O maior problema do rei Carlos III não é a coroa, mas a voz

CNN
16 set, 22:00
Carlos III e Camilla em Cardiff, País de Gales (AP)

OPINIÃO | Holly Thomas é escritora e editora sediada em Londres. As opiniões expressas neste comentário são exclusivamente do autor

O consenso geral diz que foi surpreendentemente bom. Quando o novo Rei da Grã-Bretanha - um título ao qual o público ainda se está a habituar - se dirigiu à nação pela primeira vez, na sexta-feira, havia alguma apreensão sobre qual seria o seu tom.

O Rei Carlos III, - uma figura mais franca e menos conformista do que a Rainha Isabel II - mostrou no seu papel anterior como príncipe uma tendência para contornar a tradição e dar o seu próprio toque às coisas. No final, ele cumpriu o programa. Prestou homenagem à sua “querida mamã” e prometeu dar continuidade ao compromisso inabalável da rainha para com o “serviço de uma vida”.

No geral, a mensagem foi comovente e digna. Nada mau para um homem na posição bizarra de ter de esperar a morte de um pai para começar o trabalho de uma vida. O tema recorrente foi o dever. Também foi essa a palavra de ordem do reinado de sete décadas da mãe e, por isso, o público britânico pode ser perdoado por julgar saber o que significa. Mas as palavras estão abertas à interpretação e, embora a Coroa seja herdada, isso não acontece ao sentido de dever de um monarca.

Para a Rainha, o dever traduzia-se em imparcialidade, discrição e previsibilidade. Uma mulher pela qual podíamos acertar os relógios - uma figura de proa em grande parte muda e sempre elegante. Nem sempre teve sucesso e a abordagem dela não era à prova de falhas, quando alvo do escrutínio público. O historial de Carlos sugere uma leitura completamente diferente do dever. No contexto de incerteza deixado pela perda da mãe, isso poderá abalar a instituição que ele jurou defender.

Enquanto príncipe, Carlos não via qualquer problema em expressar regularmente as suas convicções sobre temas que iam das alterações climáticas aos remédios naturais à base de plantas. De forma mais notória, pressionou o governo diretamente através dos chamados “memorandos da aranha” de 2004 e 2005 (assim apelidados por causa da caligrafia rabiscada do príncipe), que foram endereçados ao então primeiro-ministro Tony Blair e a outros ministros no poder.

O conteúdo variava de exigências relacionadas às suas instituições agrícolas de beneficência a apelos para que o governo Blair redefinisse as prioridades nos gastos com a defesa. Tudo isso contrariando a obrigação constitucional tácita da monarquia de permanecer acima da política.

Esta estava longe de ser uma infração isolada. Ainda em junho último, segundo o “Times”, Carlos foi ouvido a criticar a política do governo de deportar migrantes para o Ruanda. Um porta-voz oficial disse na época que “não comentariam alegadas conversas privadas anónimas com o Príncipe de Gales, exceto para reafirmar que ele continuava a ser politicamente neutro” - mas não negou a posição relatada de Carlos que, como muitas das suas opiniões, estava em sintonia com grande parte do público britânico. Mas e se o então futuro chefe de Estado tivesse falado a favor do esquema?

Quando completou 70 anos em 2018, Carlos declarou que não seria tão “idiota” a ponto de continuar a ser tão expressivo quando fosse rei, mas a verdade é que talvez já fosse demasiado tarde. Décadas de campanhas em nome do progresso estabeleciam um contraste desconfortável com o privilégio arcaico que lhe permitia liderá-las. Por definição, as figuras de adoração tendem a ser inacessíveis, e o silêncio apolítico da Rainha criou uma distância entre ela e os seus súbditos que tornou a sua mitificação muito mais fácil do que seria de outra forma.

À porta fechada, ela fez pressão para esconder a sua riqueza particular, mas, no exterior, teve o bom senso de manter os seus sentimentos sobre o mundo ao seu redor em segredo. Ao manifestar-se, Carlos sublinhou a estranheza de um funcionário não eleito reivindicar um lugar livre no cenário mundial - e revelou um futuro rei desconfortavelmente falível.

