África do Sul prepara-se para quinta vaga com sublinhagem mais resistente da Ómicron (e que já está em Portugal)

2 mai, 20:47
Covid-19 na África do Sul (Themba Hadebe/AP)

BA.5 já está em Portugal, mas a BA.4 (que não consta no último relatório do INSA) também preocupa os sul-africanos. A diferença no estado vacinal pode ser decisiva, sendo que estudos provam que a vacina continua a atuar perante estas mutações, ainda que perdendo eficácia

O número de casos positivos de covid-19 na África do Sul disparou 22% no último fim de semana. De acordo com os especialistas sul-africanos do Instituto Nacional para Doenças Infecciosas, a esmagadora maioria dos novos casos estão ligados a duas sublinhagens da variante Ómicron, a BA.4 e a BA.5, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) colocou na lista de linhagens em monitorização.

Apesar de terem surgido da Ómicron, estas mutações são “muito diferentes” da original, revelam os especialistas que analisaram alguns dos casos identificados no país. O receio é que estas duas sublinhagens tenham uma maior capacidade em fugir à resposta imunitária, ainda que as vacinas pareçam continuar a ter alguma eficácia. Ainda assim, os casos relatados não sugerem, para já, um aumento da gravidade dos sintomas.

Para o estudo foram retiradas amostras de 39 pacientes infetados com Ómicron. Desses, 15 tinham sido vacinados. “O grupo vacinado mostrou uma capacidade de neutralização cinco vezes maior e deve estar mais bem protegido”, pode ler-se no documento citado pela agência Reuters.

Nas amostras de pessoas não vacinadas a imunidade caiu oito vezes mais com as sublinhagens BA.4 e BA.5 comparativamente com a Ómicron, atualmente denominada BA.1. Já nas pessoas não vacinadas a imunidade baixou apenas três vezes.

“A vacinação continua a ser a chave protetora”, afirmou Richard Lessels, um dos responsáveis pelo estudo, em declarações reproduzidas pela imprensa local.

No entanto, o responsável tem poucas dúvidas quanto ao aumento de casos. “Os nossos dados sugerem que a BA.4 e a BA.5 são responsáveis por um aumento dos casos que estamos a ver. Temos indicadores consistentes de que é isso que está a acontecer.”

Quinta vaga à vista

Toda esta situação, aliada a uma baixa cobertura vacinal (a África do Sul tem apenas cerca de 30% da população com programa de vacinação completo) está a alertar as autoridades para uma quinta vaga no país. O ministro da saúde, Joe Phaahla, já admitiu que a subida de casos das últimas duas semanas é preocupante.

Ao todo, o país volta a ter nesta altura seis mil casos diários, sendo as províncias de Gauteng e KwaZulu-Natal as mais afetadas.

“Não há uma nova variante definida”, garante o ministro, que aponta grandes ajuntamentos como a causa mais provável para o ressurgir de casos.

Mas esta é uma situação controversa: há muito que a comunidade científica defende que a OMS devia considerar uma nova variante decorrente da Ómicron. Isso mesmo disse João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI) a 24 de fevereiro.

“A minha opinião está alinhada com a comunidade científica. É difícil perceber como se pode considerar a BA.2 uma irmã da BA.1, porque têm muitas diferenças. Seria prudente considerar a BA.2 como uma variante de preocupação”, dizia João Paulo Gomes.

De resto, o mais recente relatório do INSA faz precisamente referência à existência das sublinhagens BA.4 e BA.5, que diz resultarem da BA.2. Na prática, são sublinhagens de uma sublinhagem.

A primeira referência a estas duas mutações em Portugal surge a 12 de abril, quando o INSA dizia haver um caso identificado da BA.5. Entretanto, de acordo com o mais recente relatório, publicado a 26 de abril, refere-se que a atividade desta sublinhagem é crescente em Portugal. Até ao momento não foram sinalizados casos da BA.4. Em relação a Portugal, bem como à maioria dos países europeus, refira-se que a cobertura vacinal é cerca de três vezes superior à sul-africana, pelo que os riscos de uma nova vaga serão sempre mais diminuídos.

Voltando à África do Sul, existe outra preocupação a pairar sobre os sul-africanos: a obrigatoriedade da utilização de máscara termina dia 5 de maio, e ninguém parece ter um plano para o que se segue.

As autoridades de saúde pedem que a população mantenha o bom senso, enquanto afirma estar a tentar finalizar novas medidas para regular a situação.

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