“Se queres voltar a beber o problema é teu, se não queres o problema é nosso”. É assim uma reunião dos Alcoólicos Anónimos

12 nov, 08:00
Alcoólicos Anónimos (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Homens e mulheres, de várias idades e estratos sociais, reúnem-se em várias salas do País, para partilhar experiências e seguir uma estratégia de 12 passos para lidar com o alcoolismo. A CNN Portugal esteve num encontro, onde reconhecem ser "doentes alcoólicos", assumem "não ter cura" e contam momentos de desespero - mas não parecem dispostos a desistir do "tratamento"

À volta da mesa redonda, os dez homens preparam-se para começar a falar sobre o problema que os levou naquela tarde, ao nº 3 na rua dos Jerónimos. Todos se conhecem, menos Filipe, que ali está pela primeira vez. Parece calmo, enquanto o colega que está a liderar o encontro, olhando na sua direção explica aos outros: “Hoje o Filipe é a pessoa mais importante na reunião”.

Filipe, um empresário do ramo da restauração e pai de duas adolescentes, decidira que chegara o momento de assumir que tinha atingido o limite e a sua presença era sinal de que estava a pedir ajuda. Quando chegou a sua vez de falar contou que “nunca viu o pai sóbrio” e que, em tempos, prometeu a si mesmo que “nunca seria assim”. As lágrimas cedem, entretanto, enquanto faz a sua partilha. “Acabei por fazer exatamente a mesma merda ou até pior”. Há silêncio para o ouvir.  “Tenho vergonha de ser bêbado; são sempre os que mais amamos, a quem mais fazemos mal”, diz.

Foi por isso que decidiu deslocar-se aquela reunião dos Alcoólicos Anónimos (AA) – uma comunidade de entre-ajuda para homens e mulheres que querem combater o alcoolismo e que passa pela realização de reuniões em grupos para trocarem experiências. 

Faltava pouco para as 19:00 quando, naquela tarde, os elementos do grupo, entre os 30 e os 70,  se encontraram na entrada do Centro Paroquial de Santa Maria de Belém, onde os AA têm uma sala para os encontros. Quase todos vestiam camisa e estavam bem arranjados, uns de calças de ganga e outros de sarja. Só um, o mais novo se apresentava mais descontraído e usava de fato de treino. Pareciam calmos antes de atravessarem a porta que dá acesso ao local onde vão partilhar as suas histórias e a sua relação com o álcool.

Os corredores são estreitos, iluminados por luzes que já começam a fraquejar e que tornam a caminhada sombria. Depois do lance de escadas, na pequena e acolhedora sala, os 10 AA distribuem-se pelas cadeiras castanhas que contornam a mesa disposta em forma de circulo. Há café, bolachas e garrafas de água.

“Não estamos ligados a nenhuma seita, religião ou organização”

Na sala já estão três pessoas: o organizador da reunião e dois dos participantes. Entre cumprimentos, o grupo senta-se sem particular ordem. A reunião vai começar. “Olá eu sou o Arnaldo” -  apresenta-se o líder do encontro, que aproveita para explicar a presença da CNN Portugal e lembrar que ali todos são anónimos. Por isso, tal como Arnaldo, todos os nomes referidos não são reais. Mas as histórias sim. Antes de as partilharem, o organizador fala um pouco sobre a comunidade AA. “Não estamos ligados a nenhuma seita, religião ou organização”, começa por sublinhar, garantindo, depois, que “enquanto alcoólico, não dá conselhos, não critica e não julga outro alcoólico”. 

O organizador acaba o discurso e dá a vez a um dos colegas que inicia a sua partilha com a mesma frase usada por todos os que pertencem a esta comunidade. “Olá eu sou o Rogério e sou alcoólico”. Fala da sua vida, da sua história e da importância de ver o alcoolismo como um problema a lidar para toda a vida. “Sou um doente crónico não tenho cura, mas tenho tratamento, tal como um diabético”.

