A ave voadora mais pesada do mundo usa plantas para se automedicar

CNN , Hafsa Khalil
27 nov 2022, 14:00
Abetarda macho - Carlos Palacin

Para os humanos, tomar medicamentos quando se sentem a adoecer não é novidade, mas novas investigações mostram que a ave voadora mais pesada do mundo poderá ser o mais recente animal a usar plantas como forma de medicação.

Investigadores em Espanha estudaram dados sobre 619 excrementos pertencentes a abetardas-comuns e descobriram que na dieta destas aves havia duas espécies de plantas que eram consumidas mais do que outros alimentos e que essas plantas tinham “efeitos antiparasitários”.

“Aqui mostramos que as abetardas preferem comer plantas com compostos químicos com efeitos antiparasitários”, afirmou Luis M. Bautista-Sopelana, cientista do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid e autor principal do estudo, numa nota de imprensa divulgada na passada quarta-feira.

Encontradas em certas partes da Europa, África e Ásia, as abetardas estão listadas como vulneráveis na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, com cerca de 70% da população mundial a viver na Península Ibérica, de acordo com o mesmo comunicado.

As abetardas-comuns comem papoilas pelas suas propriedades medicinais. Foto: Museo Nacional de Ciencias Naturales Madrid Spain

Publicado na revista científica Frontiers in Ecology and Evolution na quarta-feira, o estudo revela que as abetardas comeram uma abundância de papoilas (Papaver rhoeas) e de bugloss de víbora roxa (Echium plantagineum). Nos seres humanos, as papoilas têm sido utilizadas pelas suas propriedades medicinais como sedativo e no alívio da dor, ao passo que a bugloss da víbora roxa pode ser tóxica se for consumida.

Através da análise dos extratos das plantas, os investigadores descobriram que ambas têm propriedades antiparasitárias, que testaram contra três parasitas comuns nas aves: o protozoário Trichomonas gallinae, o nemátodo Meloidogyne javanica e o fungo Aspergillus niger.

Ambas as plantas foram altamente eficazes a matar ou a inibir os efeitos dos protozoários e nemátodos, de acordo com o estudo. A bugloss da víbora roxa mostrou uma ação defensiva moderada contra os fungos.

Os investigadores observaram ainda que estas plantas foram consumidas principalmente durante a época de acasalamento, e acreditam que as aves as tenham ingerido como forma de neutralizar os efeitos do aumento da exposição a parasitas durante esse período.

As abetardas são conhecidas pelo ‘acasalamento lek’, que é aquele em que os machos se reúnem em locais escolhidos onde se exibem às fêmeas visitantes, que depois escolhem um companheiro com base na sua demonstração, segundo o comunicado.

“Em teoria, ambos os sexos de abetardas podem beneficiar da procura de plantas medicinais na época do acasalamento, quando as doenças sexualmente transmissíveis são comuns – e os machos que utilizam plantas com compostos ativos contra doenças podem parecer mais saudáveis, vigorosos, e atraentes para as fêmeas”, referiu Azucena Gonzalez-Coloma, investigadora do Instituto de Ciências Agrárias de Madrid e coautora do estudo.

Paul Rose, um zoólogo e professor de comportamento animal na Universidade de Exeter em Inglaterra, que não esteve envolvido no estudo, disse que os resultados mostram que as abetardas-comuns são capazes de determinar o que é bom para elas num determinado momento e mudar o seu comportamento de procura de alimento em conformidade com as suas necessidades.

“Normalmente associamos automedicação a espécies como os primatas, por isso ver os investigadores a estudar aves em vias de extinção é incrível”, disse Rose à CNN.

Os chimpanzés foram já avistados a apanhar insetos e a aplicá-los nas suas próprias feridas, bem como nas feridas de outros chimpanzés, possivelmente como forma de medicação, ao passo que os golfinhos se esfregam contra certos tipos de corais para proteger a sua pele de infeções.

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