opinião

Como o PS (e o PSD) ajudam todos os dias o Chega

6 jul, 21:40

O debate da moção de censura apresentada pelo Chega esta semana no Parlamento é uma espécie de guia prático sobre o que não se deve fazer quando se quer combater forças extremistas, xenófobas, racistas, populistas e oportunistas.

Para espanto de muitos, André Ventura decidiu apresentar uma moção de censura a um Governo de maioria absoluta, com apenas três meses de funções e no arranque do Congresso do PSD que consagrou o novo líder. Não há nenhum motivo para tamanho espanto.

O próprio líder do Chega admitiu já que, independentemente do que venha a acontecer nos próximos anos, sempre que puder, apresentará uma nova moção. Não fosse o regimento da Assembleia da República impedi-lo, ele apresentaria uma por mês. Por mês? Uma por semana. Por semana? Uma por dia, que o que não faltam são motivos para censurar o Governo. Seja este ou outro qualquer em que o Chega não esteja. “It´s all about the show”, como noutro contexto alguém me dizia há uns meses. O importante é ocupar o espaço vazio, fazer barulho ou, como diz o slogan do Chega, “fazer tremer o sistema”.

E o problema é exatamente este: os partidos do chamado arco da governação (PS e PSD) não só deixam muito espaço vazio para ocupar, como estão progressivamente a destruir um sistema que este país teve tanto trabalho a construir. Veja-se o caso do PSD: seis meses para trocar de líder. Seis longos e penosos meses de espaço vazio. Ou o PS que, em três meses de maioria absoluta, deve ter batido um recorde mundial de erros grosseiros, só comparável com o campeão da trapalhada Boris Johnson. 

Podia falar do episódio do aeroporto, mas ele é apenas — como disse, e bem, Sérgio Sousa Pinto na CNN Portugal — uma metáfora deste país. Fixemo-nos apenas no debate desta semana no Parlamento e na forma estafada como PS e PSD continuam a encarar a política.

A determinada altura do debate, usa da palavra Maria Antónia Almeida Santos, deputada do Partido Socialista, para responder a André Ventura sobre as críticas feitas à forma como funciona o Serviço Nacional da Saúde. Diz a senhora deputada: “Não assustemos as pessoas”. Das duas uma: ou Maria Antónia Almeida Santos não vive neste país, ou a forma como encara o seu lugar de deputada está nos antípodas daquilo que os seus eleitores esperam dela. 

Não assustemos as pessoas? Quais pessoas? Aquelas que vão a correr para uma urgência hospitalar e batem com o nariz na porta? As grávidas que têm de percorrer quilómetros à procura de um obstetra? Ou as pessoas que estão há anos à espera de um médico de família? De que pessoas estará a deputada a falar? Dos portugueses que não podem adoecer no verão porque o Serviço Nacional de Saúde não está preparado para as receber? Ou estará a falar dos que têm de esperar meses por um simples exame e anos por uma cirurgia? Estará a deputada do PS a falar para as pessoas que não têm dinheiro para pagar um seguro de saúde?

Mas há mais. Depois de seis anos de geringonça e de três meses de maioria absoluta, em que os problemas no Serviço Nacional de Saúde só se agravaram, o aeroporto continua em banho maria, o SEF continua a rebentar pelas costuras, a TAP se transformou num buraco financeiro de proporções épicas, a justiça continua lenta, cara e ineficiente, a segurança social não teve uma reforma que se visse, o salário médio está cada vez mais próximo do salário mínimo, só para citar alguns exemplos, eis que o líder da bancada parlamentar do Partido Socialista, Eurico Brilhante Dias, também ele eleito pelo povo, tem a seguinte visão do que se está a passar no país: “Esta maioria absoluta é o salvo conduto dos portugueses para uma vida mais estável”.

A piada até se faria sozinha, não fosse este um grave caso de como se pode ir destruindo, todos os dias, o nosso próprio regime democrático. Repetindo frases feitas, vazias de significado e que há muito caíram no descrédito dos eleitores. 

Mas o PSD também não sai impune. Numa estratégia já delineada por Luís Montenegro, o partido decidiu que não faria perguntas ao Chega durante o debate da moção de censura, mas antes um discurso da tribuna dirigido ao PS e ao Governo. Até aqui, tudo bem. Não tivesse o deputado que usou da palavra sido mais do que um ventríloquo do novo presidente social-democrata, reproduzindo o discurso do passado domingo, com toda a ênfase, que a oposição também se faz de forma vocal. “O adversário do PSD é o PS”, repete o deputado continuamente, como se estivesse a lembrar-se a si próprio — e aos seus colegas de partido — de algo de que já se tinham esquecido. 

Mais de três horas de debate, dezenas de intervenções depois, o que sobrou? Mais uma vitória para António Costa, que está confortavelmente sentado numa maioria absoluta. Um PSD ainda a organizar-se e sem dizer ao que vem. E várias horas de tempo de antena concedidas a André Ventura. Não se debateu uma proposta, uma ideia, ninguém ficou a saber onde é que os vários partidos defendem a localização do novo aeroporto, nem que propostas têm para apresentar sobre os problemas no Serviço Nacional de Saúde. Saiu-se deste debate exatamente da mesma forma como se entrou.

Dirão alguns que é mesmo assim a dinâmica de um Parlamento. Que quase todos os debates — sejam de moções de censura, de confiança, quinzenais, mensais ou da nação — são sobretudo de retórica política. Mas é exatamente esse o problema: quando um Governo governa — mal ou bem — e o parlamento fica à espera para criticar, fugindo a qualquer espécie de comprometimento, há algo de profundamente errado. Quando o partido que suporta o Governo se limita a ser uma caixa de ressonância e uma claque que elogia e aplaude acriticamente, há algo de profundamente errado.

O Chega — já o escrevi várias vezes — é um partido que arregimenta descontentes. E eles vêm de todo o lado. Da esquerda, do centro, da direita e até dos abstencionistas, que finalmente encontraram uma espécie de deus político, que é homem como os homens, que fala da mesma forma que se fala à mesa de um café com uma mini e um pires de tremoços, daqueles que colocam o dedo na ferida e não têm medo de ninguém. Não é lá como aqueles engravatadinhos que andam com o mesmo discurso há décadas e, vai-se a ver, nada. O Chega é o cesto onde cabem todos, os convictos e os invertebrados, os ignorantes e os cultos cansados de falinhas mansas.  

É este o espaço vazio que PS e PSD, sobretudo, deixam para André Ventura ocupar. Todos os dias. E no mais básico dos básicos.

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