas Cartas Portuguesas", e ainda bem recentemente no espetáculo "Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa", da Sara Barros Leitão.

Foi o primeiro sindicato que, de alguma maneira, falava das criadas, chamemos-lhe assim.

Sim, sim.

Havia uma organização das criadas, que eram as Zitas, uma organização católica, conservadora e tal. Mas, com o aparecimento, em grande parte por iniciativa de católicos e católicas progressistas, dos sindicatos de empregadas domésticas, no fundo, a palavra “criada” deixou de existir.

As mudanças vocabulares também traduzem mudanças sociais. Quer dizer, já nem falo entre “trabalhador” e “colaborador”. [Risos] Essas mudanças vocabulares traduzem exatamente retrocessos significativos e, acima de tudo, cegueiras. Quando eu deixo de falar de criadas, elas deixam de existir. Quando deixo de falar de trabalhadores e passo a falar de colaboradores, os trabalhadores deixam de existir. E isso tem muito que ver com esta evolução, nestes dias.

Verdade. Nesse período da troika — aliás, o levantamento que fiz é desde os anos 2000 —, foram criadas 163 associações sindicais em Portugal, mas só 18 delas é que se filiaram nas duas grandes centrais sindicais.

É o surto dos sindicatos independentes.

Sim, mas isso prova vitalidade democrática ou é uma fragmentação da força que os sindicatos tinham?

Em todos os países esse tipo de movimentos existiu. Esses sindicatos que cobrem, em alguns casos, pequenos setores, ou que são separações dos maiores, representam um movimento que é significativo. Em muitas greves, às vezes, são esses setores que têm um papel relevante. Mas isso acho que significa uma riqueza no movimento sindical.

É a tal vitalidade democrática de que falava.

Deixe-me só dar um recado. [Pacheco Pereira dirige-se a um colaborador da Ephemera.] Ó Gomes, não me separe isso. Ponha-me ali com a indicação “Zé Magalhães”, pá. Que eu tenho um surto de medo quando vejo essa separação. [Risos]

Mas essa vitalidade pode ter aqui um, não sei se é um contrassenso, mas a ideia de que vários sindicatos, orgânicos e inorgânicos — no caso dos professores isso é muito evidente, com a Fenprof, com a FNE, com o STOP —, disputam a mesma profissão e com formas de luta muito diferentes. Isso é benéfico ou não é benéfico?

Eu acho que é benéfico, acho que é.

No caso dos professores, não tenho a certeza.

Eu também não tenho a certeza. Porque depende de as coisas evoluírem. Mas, por exemplo, o STOP teve sucesso porque falou para setores. Quer dizer, deixou de falar apenas nos professores na escola, passou a falar para aquilo a que, em tempos, se chamava os contínuos. Hoje, auxiliares educativos.

E, desse ponto de vista, alargou. E durante um período de crise teve um papel relevante. Depende. Sabe que isto é um mundo muito dinâmico e que se transforma muito rapidamente.

Eu não vejo inconveniente nessa separação. Isso aconteceu em França também.

Mas há uma disputa. No caso dos professores, é muito evidente que eles disputam entre si.

Claro, mas a disputa também não é má.

Em muitas áreas — na saúde, nas polícias, nos magistrados, em quase tudo —, o que se percebe é que estes novos sindicatos estão muito setoriais, menos clássicos desse ponto de vista, obviamente. A minha pergunta é se já estamos numa fase em que cada profissão se tenta salvar por si própria?

Sim, há um egoísmo profissional que, em alguns casos, prejudica outros setores.

No início da governação Montenegro houve isso com as polícias.

Claro, claro. Mas isso é inevitável, porque há uma corporativização, particularmente nas profissões que pagam razoavelmente bem e nas profissões em que há alguns direitos laborais adquiridos. Eu não vejo isso como inconveniente. Acho, aliás, que o que nós vamos assistir no 1.º de Maio é essa gente toda junta.

O que não têm é a mesma capacidade de mobilização. Depois mostro-lhe, naquele outro armazém, os materiais sindicais que nós temos.

Deixe-me fazer esta ponte, que pode ser um assunto interessante e que é um tema sobre o qual também queria falar muito consigo. Eu não sei se vamos ver na rua o Solidariedade, o tal sindicato que o Chega anunciou, que é muito semelhante ao do Vox espanhol.

Duvido.

Mas porque é que um sindicato da direita radical existe em Portugal?

