Rei Carlos III entrega empresa líder de mercado ao filho: vai William pôr as mãos na terra?

CNN , Julia Horowitz
16 set, 12:59
2009 Principe Carlos numa loja Waitrose Foto David Parker WPA Pool Getty Images

De empreendedor Carlos para o empresário William? Como o novo rei construiu a marca de alimentos orgânicos que o filho agora herda.

Durante anos, o Rei Carlos preparava-se para assumir o papel de monarca após o reinado histórico da Rainha Isabel. Entretanto, ele ocupava outro cargo: proprietário de um negócio lucrativo.

Carlos - há muito um apaixonado defensor de causas ambientais - fundou a Duchy Originals em 1990 quando era o Príncipe de Gales para comercializar produtos da sua quinta. Desde então, a Duchy cresceu até tornar-se a maior marca de alimentos e bebidas orgânicos no Reino Unido, de acordo com a empresa. No ano até março de 2021, a Duchy Originals ganhou quase £3,6 milhões (4,1 milhões de euros) antes de impostos.

A marca tem tido os seus altos e baixos. Mas tem prosperado desde que entrou numa parceria com a Waitrose em 2009: a cadeia de supermercados de gama alta tem agora o direito exclusivo de vender produtos sob o nome Duchy, e os compradores podem encontrar salmão, salsichas, leite, cenouras e mirtilos com o nome "Waitrose Duchy Organic" nas suas lojas.

“Tornou-se um negócio muito bem sucedido”, afirma Andrew Bloch, especialista em relações públicas com base em Londres. “Esta marca pode sentir-se, ela tem coração e alma por detrás”.

O futuro é no entanto incerto. O controlo da marca Duchy Originals está no ar durante o período de luto nacional, que culmina com o funeral de Estado da Rainha, na segunda-feira.

“Estabeleceremos a ligação com a Casa Real sobre os futuros acordos quando chegar a altura certa para o fazer", disse um porta-voz da Waitrose.

A propriedade da Duchy Originals passará muito provavelmente para o filho mais velho de Carlos, o Príncipe William, que também herda o imobiliário separado da Duchy of Cornwall - no valor de cerca de 1,2 mil milhões. E embora o príncipe tenha estudado a agricultura biológica, é provável que ponha menos as mãos na massa que o seu pai.

“Ele vai estar interessado, mas vai confiar a estão a outros”, diz Sally Bedell Smith, biógrafa e autora do livro "Charles: The Misunderstood Prince" [à letra, “Carlos: o Príncipe Incompreendido”].

Um projeto de paixão

Charles passou décadas a pregar os benefícios da agricultura biológica e a proteção do ambiente, mesmo antes de tais questões se tornarem causas dominantes.

Em 1985, converteu a Home Farm, perto da sua propriedade de Highgrove em Gloucestershire, num sistema totalmente orgânico. O empreendimento da Duchy Originals surgiu cinco anos mais tarde.

“Desde o início da década de 1980, quando tive a primeira responsabilidade de gerir algumas terras de direito próprio em Highgrove, quis concentrar-me numa abordagem à produção alimentar que evitasse o impacto do sistema predominante e convencional de agricultura industrializada, que, como é cada vez mais evidente, está a ter um efeito desastroso na fertilidade dos solos, na biodiversidade e na saúde animal e humana", disse Carlos à revista Country Life em 2021.

O primeiro produto Duchy Originals foi uma bolacha de aveia vendida em 1992. Inicialmente, os artigos que ostentavam a marca só eram encontrados em lojas de luxo, como a Harrods e a Fortnum & Mason, embora mais tarde se tenham expandido para pontos de venda como a Waitrose, que se dirige a compradores mais ricos mas tem muitos mais locais.

O negócio estava em terreno pedregoso nos seus primórdios, escreveu Smith no seu livro. Assumiu demasiadas dívidas e a Duchy Originals teve de procurar novos produtores e fabricantes, uma vez que se tornou demasiado grande para depender exclusivamente de Highgrove.

