Crânio raro de enorme "pássaro trovão" extinto descoberto na Austrália

CNN , Mindy Weisberger
22 jun, 17:00
Recriação ilustrada da ave rara extinga G. newtoni, após cientistas encontrarem fóssil de crânio da espécie na Austrália (Jacob C. Blokland)

Durante mais de um século, os cientistas andaram, sem sucesso, à caça de fósseis de crânios da espécie de pássaro trovão Genyornis newtoni. Há cerca de 50 mil anos, estes titãs, também conhecidos como mihirungs, termo aborígene para “pássaro gigante”, percorriam as florestas e pastagens da Austrália com pernas musculosas. Eram mais altos que os humanos e pesavam centenas de quilos.

O último dos mihirungs foi extinto há cerca de 45 mil anos. O único crânio que tinha sido encontrado até agora, em 1913, estava incompleto e gravemente danificado, levantando questões sobre o rosto, os hábitos e a ancestralidade do pássaro gigante.

Agora, a descoberta de um crânio completo de G. newtoni resolveu este mistério de longa data, permitindo o primeiro encontro cara a cara dos cientistas com o enorme mihirung.

Tinha uma cara de um ganso muito estranha.

Foto do crânio do G. newtoni, que ajudou a resolver um mistério de longa data sobre o rosto do pássaro gigante. (Cortesia Universidade de Flinders)

O G. newtoni tinha cerca de dois metros de altura e pesava até 240 quilos. Pertencia à família Dromornithidae, um grupo de aves conhecido a partir de fósseis encontrados na Austrália.

Entre 2013 e 2019, uma equipa de paleontólogos descobriu o jackpot, o fóssil de um G. newtoni, em Lake Callabonna, no sul da Austrália, onde desenterraram fragmentos de crânio, um esqueleto e um crânio articulado que fornecem as primeiras provas do bico superior da ave. Esta fonte de riqueza derramou uma nova luz não apenas sobre o G. newtoni, mas também sobre todo o grupo dromornitídeo, ligando-o a espécies de aves modernas como os patos, os cisnes e os gansos, adiantaram os cientistas num artigo publicado a 3 de junho na revista especializada Historical Biology.

Embora os cientistas conheçam os Genyornis há mais de um século, os novos fósseis e a sua reconstrução fornecem detalhes importantes que estavam em falta, diz Larry Witmer, professor de anatomia e paleontologia na Universidade de Ohio, que não esteve envolvido na investigação.

“O crânio é sempre o prémio simplesmente porque muitas informações importantes estão na cabeça”, indica Witmer por e-mail. “É onde o cérebro e os órgãos dos sentidos estão localizados, é onde o aparelho de alimentação está localizado e normalmente é onde os órgãos de exibição [chifres, cristas, barbelas, etc.] estão localizados”, diz. “Para além disso, os crânios tendem a apresentar características estruturais que nos dão pistas sobre a genealogia.”

No novo estudo, “os autores exploraram tudo o que tinham destes novos fósseis”, diz Witmer. Os investigadores não só modelaram os ossos do crânio, como analisaram também a colocação dos músculos da mandíbula, ligamentos e outros tecidos moles que sugerem a biologia da ave.

“Esta última descoberta de novos crânios de Genyornis ajudou realmente a preencher as lacunas”, diz Witmer.

‘Muito semelhantes aos gansos’

O crânio recém-descoberto é o centro das atenções de uma reconstrução digital, complementada por outros fósseis de crânios e dados de aves modernas, e oferece pistas até então desconhecidas sobre a aparência do G. newtoni, diz a principal autora do estudo, Phoebe McInerney, paleontóloga de vertebrados e investigadora da Universidade Flinders no Sul da Austrália.

“Só agora, 128 anos após a sua descoberta, é que podemos dizer como era realmente”, diz McInerney por e-mail. “Genyornis tem um bico muito incomum, com o formato de um bico de ganso.”

Comparado com os crânios da maioria das outras aves, o crânio de G. newtoni é bastante curto. Mas as mandíbulas são enormes, sustentadas por músculos poderosos.

“Eles teriam uma abertura bocal muito alargada”, diz McInerney.

O crânio também sugere a dieta do G. newtoni. Uma zona de preensão plana no bico era adequada para rasgar frutos macios e brotos e folhas tenros, e um palato achatado na parte inferior do bico superior pode ter sido usado para esmagar frutas até formar polpa.