Olhe que tem todo o sentido. Em todos os países. E acho que aqui também vai funcionar, embora aqui o grau de politização seja diferente de Espanha. Em Espanha há uma radicalização muito significativa. Aqui há muita politização. Mas é natural que o Chega tenha papel nas polícias, por exemplo. Tenha papel em certos setores. E, se fizer um sindicato, é coerente do ponto de vista do Chega.

Agora, duvido que eles vão para a manifestação do 1.º de Maio, mas podem ir. Aqui a questão que se coloca é: desses sindicatos, qual é o adquirido que eles assumem? Assumem os direitos laborais? Assumem mecanismos como a greve? Assumem mecanismos como as manifestações? Os direitos das comissões trabalhadoras? Alguma coisa vão assumir.

Mas não terão aquela velha tentação nacional-sindicalista de que falávamos no início desta conversa? Não poderão ter essa tentação?

Sim. É muito difícil para um sindicato ligado ao Chega colar-se ao Governo. É mais fácil o Chega colar-se do que um sindicato. Admito que, em certas áreas profissionais, na prática, possam ter um papel bastante semelhante aos outros [sindicatos]. Não digo que não.

Este pacote laboral, este Trabalho XXI, chega num momento em que a CGTP acusa o Governo de a afastar das reuniões. É muito concreta a acusação. A UGT rejeitou por unanimidade a última versão que o Governo apresentou...

Não há uma única medida no pacote laboral a favor dos trabalhadores. Já discuti com o ministro Leitão Amaro. A questão é esta: há o argumento de que aquilo é preciso para modernizar e para os jovens. No entanto, primeiro, não há nenhuma garantia. Em todos os sítios em que isto foi tentado, nunca resultou.

Porque também tem a ver com o patronato português. Há duas condições que representam um atraso no mundo laboral. Uma é a falta de qualificação da mão de obra e a outra é a falta de qualificação dos patrões. [Pacheco Pereira é interrompido por uma mulher e um homem que aqui vêm doar os seus arquivos pessoais.] Eu falo já convosco... [Retoma a conversa.] São duas pessoas aqui do Partido Comunista [no Barreiro]. Aquela senhora teve um papel relevante, porque era filha de um comunista importante aqui do Barreiro e era esperantista. Ela trouxe os papéis do pai, do Esperanto. Muito interessante.

Sim, sim. Deixe-me só então terminar esta pergunta. Este afastamento da CGTP, e esta rejeição da UGT, é só, no fundo, uma discussão técnica e uma falta de acordo, ou isto também é uma erosão mais profunda do conceito de concertação social que se tem aguentado até hoje?

Claro. Sim, porque, de facto, em situações de crise e com pacotes laborais oriundos do Governo, que em grande parte são unilaterais, a concertação social perde valor. Temos os patrões com o pacote e as centrais sindicais contra. Não há uma única medida favorável neste pacote laboral. A tese do Governo é que é preciso limitar os direitos dos que já os têm para dar aos que ainda não têm. Não é uma medida favorável.

Deixe-me fazer-lhe uma última pergunta, que talvez seja interessante e sobre a qual já o ouvi falar: o trabalho mudou...

O trabalho mudou, mas não mudou tanto como se diz. Essa é a primeira objeção. Mudou, mas não mudou tanto como se diz. Ou seja, continua a haver muito trabalho industrial, muito trabalho fabril, muito trabalho nos campos. Nos campos, é entregue a estrangeiros, a imigrantes, que trabalham em estufas a 50 graus.

Que também já têm pequenos sindicatos, os imigrantes.

Também já têm pequenos sindicatos. O trabalho mudou. Mas a necessidade da defesa dos trabalhadores, mesmo face ao trabalho que mudou, é relevante. Por exemplo, a precariedade. Muitos jovens trabalham nos call centers. Não há nenhuma medida que diminua a precariedade; antes favorece a precariedade.

Porquê? Porque eles [o Governo] não querem introduzir mecanismos de contratação nesse mundo, em nome da flexibilidade. E é evidente que isto é uma ideia que é boa para os patrões, mas é má para quem lá trabalha, quer sejam jovens, quer sejam mais velhos.

Portanto, o trabalho mudou e a sociedade mudou. E há muitos fenómenos novos que nós temos de incorporar na análise que fazemos e no discurso político e sindical. Mas a primeira objeção que ponho é: não mudou tanto como se diz. E, na parte que mudou, não são os unicórnios, hoje, as startups, que mostram o que é. Há muita exploração, neste caso dos jovens, nos call centers, por exemplo, que em nada são favorecidos por este pacote laboral.