A franqueza de Carlos também destruiu uma peça vital de potencial armadura: o benefício da dúvida. A reticência da Rainha em expressar as suas opiniões permitiu que o público projetasse as suas suposições nela e, normalmente, estas eram lisonjeiras.

Neste verão, ela foi considerada o membro mais popular da família real. O seu primogénito mais sincero, em contraste, teve apenas 42% de aprovação e, na ausência da presença tranquilizadora da mãe, ele move-se por terrenos ainda mais instáveis. O plano de Carlos de reduzir a família real ativa para apenas sete membros sugere que ele está bastante ciente da necessidade de se modernizar de acordo com a opinião pública. Infelizmente, as formalidades exigidas por uma morte real já colocaram em foco as recentes humilhações.

Como sempre, a presença do Duque e da Duquesa de Sussex em solo britânico, nos últimos dias, despertou lembranças do controverso afastamento dos deveres reais há dois anos. Alegadas tensões entre o casal e os novos Príncipe e Princesa de Gales misturaram-se com a cobertura da morte da Rainha, levando às comuns tomadas de partido entre os comentadores.

Pior do que tudo isto, a detenção de um desordeiro enquanto o caixão da rainha passava por Edimburgo, na segunda-feira, deu novo foco ao Príncipe André. Segundo o “Daily Telegraph”, o homem foi ouvido a gritar: “É um velho doentio” para André - e outra pessoa na multidão respondeu com “Deus proteja o Rei”.

O processo judicial iniciado por Virginia Giuffre em 2019, onde ela alegava ter sido obrigada a participar em atos sexuais com o Príncipe André quando era menor de idade, não destruiu apenas a reputação do príncipe. Expôs a tendência para o erro até mesmo da interpretação mais fiel do dever real. Além de aprovar uma declaração do Palácio de Buckingham a rescindir as afiliações militares e patrocínios reais de André, a Rainha nunca falou publicamente sobre o caso. Mas esteve ao lado dele, em público, e depois de o Príncipe ter feito um acordo extrajudicial com Giuffre, no início deste ano - reconhecendo o sofrimento de Giuffre, mas não confirmando nem negando as reivindicações específicas dela contra ele - o “Telegraph” informou que a Rainha pagaria pelo menos uma parte do total de 12 milhões de libras.

Talvez a Rainha acreditasse que a decisão de apoiar o filho fosse pessoal. Talvez tenha achado que seria do interesse público anular a história que lançou a sombra mais escura sobre a monarquia desde a morte da Princesa Diana e ameaçou manchar o Jubileu de Platina. Talvez apenas acreditasse nele, ponto final. O que quer que ela pensasse, a escolha dela não foi, e nunca poderia ter sido, vista como imparcial.

É este o problema que Carlos enfrenta hoje. A inocência, uma vez perdida, é perdida para sempre, e a neutralidade, uma vez rendida, raramente é recuperada. Ao falar de forma tão liberal, antes de se tornar rei, Carlos perdeu a oportunidade de assumir o trono com uma tela em branco. Mas, tal como a Rainha também demonstrou durante o seu longo reinado, e especialmente nos últimos meses, todos os monarcas são humanos, e o silêncio não é necessariamente uma coisa boa.

Quando ela escolheu ficar ao lado de André, o público não viu apenas uma escolha pessoal. Viu um patrocínio real. Mesmo que Carlos passe a censurar-se, daqui em diante, é improvável que a Coroa recupere novamente a sua aparência de imparcialidade.

A mudança já está no ar. Nos últimos dias, os manifestantes antimonarquia têm sido afastados das multidões enlutadas em Inglaterra e na Escócia, e os líderes da Commonwealth apontam o momento da morte da Rainha como uma oportunidade de “debater as disposições constitucionais”. Nos últimos 70 anos, o argumento mais poderoso a favor da Coroa foi a garantia que fornecia como ponto imutável num mundo em transformação. Agora, esse ponto está a girar no seu próprio eixo.

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