Crédito à habitação: juros já subiram mais do que na crise de 2008. Veja até onde podem chegar

27 set, 22:06

Prestações vão disparar a partir da próxima semana, quando começar outubro. Juros estão a subir velozmente para os 3% e a OCDE já admite taxas de 4%. É a nova rubrica semanal da TVI, “As Pessoas não são Números”

Tem crédito à habitação? Então prepare-se: outubro será o primeiro mês em que vai sentir um grande aumento na prestação da casa.

Quase 19 em cada 20 créditos à habitação em Portugal têm taxas variáveis, com prestações revistas a cada três, seis ou 12 meses, de acordo com o indexante do contrato. Ora, a atualização é feita tendo em conta a média da Euribor do mês anterior. E setembro foi o primeiro mês em que a média da Euribor ficou muito mais alta. É por isso que os grandes impactos começam em outubro. Na próxima semana.

A Euribor a 6 meses (a mais usada em Portugal) está cerca de dois pontos percentuais mais elevada do que estava há seis meses, em março. E a Euribor 12 meses (a segunda mais utilizada) está quase 2,5 pontos percentuais do que estava há um ano.

Daqui resultam as simulações. Por exemplo, num empréstimo de 150 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor 6 meses, o aumento da prestação será de 141 euros, passando de 454 para 595 euros. No mesmo exemplo mas com indexado à Euribor 12 meses, pior: o aumento em outubro de que revir a prestação será de 194 euros. 

Mais 21 anos a pagar

Mais de 1,43 milhões de famílias portuguesas devem, no total, mais de 100 mil milhões de euros em crédito à habitação. E, em média, faltam-lhe cerca de 21 anos para acabar de pagar o crédito.

Isto significa que, só com os aumentos das Euribor verificados até agora, as famílias portugueses irão pagar por ano mais pelo menos dois mil milhões de euros por ano.

Qual é a prestação média?

Mas quanto devem e quanto pagam os hoje portugueses?

Em média, cada português com crédito à habitação deve cerca de 60 mil euros ao banco - e paga €268 por mês. Estas pessoas passarão a pagar mais cerca de 100 euros por mês.

Mas se olharmos para quem comprou casa apenas nos últimos três meses, com as casas mais caras, então a dívida média é de 128 mil euros - e a prestação mensal de 445 euros. Prestação que aumentará na casa dos 200 euros mensais.

E no futuro? Adultos sem tempo e mais novos sem dinheiro

No futuro vai ser mais difícil comprar casa com crédito. Por três razões:

Primeiro, porque o crédito está mais caro, logo a prestação pesará mais no rendimento das famílias. E isso fará com que os próprios bancos digam mais vezes que não, recusando propostas de clientes que querem comprar casa.

Segundo, porque os adultos mais velhos têm menos tempo. Desde 1 de abril, o Banco de Portugal impôs novas regras em função da idade, que na prática reduzem os prazos dos empréstimos de 40 para 30 anos. E isso implica prestações mensais mais elevadas. Só até aos 30 anos de idade será possível ter um crédito a 40 anos. O problema é que…

… Terceiro, os mais novos não têm dinheiro. A habitação é um dos grandes problemas dos jovens e é mesmo uma das razões pelas quais os jovens não saem de casa dos pais.

Portugal é mesmo o país da União Europeia onde os jovens saem mais tarde de casa, em média aos 33 anos e 7 meses de idade (sendo que as mulheres saem mais tarde que os homens). Isso é quase sete anos mais tarde que a média da UE e por exemplo quase 15 anos depois dos suecos.

Juros vão continuar a subir?

Pode tirar o ponto de interrogação: os juros vão continuar a subir. O BCE sinalizou ontem que vai voltar a subir juros já em outubro pelo menos mais 0,5 pontos percentuais – e não fica por aí. Por isso, a Euribor (que neste momento já superou os 2,5% a 12 meses, quando há um ano era negativa) aproxima-se velozmente dos 3%.

Pior: num relatório divulgado ontem, a OCDE fez uma estimativa que passou despercebida: já admite taxas de juro dos bancos centrais a 4%.

Sim, as taxas vão subir.

Euribor já subiu mais do que crise financeira

Este é outro aspeto que tem passado despercebido. Muitas pessoas perguntam se as Euribor podem atingir o recorde de inicio de outubro de 2008, em plena crise financeira, quando superou os 5,5%. Tudo dependerá da evolução da inflação, mas nem o pessimismo da OCDE aponta para valores tão altos.

Acontece que, não o valor da Euribor, mas o seu aumento, já é maior este ano do que foi em 2008. Nesse ano, a Euribor subiu entre fevereiro e setembro cerca de 1,1 pontos percentuais, passando dos cerca de 4,2% para 5,5%.

Este ano, a Euribor 12 meses, por exemplo, subiu de cerca de 0,4% negativos no início de fevereiro para mais de 2,5% à entrada de outubro.

As prestações não estão, pois, tão caras como então – mas aumentaram mais do dobro de então, nesse ano em que colapsaram bancos como o Lehman Brothers ou, em Portugal, o BPN e o BPP.

Esta análise é feita na nova rubrica “As Pessoas Não São Números”, que todas as terças-feiras irá para o ar no Jornal das 8 da TVI.

Nota: Fontes das informações citadas

Banco de Portugal

- Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito

- Taxas de juro e montantes de novos empréstimos e depósitos: nota de informação estatística de julho de 2022

- Endividamento do setor não financeiro

- Montantes-Empréstimos-Particulares UM-Habitação-M€ (Novas Operações)

INE

- Taxas de juro implícitas no crédito à habitação – agosto

Taxas de juro

- Euribor

- Taxas diretoras do BCE

OCDE

- Economic Outlook, Interim Report September 2022: Paying the Price of War

Eurostat

- Leaving home: Young Europeans spread their wings

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