As suas contas melhoraram mais tarde, segundo Smith. Ela relatou que, quando Carlos visitou a embaixada britânica em Espanha, em 2004, entrou com produtos embrulhados, anunciando: "Sou um milionário feito por conta própria, sabia?”

A Waitrose entra em cena

Uma tentativa infeliz de expansão para os Estados Unidos, contudo, combinada com o início da crise financeira global, quase levou o negócio à beira do colapso.

Enfrentando milhões de libras em perdas em 2009, Carlos virou-se para a Waitrose, que lhe lançou uma “linha de salvação” ao concordar em ser distribuidor exclusivo.

Isso marcou o fim das ambições do príncipe de ter uma grande presença no mercado dos Estados Unidos, mas foi também o início de uma reviravolta robusta nas perspetivas do negócio.

“O resgate pela Waitrose durante a crise financeira em setembro de 2009 foi absolutamente vital", disse Smith.

Em 2017, 25 anos após a estreia da bolacha de aveia, a linha tinha-se expandido para 300 produtos, incluindo frutas, vegetais, carne e cerveja, e as vendas anuais atingiram 200 milhões de libras (cerca de 230 milhões de euros). Mais de 30 países em todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, Alemanha, Japão e Austrália, receberam exportações de produtos selecionados.

Carlos tem acesso a uma vasta riqueza pessoal através da sua carteira de terras e propriedades, mas nunca lucrou diretamente com o negócio da Duchy. Todos os direitos da Waitrose recolhidos foram doados a causas caritativas. No seu relatório anual para 2019, a firma afirmou ter angariado mais de 30 milhões de libras (cerca de 35 milhões de euros) desde que fechou o acordo de licenciamento com a Waitrose.

"[O acordo] proporcionou um fluxo de rendimentos muito substancial à sua fundação e ajudou a financiar o seu trabalho caritativo, bem como a promover os produtos orgânicos", disse Smith.

Ainda assim, o projeto não tem passado sem controvérsia. Uma gama de remédios à base de ervas, incluindo a mistura de alcachofra e dente-de-leão "Herbals Detox Tincture", foi acusada por um especialista em medicina alternativa como sendo “charlatanice”. Uma agência reguladora disse mais tarde que os anúncios online de dois dos medicamentos à base de plantas da linha eram enganadores e instruiu a Duchy Originals para alterar a sua redação.

O novo empreendimento de William?

Nos últimos anos, enquanto Carlos se preparava para tomar o trono, têm-se verificado mudanças,.Em 2020, a sua equipa disse que ele não renovaria o contrato de arrendamento da quinta em expansão, mas que continuaria a cultivar organicamente na propriedade da Rainha em Sandringham, Norfolk, que ele tinha começado a gerir em 2017.

Os observadores acreditam agora que William tomará as rédeas da Duchy Originals e da sua parceria com a Waitrose, parte das suas novas responsabilidades como Duque da Cornualha.

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“Penso que haverá uma tensão entre o seu novo papel como Rei Carlos III e o que ele pode e não pode fazer", disse Bloch, que também trabalhou numa base voluntária com a instituição de caridade Charles's Prince's Trust. “É provável que o Príncipe William venha a assumir [o projeto]”.

No seu primeiro discurso à nação como rei, Carlos reconheceu que as suas responsabilidades irão mudar.

"Não me será mais possível dar tanto do meu tempo e energias às instituições de caridade e às questões pelas quais me preocupo tão profundamente", disse ele. "Mas sei que este importante trabalho continuará nas mãos de outros de confiança".

William passou muito tempo na propriedade de Highgrove, tendo crescido e inscrito num curso de gestão agrícola na Universidade de Cambridge, em 2014. Ainda assim, Smith pensa que não estará tão envolvido nos detalhes do negócio.

"Não imagino que ele vá entrar em minúcias, como Charles fez", concluiu.

 

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