Campanhas a acelerar. Costa e Rio fazem ao todo cerca de oito mil quilómetros, (quase) dentro dos limites de velocidade

27 jan, 19:58

O acidente de Eduado Cabrita na A6 veio questionar, ainda que de forma não assumida, as lógicas das viagens nas campanhas eleitorais. Ninguém quer ser apanhado a pisar o risco, mesmo quando há milhares de quilómetros para fazer. Mais de quatro mil quilómetros só para António Costa, na corrida pela maioria absoluta

É uma corrida contra o tempo para conquistar a maioria – absoluta ou não, os portugueses dirão no dia 30. A caravana de António Costa percorreu nesta campanha mais de quatro mil quilómetros de automóvel e a de Rui Rio cerca de 3.500 quilómetros, um pouco menos de estrada, mas a mesma ambição de vencer as eleições de domingo.

O líder socialista teve chegou a fazer mais de 600 quilómetros diários algumas vezes. Foi o caso de 19 de janeiro, o primeiro no tradicional modelo de caravana, depois das viagens às duas regiões autónomas. Nesse dia, Costa aterrou em Lisboa, partiu para Beja, seguiu para Faro e voltou a Lisboa. Já a 21, a agenda começou na capital, avançou para Guarda e Castelo Branco. Depois dos momentos de campanha, António Costa seguiu para o descanso em Leiria.

No itinerário, há distritos que se repetem. Lisboa e Porto, à cabeça, pelo elevado número de parlamentares que é possível eleger nestes círculos: 48 e 40, respetivamente. Na capital teme-se que o “efeito Moedas” possa alimentar estragos, na Invicta que a notoriedade de Rui Rio fale mais alto.

Mas o primeiro-ministro passa também mais de uma vez por Setúbal e Braga – distritos que elegem, respetivamente, 18 e 19 deputados. Em Setúbal, distrito onde o PCP sempre teve grande influência, os socialistas esperam continuar a tirar partido da erosão dos comunistas. Já em Braga, considerado um bastião, querem evitar que indecisos ao centro possam alterar a vitória conquistada em 2019.

Apesar desta volta a Portugal a um ritmo intenso, há um ‘fantasma’ a assombrar as caravanas: o acidente com o carro de Eduardo Cabrita que, ao seguir a 163 quilómetros por hora, acabou por resultar no atropelamento mortal de um trabalhador na A6 e a fazer cair o ministro.

Será que as caravanas percorreram o asfalto das autoestradas em velocidade moderada? Questionado pela CNN Portugal sobre a existência de uma norma para a velocidade máxima durante a campanha, o PS esclareceu que “não há indicações para além do respeito pelo Código da Estrada”. Mas a verdade é que, durante as iniciativas, vão surgindo muitas referências à necessidade de se seguir a uma velocidade moderada – até porque a lista de pontos de paragem e a grande distância entre alguns deles ameaça, muitas vezes, fazer resvalar o programa. “Nós temos vindo sempre devagarinho”, ouviu-se, em Beja, dizer um dos membros da equipa de Costa.

Têm sido duas semanas de campanha e uma correria de uma ponta à outra do país. Rui Rio definiu como objetivo passar por 18 distritos, o que dá quase 3.500 quilómetros de estrada. Por norma, fez um distrito de manhã e outro à tarde. Mas, apesar da pressa em chegar a horas a todo o lado, a comitiva do PSD, e o próprio do líder, têm sido cumpridores dos limites de velocidade.

No PSD existe uma espécie de norma que estabelece que ninguém da caravana deve ultrapassar os 140km/h nas autoestradas. "Existe essa indicação, mas já existia antes da campanha. Todos os carros têm GPS's que controlam isso. Quem ultrapassar, assume as responsabilidades", explicou José Silvano à CNN Portugal.

No terceiro dia de campanha, a 18 de janeiro, Rui Rio no final da arruada em Castelo Branco partiu para o Fundão cerca de 20 minutos antes dos jornalistas. No entanto, foi possível aos jornalistas cruzarem-se com o Lexus ES 300h, híbrido, cinzento, na autoestrada a 120km/h.

