Grandes patrocinadores das olimpíadas de inverno sob pressão

10 dez 2021, 06:21
Boicote Olímpicos
Boicote Olímpicos

Políticos e jornais norte-americanos censuram grandes empresas que patrocinam os Jogos de Inverno pelo silêncio em relação à violação de direitos humanos na China. Há uma iniciativa legislativa para que essas companhias sejam penalizadas nos EUA

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O boicote diplomático não chega - é esta a ideia que vai ganhando peso nos Estados Unidos em relação aos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizam em fevereiro em Pequim. São cada vez mais as vozes que defendem que as grandes companhias norte-americanas patrocinadoras do evento devem ser responsabilizadas e penalizadas por estarem a apoiar uma iniciativa que as autoridades chinesas têm usado para a promoção da imagem do país.

Um grupo de congressistas que junta representantes dos dois grandes partidos - democratas e republicanos - está ativamente a pressionar os grandes patrocinadores norte-americanos das olimpíadas de inverno para que se demarquem do evento e denunciem a constante violação de direitos humanos praticada pelo governo de Pequim, seja a perseguição de minorias étnicas - como acontece com os uigur em Xinjiang -, seja na supressão de movimentos democráticos - como se viu em Hong Kong -, seja na negação de direitos e liberdades individuais básicos, como aconteceu com a tenista Shuai Peng, cujo paradeiro é desconhecido desde que denunciou publicamente ter sido assediada pelo anterior vice-primeiro-ministro chinês.

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“Continuamos a achar que um boicote diplomático não é suficiente”, dizem o senador Jeff Merkley e o membro da Câmara dos Representantes Jim McGovern, ambos democratas e co-presidentes de um painel do Congresso norte-americano que se foca na situação da China.

Em causa estão sobretudo os cinco grandes patrocinadores americanos dos Jogos de Pequim - Coca-Cola, Visa, Airbnb, Procter & Gamble e Intel - que investiram milhões nesse evento, apostando na visibilidade das transmissões televisivas, mas também em abrir caminho a mais negócios no colossal mercado chinês. Apesar dos jogos de fevereiro serem já conhecidos como “os jogos do genocídio”, estas empresas têm-se mantido em silêncio sobre o facto de a competição acontecer num país onde as violações dos direitos humanos estão bem documentadas.

“Eles pregam a justiça social e isso ajuda o seu negócio nos Estados Unidos, e ignorar os direitos humanos ajuda seu negócio na China”, denunciou o congressista Mike Waltz, republicano da Flórida. “Acho que o povo americano está farto da hipocrisia da Coca-Cola, do Airbnb, da Procter & Gamble.”

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Waltz é um dos proponentes de uma iniciativa legislativa de congressistas dos dois partidos com o objetivo de punir as empresas americanas que financiam os próximos Jogos de Inverno. A ideia é proibir o governo federal dos EUA de fazer quaisquer contratos com essas empresas ao longo de quatro anos. A proposta ainda não teve seguimento. 

Mas há cada vez mais sinais de um amplo consenso no Congresso dos EUA para punir a China pela violação dos direitos humanos, em particular a perseguição aos muçulmanos uigur. Na quarta-feira, a Câmara dos Representantes aprovou legislação proibindo a importação para os EUA de produtos fabricados em Xinjiang que possam ter utilizado mão de obra escrava, nos campos de trabalho para onde os uigur são enviados para cumprir penas arbitrárias.

A legislação (que ainda terá de ser aprovada no Senado) diz que só poderão entrar nos EUA produtos fabricados “totalmente ou em parte” na região de Xinjiang, se o importador for capaz de provar às autoridades americanas que não houve recurso a mão de obra escrava na sua produção. A maioria esmagadora que aprovou a legislação - 428 contra 1 - mostra que esta é uma questão que supera as clivagens partidárias.

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“No mínimo”, dizem os congressistas que exigem uma posição das grandes companhias americanas ligadas aos Jogos de Inverno, “os patrocinadores corporativos americanos do Comité Olímpico Internacional (COI) também se deveriam recusar a enviar executivos seniores aos Jogos de Pequim”. Isso seria mesmo o mínimo dos mínimos.

Mas as companhias em causa não tencionam dar qualquer passo que possa beliscar o bom clima de negócios com o governo chinês. Em julho, numa audiência no Congresso, os executivos dos cinco grandes patrocinadores americanos dos Jogos de Inverno foram zurzidos pelos congressistas, mas não fugiram do guião “business as usual” (manter as coisas como sempre).

“Não tomamos decisões sobre o local que recebe as competições”, declarou o vice-presidente global da Coca-Cola com o pelouro dos direitos humanos. “Apoiamos e vamos atrás dos atletas onde quer que eles compitam.”

Que estes jogos não serão “business as usual” ficou claro na declaração feita na segunda-feira pela porta-voz da Casa Branca, ao anunciar o boicote diplomático dos EUA aos jogos. “A mensagem que estamos a enviar é que, perante estas violações dos direitos humanos, não podemos continuar no business as usual”, disse Jen Psaki, repetindo essa expressão várias vezes.

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“Deveriam ter vergonha de ajudar o regime de Xi”

Para além de políticos de ambos os partidos, também a comunicação social tem destacado nos últimos dias a responsabilidade das grandes companhias que pagam a realização dos Jogos de Pequim. O Conselho Editorial do Washington Post defendeu na terça-feira que “os negócios - Coca-Cola, Visa, Airbnb entre eles - que pagam muito por direitos exclusivos de marketing que lhes permitem colocar cinco anéis coloridos em anúncios que vendem seus produtos, deveriam ter vergonha de ajudar o regime de Xi [Jinping] em crimes contra a humanidade. Ao endossar um evento num país que comete genocídio, estão efetivamente a validar o país como um anfitrião digno - precisamente o selo de aprovação que a Casa Branca quer evitar.”

No New York Times, o editorialista Kurt Streeter, que assina a coluna Sports of The Times, defendeu que, depois do boicote diplomático, agora é a vez das empresas atuarem. “os próximos passos devem partir das entidades que mais influenciam: os patrocinadores dos Jogos”. “Essas empresas defenderam publicamente a justiça após o assassinato de George Floyd”, mas quando confrontadas com o que se passa na China, “um país com uma quantidade tentadora de clientes, as suas posições ousadas a favor de justiça murcharam com o vento”.

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Em todo o caso, as empresas dão sinais de perceber que a associação às próximas olimpíadas de inverno pode ser tóxica. A dois meses do evento, o normal seria que já tivessem grandes campanhas associado a sua marca aos anéis olímpicos. Por enquanto, isso não está a acontecer.

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