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Diretor executivo CNN Portugal

O aeroporto de Alcochete não existe

14 mai, 20:21
Quatro pistas, capacidade para 136 aviões por hora. Comissão Técnica propõe Alcochete para novo aeroporto e critica Portela + Montijo

Anuncia-se a megalópole em Alcochete para ampliar a metrópole da Portela. Não é preciso ler o futuro, basta ler o contrato: Montenegro pode anunciar o destino que quiser, mas vai precisar de ganhar mais eleições que Passos para ser ele a lançar a obra, e a ser mais longevo que Cavaco para inaugurá-la. Mais aeroporto é na Portela, Alcochete protela-se.

Já analisei tantas vezes anúncios de localização do novo aeroporto de Lisboa que deixei de acreditar neles. Nem é preciso chegar às contas dos custos, basta fazer as contas dos prazos. E perceber, portanto, que a grande notícia do dia não está no título, está na segunda frase: a expansão do aeroporto Humberto Delgado está garantida. São esses os grandes feitos políticos do dia: um é fechar Figo Maduro; outro é permitir mais movimentos em Lisboa; e o último é pôr-nos a falar de outra coisa para não repararmos nessa.

O aeroporto Humberto Delgado está perto de movimentar a extraordinária soma de 35 milhões de passageiros por ano. Com o afastamento da estrutura militar de Figo Maduro (que o anterior governo deixou pronto) e com o aumento gradual do número de movimentos dos 37 por hora atuais para uns 46 por hora no futuro (que o atual governo estará a preparar com a NAV), o Humberto Delgado cresce para uns 40 a 42 milhões por ano. E só isso garante vários anos de crescimento. Mas este “só isso” demorou muito a conseguir, por pôr interesses militares em causa e riscos ambientais em jogo. A promessa de que será “provisório até que Alcochete esteja pronto” supostamente garantirá o sossego público. Só que o “até que Alcochete esteja pronto” pode ser tão provisório como o imposto de selo o foi em 1660.

Consulte o contrato de concessão da ANA aqui, dirija-se ao artigo 45, suponha que o governo não entrará em litígio indemnizatório com a ANA e faça as contas comigo:

  1. 6 meses para a ANA fazer um Relatório Inicial (“High Level Assumption Report”);
  2. 36 meses para a ANA preparar a sua candidatura;
  3. 12 meses para chegar a acordo para a aprovação final;

Só aqui são quatro anos e meio, e isto considerando que a ANA é lenta (o que lhe convém) e que o Estado é rápido (o que é duvidoso). Agora junte-lhe discussão pública, aprovação de declaração de impacto ambiental, aplicação de remédios, impugnações de concursos e providências cautelares ambientalistas e chega-se facilmente a meia dúzia de anos… para abrir o concurso para a construção!

Mesmo que dure uma legislatura, não será este governo a iniciar as obras.

Agora admita que os governos futuros mantêm o projeto de Alcochete: mesmo assim, tem de somar mais meia dúzia de anos de construção.

Acredita mesmo nisto?

Respeitosamente, eu não. E não cheguei sequer ao custo, que obviamente passa por uma PPP e por modificações aos contratos de concessão: as taxas aeroportuárias da ANA mais as taxas aeroportuárias de que o Estado prescinda e mais umas extensões de contratos dão conta do assunto. Mas nada disto é grátis: mesmo que não paguem hoje, os contribuintes deixarão de receber amanhã.

Daí o título provocador deste texto. Alcochete está entre o jamais e peut-être un jour – mas enquanto isso o Humberto Delgado cresce, arredando os militares de Figo Maduro, massacrando “provisioriamente” os lisboetas com mais poluição e oferecendo mau serviço aos passageiros.

Talvez um dia eu tenha de engolir estas palavras e veja o aeroporto de Alcochete ser inaugurado. Reconhecê-lo será então o último dos meus problemas: afinal, nesse dia serei um aposentado que recebe de pensão pouco mais de um terço do meu último salário.

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