Na comitiva laranja corre a informação de que Rio não é homem de andar depressa ou ultrapassar os limites de velocidade e tem dormido quase sempre no local onde, no dia seguinte, começa a agenda. O secretário-geral do PSD confirma-o: "Rui Rio nunca foi de andar muito depressa e quando as viagens são muito longas, para sempre duas vezes pelo caminho".

José Silvano admitiu que, em tempos, "existiam multas por excesso de velocidade no partido" e, por isso, é foram estabelecidas algumas normas. Mas esta comitiva ainda não recebeu nenhuma multa. Questionado sobre se o acidente no ministro Eduardo Cabrita também contribuiu para um maior controlo, respondeu taxativamente: "Não influenciou nada porque ele [Rui Rio] já era assim".

À CNN Portugal, o secretário-geral do PSD admitiu que nas campanhas antes da pandemia se faziam muitos mais quilómetros, porque se podia ir a vários concelhos no mesmo dia. Além disso, as agendas de campanha eram consideravelmente mais preenchidas. "Fazíamos mais quilómetros porque a campanha começava quase um mês antes. Nesta, os debates ocuparam quase o tempo todo", concluiu.

Na caravana socialista, na hora de traçar o itinerário, foi preciso “cruzar a leitura dos territórios com a leitura política”, explica Duarte Cordeiro, diretor de campanha. Depois de visitar Portalegre na pré-campanha, a caravana procurou percorrer “todo o país”. Por questões logísticas, foram colocados os dois arquipélagos nos primeiros dias. Para os últimos, deixam-se os “grandes círculos eleitorais”, como Lisboa e Porto.

A comitiva socialista, diz o também secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, conta com cerca de 40 pessoas. Na hora de rumar a norte, a tentativa foi que o Porto funcionasse como uma base para as dormidas da equipa. Antes disso, Lisboa acabou por funcionar como o ponto-chave, muito à custa da “dificuldade técnica de ter 10 debates”.

Já quanto aos distritos que recebem mais do que uma visita, Duarte Cordeiro reconhece a estratégia da opção: “São os maiores círculos eleitorais, com uma disputa maior de deputados”.

Apesar da preocupação do programa socialista com a questão das alterações climáticas, a totalidade das deslocações tem sido feita de automóvel. Ainda se ponderou, diz Duarte Cordeiro, que António Costa voltasse a viajar de comboio entre Lisboa e Porto no último dia de campanha, o que não irá acontecer. Ainda assim, a garantia é de que o PS irá compensar toda a respetiva pegada ecológica da campanha com a plantação de árvores.

“No cumprimento dos horários, temos que fazer tanta coisa”, confessa o diretor de campanha à CNN Portugal. E, mesmo que a agenda derrape, a caravana socialista tem estratégias para que os apoiantes não sintam tanto o peso da espera.

No terreno, percebe-se que António Costa deixa os locais de campanha mal terminam as iniciativas. Nos comícios, por exemplo, tende a sair poucos minutos depois de acabar o último discurso. Sai geralmente ainda com a sala cheia, aproveitando o percurso final para alimentar o entusiasmo dos militantes.

Enquanto isso, no local seguinte onde o esperam, os bombos, as bandeiras e os lemas de campanha vão servindo de aquecimento e enganando o tempo. Os membros da Juventude Socialista desempenham, em todos os distritos, o principal elemento da mobilização. Em muitos territórios, como nas ações de rua na Guarda ou em Podence, sem eles a mancha humana seria menor e menos entusiasta.

Mesmo antes do acidente protagonizado pelo ex-ministro da Administração Interna, já a alta velocidade a que seguiam as viaturas dos governantes fazia correr tinta na imprensa. Há umas semanas, em declarações à CNN Portugal, Manuel Oliveira, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Motoristas e Outros Trabalhadores, admitia que esta é uma prática recorrente.

Mesmo que a lei dê poder aos motoristas para recusarem a ordem de seguir a alta velocidade, o facto de estarem ao serviço de uma alta figura do Estado aumenta a pressão para chegar a tempo ao destino, fazendo pressionar o acelerador. O sindicalista explicou que existem muitos receios de represálias. Por isso, a tendência é obedecer.

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