“Sabíamos por outras evidências que eles provavelmente comiam alimentos macios, e o novo bico apoia isso”, diz McInerney. “O crânio também mostra algumas evidências de adaptações para alimentação na água, talvez comendo plantas de água doce.”

Esta sugestão de alimentação subaquática é inesperada, dado o enorme tamanho do G. newtoni, adianta Witmer.

“Talvez isso não devesse ser muito surpreendente, dado que dromornitídeos como o Genyornis estão relacionados com o grupo que inclui patos e gansos, mas o Genyornis tinha 1,82 metros de altura e pesava talvez até 227 quilos”, diz Witmer. Descobertas adicionais de fósseis poderiam ajudar a apurar se tais adaptações eram características não utilizadas herdadas de ancestrais aquáticos, “ou se essas aves gigantes entravam em águas rasas em busca de plantas e folhas macias”.

‘Uma amálgama estranha’

A reconstrução ajudou os cientistas a resolver a linhagem conflituosa dos dromornitídeos, colocando-os na mesma ordem das aves aquáticas Anseriformes, relatam os autores do estudo. Com base nas estruturas ósseas e nos músculos associados, os dromornitídeos eram provavelmente parentes próximos dos ancestrais dos modernos gritadores sul-americanos, pássaros parecidos com patos que habitavam áreas húmidas no sul da América do Sul.

Os cientistas propõem colocar o Genyornis newtoni no clado das aves aquáticas. Esta ilustração também destaca como o G. newtoni se compara ao seu parente mais próximo, o Anhima cornuta (o mais próximo do G. newtoni), e ao casuar (não relacionado). (Phoebe McInerney)

Embora o G. newtoni tivesse um bico semelhante ao de um ganso, o seu rosto não corresponde na perfeição ao dos gansos modernos, diz o coautor do estudo e paleontólogo aviário Jacob Blokland. Investigador do Grupo de Paleontologia Flinders da Universidade Flinders, Blokland ilustrou reconstruções do crânio e do G. newtoni em vida.

“Surpreendeu-me o quão superficialmente ele se parecia com um ganso, com seu grande bico espatulado, mas definitivamente diferente de qualquer ganso que temos hoje”, diz Blokland por e-mail. “Tem alguns aspectos que lembram os papagaios, aos quais não tem parentesco próximo, mas também aves terrestres, que são parentes muito mais próximos. De certa forma, parece uma estranha amálgama de pássaros de aparência muito diferente.”

Para a nova reconstrução, Blokland começou pela região óssea externa da orelha, “pois havia vários exemplares que preservavam essa parte”, explica. A partir daí, construiu uma estrutura que era consistente com vários fósseis de crânios. Algumas áreas da reconstrução basearam-se em crânios pertencentes a outros dromornitídeos ou a aves aquáticas modernas, com base em estudos anatómicos de aves modernas que sugerem como os músculos e ligamentos poderiam mover os ossos.

Um detalhe até então desconhecido era um amplo escudo ósseo triangular chamado capacete na parte superior do bico, que pode ter sido usado para exibições sexuais, relatam os autores do estudo.

Grandes emas e casuares (que não são parentes próximos dos pássaros-trovão) percorrem atualmente a Austrália, mas com uma sombra muito menor do que os mihirungs há muito perdidos, que ainda pairam no imaginário popular, diz McInerney. Há muito sobre a anatomia desses gigantes extintos que ainda precisa de ser descoberto, acrescenta, como a forma como as estruturas do ouvido interno associadas à estabilização e locomoção da cabeça podem ter sido afetadas pelo gigantismo e pela sua incapacidade de voar.

E embora a nova perspectiva sobre o G. newtoni seja a mais precisa até à data, fósseis adicionais irão permitir um retrato mais nítido deste ganso gigantesco e incomum – o último dos poderosos pássaros-trovão – e do seu habitat desaparecido, diz Blockland.

“Uma ave tão gigante e única sem dúvida afetou o meio ambiente e outros animais com os quais interagiu – grandes ou pequenos”, adianta. “Só através do estudo é que poderemos construir uma visão mais ampla e descobrir o que não sabemos até agora.”

Mindy Weisberger é produtora de media e escritora de ciência cujo trabalho já foi publicado nas revistas Live Science, Scientific American e How It Works.

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