Nos AA, há um programa de recuperação individual que assenta nos "Doze Passos".  A comunidade garante que "não são teorias abstratas" e que se "baseiam na experiência dos primeiros membros", alcançada através de tentativas bem e mal sucedidas. A teoria apregoa que os membros que se esforcem para seguir estas indicações na sua vida diária terão maiores probabilidades de recuperação. Grande parte dos que frequentam as reuniões entende que "os Passos são uma necessidade prática para manterem a sua sobriedade", como se pode ler no site dos AA.

Segundo a comunidade, tudo começou em Akron, em 1935, "quando um homem de negócios de Nova Iorque, sóbrio pela primeira vez em anos, visitou outro alcoólico". E assim, durante "os seus poucos meses de sobriedade, notou que o seu desejo de beber diminuía quando tentava ajudar outros "bêbedos" a alcançar a sobriedade". Mais tarde, quando se cruzou com um médico local que tinha problemas com a bebida, ambos descobriram que a capacidade de permanecerem sóbrios estaria relacionada com o grau de ajuda e encorajamento que davam a outros alcoólicos.

Membros dos AA são aconselhados a seguir "Os Doze Passos". Este programa de recuperação individual é baseado na experiência dos primeiros membros. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Psicólogos e psiquiatras confirmam que os grupos de autoajuda no tratamento têm benefícios comprovados e esta dezena de homens que hoje se juntou para partilhar experiências parece concordar: “Este amor, faz-me conseguir dizer tudo, mesmo o que não digo a mim próprio”, salientou um dos participantes.

Nas suas partilhas recordam que o "processo" assenta em 12 passos e assumem que não é fácil, não é rápido e muito menos à prova de recaídas. Basta um dia mau, basta faltar a uma reunião ou basta um problema pessoal e “apetece beber”, dizem. E às vezes ao fim de mais de uma década: “Não bebi durante 14 anos e recaí, se não vier às reuniões, vou recair", relata um dos AA . 

Outro garante que sem este grupo de auto-ajuda tudo teria sido mais difícil, ou mesmo impossível:  “Bebi durante 30 anos. Não encontrei outro meio se não este. Então, fiquei e fui ficando. Para mim, foi um milagre”, explica.

“Se venho às reuniões não recaio”

Rogério acredita que só segundo as regras do AA estará seguro. “Bebo o primeiro copo e não paro. Não posso tocar em álcool”. Frequentar estes encontros, garante, tem sido essencial. “Se venho às reuniões não recaio”.

Dentro da sala todos se identificam como "companheiros" e há um lema sempre presente: “Se queres voltar a beber o problema é teu, se não queres o problema é nosso”, frisa outro dos elementos do grupo, quando chega a sua vez de partilhar o que entender.

Naquele fim de tarde, todos falaram. Cada história é única, mas, há traços comuns em todos os casos, como reconhece um dos elementos mais antigo do grupo: “É tudo igual, a impulsividade, o gostar de beber, as vidas desfeitas. Somos todos iguais. Sempre me achei diferente, mas sou igual”.  Também todos passam pela mesma sensação ao entrarem nos AA, garantem – a de que não estão sozinhos.  Como explica um dos AA durante a sua intervenção, pouco tempo depois de ter aderido ao grupo percebeu que havia muitos outros com o seu desafio."Afinal, isto não é só comigo e não sou o único" - pensou de imediato.

Grande parte deles, também levou tempo até ganhar consciência do problema. “Mantive as máscaras e fui sempre continuando a beber. Era o dono da razão. A culpa era de todos menos minha, até os meus entes mais queridos culpei. Não conseguia lidar com os sentimentos e emoções que ia encontrando. Se fosse uma grande dor bebia, se fosse uma grande alegria bebia, se fosse uma zanga bebia, mas se fosse uma festa também bebia. Fui crescendo pouco a pouco”, relata Rui, que naquele final de tarde está sentado à volta da mesa.

