Ronaldo não é um homem, é uma história
Cristiano Ronaldo quis ser o autor da sua vida. Escrever ele próprio a biografia de quem, não nascendo predestinado, dobraria o seu destino. E assim fez. Quem se concentra no que ele ganhou não percebe o que ele venceu.
Como se escreve uma vida?
Os editores costumam dizer que não há autobiografias, apenas livros de memórias. Porque ninguém tem distanciamento sobre si próprio, ninguém se conhece ou se confessa por inteiro, ninguém desconfunde a sua verdade com a verdade sobre si. Ronaldo foi escrevendo o seu livro de memórias: ao imaginar o futuro, criava-o. Quase sempre por superação, por derrube, por força: quanto maior a crítica, maior a ação; quanto mais impossível o desafio, mas incrível o feito, abrindo caminho à frente e deixando destroços atrás, o jogador que grita "Siu!", o atleta que diz "Eu estou aqui".
É por isso que Cristiano Ronaldo não é só um jogador de futebol, um atleta, um homem, é uma história. A história do menino pobre varredor da sua rua que galgou o mundo, do jogador que catapultou o talento com trabalho obstinado, a história de quem não ficou à espera nem se contentou, de quem golpeou a sorte com esforço diário, quotidiano, sem relento. E é uma história que sentimos como nossa, uma história portuguesa, não porque tenhamos escrito uma só letra do livro mas porque fomos vendo em tempo real a escrita de uma vida irreal.
Até que veio o fim. O declínio físico. O erro, a falha, as palavras imaginadas que afinal já não saíam escritas, a mente inclemente num corpo estafado, que desaprende, a angústia do super-herói sem superpoderes, como nos sonhos em que deixamos de conseguir falar, a velhice do jovem que ouve "Eu já não estou aqui".
Como se escreve uma morte?
Ronaldo terá feito a arquitetura do que não conseguiu realizar em engenharia: um final de carreira apoteótico, um último apogeu em absoluta glória, um salto nas alturas e o mundo a seus pés. O plano frustre descambou num episódio de ego descontrolado: trabalhar para aquecer é um insulto, aquecer sem jogar é um ultraje. O episódio estragou o “final feliz” que tardava em ser final e tardava em ser feliz. Adeus, vou embora, Ronaldo abandona o estágio e agora anuncia a despedida, acaba-se a Seleção, acaba-se o martírio, acaba-se o embaraço, venha a sucessão na Seleção, acabe-se a secessão nacional.
Por ser uma história, Ronaldo é também uma construção, grande parte da qual é feita por ele próprio e pelos seus intensos sucessores. Esse controlo da narrativa, reforçado por uma imensa popularidade, cria um paradoxo: um dos homens mais conhecidos do planeta é um dos homens menos conhecidos no planeta. As inesgotáveis diatribes em todos os estúdios e todas as casas e todos os cafés partem dessa tensão, entre a devoção cega e a crítica surda, entre o obrigado pelo que fez e o ser obrigado a deixar de fazer, entre a ambição e a ganância, as psicanálises ao ego desmedido e as psico-análises a um estóico que desconhece o estoicismo, entre a sentida gratidão que tudo perdoa e a sentada intelectualidade que não absolve ninguém, e assim se reproduzem lições sobre a ascensão e ilações sobre a queda.
Não venho contribuir para nenhum dos exércitos. Escrevi dezenas de textos sobre Cristiano Ronaldo, muitos deles na última página do Record, e este não será o último a sair destas tripas. Venho apenas prever que este episódio não ficará na história-Ronaldo, o homem que se transmutou em marca, uma marca tão hiperpersonalizada que se despersonalizou, uma imagem que gravará "Eu estive aqui".
Se vencer não é ganhar, o que sobra depois de ganhar tudo? O resto da vida de um homem.
Foto no topo: Solna, perto de Estocolmo, na Suécia, 19 de novembro de 2013. Cristiano Ronaldo comemora após marcar o segundo golo de Portugal durante o jogo de desempate do Campeonato do Mundo da FIFA de 2014 entre a Suécia e Portugal. Portugal ganhará por 3-2, com três golos de Ronaldo e dois de Zlatan Ibrahimović, depois de uma vitória na primeira mão em Portugal por 1-0, golo também de Ronaldo. Foto de Jonathan NACKSTRAND / AFP via Getty Images