Mas o sindicalismo, não o do século XIX pelo qual começámos, mas o do século XX, nasce muito no estaleiro, na fábrica, que hoje, como percebemos, estando aqui no Barreiro consigo, há menos. Este 1.º de Maio, que acredito que possa ser um protesto grande, também pode fazer uma recomposição, como dizia há pouco, dessa união destas pessoas que estão descontentes?

Pode, pode. Quando há uma ofensiva que toca em direitos laborais que toda a gente pensava adquiridos, que diminui o valor da contratação coletiva, que diminui a defesa dos trabalhadores, pode. Pode, porque o fundamento da legislação laboral, tradicionalmente, é proteger os mais fracos. Na base, não é para proteger o patronato, é sempre para proteger os mais fracos, que são os operários, os trabalhadores. E esta não faz isso. Esta, quando muito, promete que a modernização da economia, no futuro, dará ganhos de produtividade. Nunca aconteceu assim, em sítio nenhum, nenhuma vez.

Porquê? Porque o patronato vai apropriar-se da parte que lhe interessa. E a outra já há. A outra já há nas grandes empresas, que têm modernos métodos de gestão e tal. Essas não precisam de alterar nada. E, portanto, quem se vai apropriar da legislação laboral é o nosso patronato pequeno e médio, cuja noção de gestão e cuja capacidade e conhecimento de gestão são muito fracos. Reconhecido pela própria CIP nos seus estudos.

Há hoje uma crise que tem um forte componente político, porque é uma crise da democracia. Não é tanto uma crise do mundo laboral, mas reflete-se por aí abaixo. E as pessoas começam a ter essa perceção.

Eu tive essa experiência agora, com essa história do debate com o Ventura. Eu não posso andar na rua sem as pessoas me abordarem. Porquê? Porque há um défice de representação. As pessoas acham que não se combate como se devia fazer. E isso é muito forte. Portanto, isso vai ser um fator de mobilização no 1.º de Maio deste ano: o sentimento das pessoas de que há uma erosão da democracia. Que há uma erosão vinda das redes sociais. Há uma erosão vinda da governação. Há uma erosão vinda de uma falhança enorme da educação.

Eu costumo apontar três ou quatro casos que permitem que as pessoas sejam manipuladas facilmente. Um deles é a redução do vocabulário. Eu vou às escolas. Já falei, nos últimos dois anos, por aí, em 300 escolas. Não é pouca coisa. Alunos do ensino secundário, que é o pior que há. E o vocabulário é inexistente.

Os conhecimentos tradicionais da Bíblia, da tradição greco-latina, só existem, no caso da Bíblia, nos estudantes que são evangélicos. Eles não sabem quem é Adão e Eva. Isso significa que também não podem ler grande parte da literatura portuguesa. E isso torna-os mais fáceis de manipular.

E, nas redes sociais, há muita gente profissional da manipulação. Não são apenas os serviços secretos estrangeiros. Há profissionais da manipulação que pagam a empresas. A questão é esta, simplificando: eu tenho um restaurante aqui e agora abriu um restaurante ao meu lado. E eu pago a uma empresa para começar a dizer mal do do lado. E como as pessoas que leem não sabem como é que aquilo foi produzido, e não têm nenhuma espécie de verificação, são manipuladas. Portanto, há um incremento da manipulação.

As pessoas não sabem, mas sentem. E isso, provavelmente, é hoje um dos fatores importantes da motivação política. Porque é que o 25 de Abril teve tanta gente? Nunca vi maior. Eu vou a vários, mas nunca vi maior. Não se conseguiam ver as faixas [na Avenida da Liberdade], porque as pessoas eram tantas.

O que é que aconteceu? Em grande parte, por uma razão: as pessoas têm um sentimento de perda. Não sabem muito bem porquê. Mas têm um sentimento de perda. Nem sequer é contra o Governo, necessariamente. É contra o Governo quando põem lá o Ruy de Carvalho para comemorar o 25 de Abril. [Risos] Mas nem é tanto uma coisa direcionada. É mais um sentimento geral de que o autoritarismo e a violência agressiva são fortes.

E não precisam de sindicatos para sentir. Sentem independentemente dos sindicatos.

Independentemente dos sindicatos.

Obrigado, Pacheco Pereira.

Agora venha que tenho ali umas coisas para mostrar.

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