Aqui desabafa-se, conta-se o passado e perspetiva-se um futuro diferente, mas persiste sempre o receio de escorregar. Na sala, a recaída é o inimigo público número um. Impera a fraternidade e a entreajuda, cada um fala a  tempo que quer e como entender. Ao início, todos o cumprimentam e, no fim, todos agradecem a intervenção, sempre em uníssono: "Obrigado, Rui".

"Mais vale ser um bêbado conhecido do que um alcoólico anónimo"

O mais novo da sala decide falar. Deverá ter cerca de 30 anos e lembra a época em que gozava com os amigos ou consigo próprio com a frase: "Mais vale ser um bêbado conhecido do que um alcoólico anónimo". Agora, admite que "estava completamente errado". Aqui as emoções estão à flor da pele, passa-se do riso à lágrimas num ápice. Todavia, durante esta montanha russa o apoio nunca escasseia, entre acenares de compreensão e olhares que refletem dejavus de quem já passou, viveu ou experienciou o que ouve.

A entrada da sede dos Alcoólicos Anónimos de Portugal, situada em Santo António dos Cavaleiros. (Fotografia de Miguel Mateus/CNN)

Há um inimigo em comum, o álcool e a falta de controlo depois do primeiro golo. Um cenário que é transversal a todos os estratos sociais, crenças ou etnias, explica um dos participantes mais velhos. Confidencia que desde a sua primeira reunião já passaram quase quatro décadas e que, entretanto, “aprendeu muita coisa” nestas reuniões. Recorda que ao início assumiu que o alcoolismo e a pobreza andavam, exclusivamente, de mãos dadas. “Só percebi que aqui não havia extratos quando vi presidentes, políticos, advogados e juízes”.

Naquela tarde todos os presentes são do sexo masculino, mas apenas por acaso. Nos AA também há mulheres. Aliás, segundo dados oficiais, "cerca de um terço dos membros actuais é constituído por mulheres e, entre os recém-chegados, a proporção está decididamente a aumentar".

Pelo meio da reunião, circula entre os presentes um pequeno saco de contribuições. De mão em mão, as doações são recolhidas - cada um é livre de colocar a quantia que entender. O organizador lembra que este é um grupo autossustentável, que sobrevive apenas das doações dos participantes e da venda de livros efetuada no site. 

Sem associações religiosas, partidárias ou estatais, os AA são compostos por anónimos, todos eles alcoólicos em tratamento. Só os nomes do presidente e da vice-presidente são conhecidos, como método de salvaguardar a identidade de todos os presentes. Reúnem-se em várias salas do país, em que qualquer pessoa é bem recebida e a quem é oferecido um caminho para a recuperação.  Pelo mundo, há já 114 mil grupos.

Em Lisboa, no nº 3 da Rua dos Jerónimos, na última quinta-feira de cada mês, a reunião é aberta, onde familiares, amigos ou até jornalistas são bem-vindos. Da porta para dentro, são todos iguais, são todos alcoólicos em tratamento.  Mas há encontros que são reservados aos membros dos AA. Aí só pode participar quem lida com o problema. "É uma oportunidade para discutir determinadas fases do seu percurso alcoólico que só podem ser entendidas plenamente por outros alcoólicos" - explicam os responsáveis da comunidade no site. 

Quando a reunião daquela tarde acaba, os AA juntam-se na rua, novamente em frente à pequena porta ao lado da Casa Pia, e recordam momentos únicos e atípicos a que assistiram. Lembram que já viram participantes israelitas abraçar palestinianos ou russos que confraternizaram com ucranianos. Aqui a motivação é só uma: combater o alcoolismo, considerado doença crónica pela Organização Mundial de Saúde desde o século passado.

Para contatar os AA dispõe do número 217 162 969, podendo também aceder ao site www.aaportugal.org

 

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