“A minha vida não depende apenas de mim”. António Costa fala da sua demissão, da justiça e das eleições, mas nada sobre o seu futuro

CNN Portugal , DCT
18 fev, 12:04
António Costa na apresentação de Medidas de Transição Digital (Lusa/RODRIGO ANTUNES)

Da justiça às eleições legislativas, tentando passar pelo seu futuro europeu. O primeiro-ministro demissionário deu uma entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, onde quis deixar claras duas mensagens: “não há um problema com o sistema de justiça em Portugal” e o país “não” vai depender do voto da extrema-direita.

António Costa garante que, se fosse hoje e à luz do que já se sabe sobre a investigação do Ministério Público na qual aparece mencionado, ter-se-ia demitido do cargo de primeiro-ministro outra vez. Em entrevista ao jornal La Vanguardia, o primeiro-ministro demissionário deixa claro que ninguém deve estar “acima da lei”, muito menos um primeiro-ministro, mesmo sem uma acusação concreta.

“Para mim, é inconcebível que o líder de um país, o primeiro-ministro, possa estar sob suspeita oficial. A justiça tem de fazer o seu trabalho e eu respeito-a. Para a saúde das instituições democráticas, para a confiança dos cidadãos nas instituições, o líder do país não pode estar sob suspeita”, diz, deixando claro que, com esta sua “convicção”, não quer “dar lições de ética a ninguém”.

Apesar de o seu nome aparecer na Operação Influencer, o agora ex-secretário-geral do Partido Socialista afirma que não foi ainda acusado do que quer que seja. “Para já, nada”, responde ao jornalista, quando questionado sobre de que está acusado.

Em Barcelona, e respondendo ao jornalista em espanhol, Costa rejeita que haja algo de errado com a justiça portuguesa, o que há, diz, é uma perceção errada da forma como funciona. “O problema está na compreensão do tempo da justiça”, afirma, admitindo ainda que “não podemos confundir o início de uma investigação com uma condenação. Esse é um dos problemas”. 

“É importante para uma democracia que ninguém esteja acima da lei. E também é importante para o cidadão comum saber que o primeiro-ministro será investigado se estiver sob suspeita”, reforça António Costa.

Sobre a queda do seu governo de maioria, resultante da sua demissão, e consequente ida a eleições no próximo dia 10 de março, António Costa mostra-se confiante -  “os socialistas vão tentar ganhá-las” - e descarta uma fórmula de acordo entre o PS e o PSD. “Já houve uma vez, em 1983, mas não me parece que seja essa a opção”, diz. 

Quanto ao crescimento da extrema-direita na Europa, com ecos também em Portugal, Costa não acredita que Portugal vá acabar por depender do voto da extrema-direita. “Não me parece que isso vá acontecer”, diz, admitindo, porém, que há um problema, referindo-se ao aproveitamento que os “populistas” têm feito da atual conjuntura, marcada por pressão económica, social e de segurança. 

António Costa considera que  “o populismo cresceu”, inclusivamente em Portugal, mas a sua “convicção” é que, “à medida que nos aproximamos das eleições, esse crescimento irá abrandar”, até porque, defende, “os populistas só têm as soluções fáceis nas palavras. E as palavras são levadas pelo vento”.

Com os 50 anos do 25 de abril à porta, o primeiro-ministro demissionário descarta qualquer tipo de nostalgia do salazarismo. “Não, não há. Nem mesmo a extrema-direita exprime essa nostalgia”, afirma.

Sobre o seu futuro, com rumores de uma carreira na Europa, António Costa não abre o jogo, nem um sim, nem um não, nem mesmo um nim: “A minha vida não depende apenas de mim”, diz sem justificar. Depois de oito anos e 83 dias à frente do Governo português, o que se segue? “Não vamos especular agora sobre o futuro”, diz o primeiro-ministro demissionário de Portugal.

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