Setúbal deixou Costa a namorar à porta e à janela (o PSD é que arrisca “passar para lá da linha”)

27 jan, 22:02

Podia chamar-se ‘a arruada das janelas’. Nas ruas apertadas do centro histórico de Setúbal há muita gente, sim, mas militantes. A ver a caravana passar são poucos. Tanto que a estratégia se muda a meio do caminho. Faz-se a festa com quem está no alto e com quem sabe negociar. Negociar – a palavra mágica para o que aí vem depois das eleições

A charanga socialista chega à Praça de Bocage ao som de “O Ritmo do Amor”. O tema é de Emanuel, um dos talismãs de Rui Rio nesta corrida. Mau presságio para Setúbal? Logo, logo se verá.

Natália Furtado prepara-se para dançar num largo que varreu tantas vezes. “Essas ruas, esses cantos, eu varria-os quando trabalhava na câmara.” Nasceu em Cabo Verde e é portuguesa, porque aqui criou “sozinha” cinco filhos. Ainda foi tentar a sorte com eles em Inglaterra mas voltou. Eles ficaram lá.

“Espero que ele ganhe. Com o Governo de Costa foi o passe social.” Ir trabalhar para Lisboa ficou assim mais barato. Seguia nos mesmos comboios que teve de limpar depois do regresso a Portugal. Só que se meteu a pandemia e o horário encolheu. O valor deixou de compensar. Não diz a palavra mas vive-a todos os dias: precariedade. “Inventam esses contratos e a pessoa não fica com o emprego certo”.

Natália Furtado e a amiga que a acompanha, Maria Filomena Valente, garantem que não fazem parte do PS. Mas ninguém diria, minutos depois, numa outra rua, ao vê-las dançar ao som da arruada socialista. É que tristezas não arranjam empregos.

Costa continua a apostar na proximidade, até com quem não pode votar (Lusa/Miguel A. Lopes)

A arruada das janelas

As ruas do centro histórico de Setúbal são apertadas. E a caravana socialista sabe bem quais escolher para que, nas fotografias, a multidão pareça maior. António Costa entra pela Rua Luís de Camões, o segundo poeta do dia. Ao lado tem Ana Catarina Mendes, João Gomes Cravinho, António Mendonça Mendes ou Maria Antónia Almeida Santos. E gente sem ser da comitiva? Quase nem vê-la ao nível do olhar. Espreita-se então para o alto. E lá estão alguns, à janela. A festa faz-se de outra forma.

Sara Abubacar é uma das exceções. Voto não dá a Costa, mas só porque a idade não deixa. Aos 11 anos, quis agradecer “tudo o que ele fez na pandemia” e dizer que gostava de estar na cerimónia de posse do novo Governo. O secretário-geral do PS tira do bolso um bloco de notas e aponta o número de telefone da rapariga. Ela fica à espera do convite.

E a mãe, Liliana Faria, logo a puxa de volta para os seus braços. Segurança, perante a mancha de militantes que tem de passar. “Gostava que ele não se esquecesse da classe média e das políticas para a infância e juventude.” Já votou no domingo passado, com um objetivo claro: “Comigo o PSD não passa”.

Em Setúbal, terra comunista, pergunta-se se faria sentido PS e PCP voltarem a falar. “Tudo o que são consensos e chamarmos os outros para o diálogo é sempre muito bom.” Liliana Faria queria uma “nova geringonça com forças políticas à esquerda e à direita”. Mas como à direita, se o PSD para ela não passa? E lá se ouve “Iniciativa Liberal”.

Não é preciso sair de casa para acenar a António Costa e ver a festa socialista passar

O homem com o cartaz "maioria absoluta" é afastado

Com pouca gente nas ruas a assistir, e cada vez menos janelas abertas, António Costa começa a tentar as portas das lojas. Em algumas entra mesmo. O contacto é quase sempre rápido. Um abraço ou um aperto de mão, acompanhado simplesmente de um “tudo bem?”. Um diálogo curto, a contrastar com aquele que pode ter de fazer após a noite do próximo domingo.

