As taxas de juro estão todas a subir, mas nos depósitos sobem bem mais devagar. Se tem dinheiro para investir, saiba onde ele rende mais (não, não é nos bancos)

4 out, 07:00
Preços, dinheiro, euro, inflação, economia. Foto: Marijan Murat/picture alliance via Getty Images

O retorno nos depósitos bancários é praticamente nulo, porque a banca tem poder para definir limites. O mesmo não se dá nos juros da habitação, onde essa atualização é automática. E é também à custa da Euribor que os certificados de aforro estão mais atrativos

Os juros sobem, mas não todos ao mesmo ritmo. Se em janeiro os juros dos novos empréstimos para a compra de casa estavam nos 0,81%, em julho, já se situavam nos 1,88%. A diferença é de um ponto percentual.

E, neste período, o que aconteceu aos juros dos depósitos? Passaram de 0,04% para 0,09%. De uma forma simples, o dinheiro que tiver depositado no banco rende-lhe praticamente nada. Mas, porque acontece isto? Se os juros dos créditos estão indexados à Euribor, com atualizações automáticas, nos juros dos depósitos os bancos têm a última palavra.

“Os juros dos créditos estão indexados à Euribor, que é uma taxa conceptualizada. Não é algo que as instituições de crédito controlem por si. Já a remuneração dos depósitos está nas mãos dos bancos, é uma questão de preçários”, concretiza o economista Vinay Pranjivan, especializado em proteção do consumidor e serviços financeiros.

Esta é a lógica: enquanto os bancos ganham mais para conceder crédito, poupam no retorno pago aos clientes que neles guardam o seu dinheiro. “Claramente estão a adiar o máximo possível as subidas das taxas de juro [nos depósitos], para mais lucros”, resume António Ribeiro, economista e analista de produtos de poupança da Deco Proteste.

Isto porque, ao longo dos últimos anos, dizem, os bancos foram usando o argumento dos juros negativos para justificar mexidas mínimas nos juros dos depósitos. Mas agora que esse cenário se inverteu, com as taxas de juro de referência a subir, era expectável que as remunerações dos depósitos seguissem a mesma tendência. Só que não.

“Quando são descidas, cortam logo. Quando são subidas, levam sempre mais tempo”, lamenta António Ribeiro, admitindo, contudo, subidas muito ténues nos próximos meses nos juros dos depósitos. Mas nunca à mesma escala do que se passa no crédito à habitação.

Mas porque insistem os portugueses nos depósitos?

Com os bancos a oferecerem um retorno praticamente nulo para os depósitos, como se explica que os portugueses tivessem, no final de agosto, 181,4 mil milhões de euros depositados nos bancos, segundo dados Banco de Portugal? Conservadorismo, preguiça ou desconhecimento.

“Os portugueses são muito conservadores, muito avessos ao risco. Neste contexto de incerteza, com a pandemia e a guerra, as pessoas não confiam em produtos com maior risco, como fundos de investimento ou ações”, justifica António Ribeiro.

Mas há mais elementos a ter em conta para o sucesso dos depósitos. “Uma das razões tem a ver com a facilidade, com o não ter de fazer nada”, explica Vinay Pranjivan, reconhecendo que a reduzida literacia financeira em Portugal impulsiona este estado de coisas. E recorda que os depósitos até 100 mil euros estão cobertos pelo Fundo de Garantia e Depósitos. Ou seja, se houver problemas com o banco, o cliente não ganha nada, mas também não perde o que depositou.

Tem dinheiro parado? Certificados de aforro

Tem mil euros para investir? E o que gostava mais de receber em troca: 90 cêntimos ou 20 euros? O primeiro valor é o que devia esperar do depósito no banco, o segundo do certificado de aforro. Por isso, se tem dinheiro guardado, saiba que, neste momento, os certificados de aforro são uma boa solução.

Segundo os economistas, já há um retorno acima dos 2% e as expectativas são de que, em 2023, possam mesmo roçar os 3,5%. E porque estão atrativos? “A taxa base é diretamente indexada à Euribor a 3 meses”, sintetiza António Ribeiro. Ou seja, enquanto a Euribor estiver nesta tendência, o retorno dos certificados de aforro vai-se tornando cada vez maior – e de forma instantânea.

Mas há outro atrativo: a falta de risco, já que este produto tem garantias estatais: se investir em certificados de aforro, não se arrisca a perder dinheiro.

Por isso, é mesmo uma questão de vencer a preguiça: para subscrever um certificado de aforro pela primeira vez terá de ir aos CTT, abrir uma conta de aforro, preparar um comprovativo de IBAN da conta onde estão as poupanças e fazer o primeiro depósito.

Lucro fácil? Não, obrigado

Uma das dicas básicas de investimento é ‘não colocar os ovos todos no mesmo cesto’. Por isso, se tem dinheiro para aplicar, saiba que não tem de o colocar todo em certificados de aforro. Há outros instrumentos. Mas, com eles, uma lógica: “há outros produtos que poderão ter uma margem de rentabilidade superior aos certificados de aforro, mas andam de mãos dadas com o aumento de riscos”, diz Vinay Pranjivan, falando em obrigações do Estado ou de empresas.

Na hora de investir, o risco é sempre uma realidade. Mas, “quando há choques de mercado, há maior propensão a acontecer tentativas de atividade ilícita ou não autorizada”. É como diz o velho ditado: quando a esmola é muita, não pode ser só o santo a desconfiar. Por isso, reforce as guardas: confirme nos sites do Banco de Portugal e da Comissão de mercado de valores Mobiliários (CMVM) se a entidade está autorizada a atuar, saiba que o mercado das moedas digitais não está regulado e não entre em esquemas de pirâmide.

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