Porque Costa já duvida da maioria absoluta. Desde 20 de janeiro que não a pede. Um homem ainda se tenta aproximar, levando nas mãos um cartaz com essas mesmas palavras escritas. “Maioria absoluta.” Mas um membro da equipa logo o afasta do percurso.

Na hora de conversar, só o Chega fica de fora. O PSD não, por muito que os socialistas o mantenham como alvo de ataque. No final do percurso, Costa diz-se em “choque” depois de ter visto o vice-presidente social-democrata David Justino, na CNN Portugal, a não descartar “linhas vermelhas de diálogo com o Chega”. “É passar para lá da linha”, resume.

Mas, se o PSD der o passo atrás, um “acordo de cavalheiros” – algo admitido por Augusto Santos Silva – não é um cenário a descartar. “Não me vou por a especular sobre o futuro”, começa. Porque o diálogo à direita sempre existiu, mesmo com a geringonça: “Não foi isso que me impediu de dialogar com o PSD”. A reforma do comando das Forças Armada, diz, é um dos exemplos.

Ana Catarina Mendes segue sempre ao lado do secretário-geral em Setúbal, onde é cabeça de lista (Lusa/Miguel A. Lopes)

Uma "mágoa" Alegre 

Já à noite, o Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, torna-se pequeno para tanto socialista. Plateia cheia. Muitos outros ficam de pé. Vai falar Manuel Alegre: é com memória que o histórico militante começa a preparar o combate. “Tem a assinatura do Partido Socialista”, repete várias vezes, para falar de feitos como o Serviço Nacional de Saúde. Eis o legado do “partido da mãozinha”, em contraponto com o PSD, o “inimigo”, que também cola à extrema-direita do Chega. “Esta é uma linha vermelha que não se deveria passar no Portugal democrático. Com António Costa e o PS não passa, não passa. Com o PSD e Rui Rio já está a passar. E isso é uma tristeza para a nossa democracia.”

Mas se Costa admite virar à esquerda e à direita para negociar, Manuel Alegre segue a mesma lógica para atacar: “O sectarismo corta a convergência e torna o diálogo mais difícil, mesmo para quem sabe fazer pontes como é o nosso António Costa. Foi com mágoa e indignação que vi dois partidos da esquerda juntarem os seus votos à direita e à extrema-direita para chumbar um orçamento progressista”. Fica então o aviso claro a todos os interessados: “Sem o PS e contra o PS não há soluções de esquerda em Portugal”.

Alegre e Costa abraçam-se. Estão alinhados no combate (Lusa/Miguel A. Lopes)

Palavra de Costa: ou eu ou Rio

António Costa sobe ao palco. Com o fervor da plateia, salta de entusiasmo. E aproveita o embalo de Alegre para se lançar no discurso. Também ele, diz, não esquece “de que lado é que está a nossa mãozinha”. Do lado do coração, à esquerda, onde quer traçar caminho.

“Partilho seguramente a mágoa do Manuel Alegre.” E, mesmo dizendo que os rancores devem ficar no passado, continua: “Não sendo engenheiro, gosto de construir pontes. Mas também sei o momento de dizer ‘basta, daqui não passamos’”. Ao contrário do PSD, recuperando o tema do dia, sem linhas vermelhas para com o Chega: “Nunca dependeremos do Chega para nada. Nada, nada, nada”.

E, por fim, as metáforas futebolísticas. “Há muitos que vão ao campeonato, mas só dois podem ganhar”. No mesmo dia em que Catarina Martins coloca o Bloco como o partido “que desempata a vida política em Portugal”. Para Costa só dois votos são decisivos: no PS ou no PSD. “Ninguém nos venha dizer que é votando num terceiro que resolvemos este empate”. Mesmo que saiba que deverá ser preciso ir a esse terceiro para a desforra.

Pavilhão Carlos Lopes, mítico para os socialistas, recebe penúltima noite de campanha (Lusa/Miguel A. Lopes)

 

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