"No álcool, a melhor quantidade é zero”. Quanto podemos beber? O que dizem os especialistas

16 jul, 12:00
Cerveja

Cerca de 10% das mortes de adultos em Portugal são da responsabilidade do álcool, alerta o hepatologista Leopoldo Matos à CNN Portugal

Apesar de aceite na sociedade, o álcool é uma droga psicoativa, ou seja, que provoca alterações no comportamento de quem o consome e pode causar dependência. Isto significa que "a grande aceitação de que goza, permite catalogar como sendo normais padrões de consumo que, na realidade, são claramente exagerados", explica o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) do Serviço Nacional de Saúde, sublinhando que "do exagero surgem uma série de consequências adversas". 

Dados citados pelo jornal espanhol El País indicam que mais da metade das doenças hepáticas em estado terminal estão relacionadas com o consumo de álcool, sendo que na Europa todos anos cerca de 287 mil pessoas morrem devido a doenças do fígado. São mortes que poderiam ser evitadas com hábitos de vida saudáveis, ainda que o continente europeu seja aquele que mais álcool consome em todo o mundo.

As doenças hepáticas podem igualmente afetar pessoas jovens, segundo dados da Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL) e da revista The Lancet, que apontam mesmo para uma tendência de morte nesta faixa etária se não forem tomadas medidas. 

Em Portugal, "10% das mortes de adultos são da responsabilidade do álcool", diz o hepatologista Leopoldo Matos à CNN Portugal. E segundo o especialista as doenças hepáticas têm aumentado não só por causa de doenças virais, mas também devido às bebidas alcoólicas. 

Citando um colega, o médico lembra que “em 2018 morreram 2.493 pessoas por doenças ligadas ao álcool”, enquanto em 2019 28 mil pessoas foram internadas por causas relacionadas com a substância.

A quantidade certa para beber

De acordo com o hepatologista, o consumo de álcool em Portugal é bastante elevado - cerca de 12 litros por ano, per capita, o que o leva a acreditar que, apesar de “o ideal ser não beber”, que essa realidade possa ser difícil para grande parte da população.

“A quantidade e a qualidade são determinantes”, sendo que uma pessoa não deve ultrapassar duas porções de bebidas alcoólicas com cerca de 10 gramas de álcool. Ou seja, se forem consumidas apenas 20 gramas por dia “em princípio não há danos", tratando-se de adultos saudáveis, sublinha Leopoldo Matos. 

E um copo de vinho por dia até pode ser permitido, “desde que seja mesmo só um copo de vinho”, salvaguarda.

O caso é diferente nos mais jovens. O médico explica que durante a adolescência ainda decorre o desenvolvimento do sistema nervoso central, pelo que o consumo de álcool pode causar deficiências nos sistemas cognitivo e orgânico, provocando danos a longo prazo.

“Normalmente começa-se a beber aos 13 anos”, observa Leopoldo Matos, citando um estudo recente. “Não é habitual a ocorrência de doenças complexas ligadas ao fígado causadas pelo álcool em jovens, mas um dos riscos, para além dos mencionados, é a dependência, que mais tarde leva a problemas hepáticos”, avisa.

No Congresso Internacional do Fígado, em Londres, que reuniu alguns dos maiores especialistas mundiais em hepatologia, Aleksander Krag, secretário-geral adjunto da EASL, diz ao El País que a questão “não é dizer às pessoas que elas não podem beber nada”, mas aconselhou o cumprimento do que considerou serem “regras muito boas", como "ficar três dias sem beber toda a semana”.

“Talvez uma cerveja ou um copo de vinho por dia não prejudique o fígado, mas existem outros riscos. O álcool é viciante e dá uma sensação de bem-estar que, assim que se bebe, tende-se a querer um pouco mais. E, ao mesmo tempo, gera habituação porque para encontrar essa sensação é necessário beber cada vez mais. No álcool, a melhor quantidade é zero”, acrescenta Juan Revenga, consultor de alimentação e saúde.

Espalhar a palavra

Leopoldo Matos sugere um reforço de esclarecimentos e de campanhas junto dos jovens, docentes e pais para sensibilizar para esta temática, de que o consumo de álcool pode ter consequências.

Os especialistas entrevistados pelo El País sugerem ainda aumentar o preço do álcool e diminuir a sua promoção.

“Está bem documentado que o preço do álcool é importante. No País de Gales e na Escócia foi colocado um preço mínimo e o consumo caiu da noite para o dia”, exemplifica Aleksander Krag. 

Quanto à promoção, o secretário-geral adjunto da EASL compara as bebidas alcoólicas ao tabaco, cujas embalagens alertam para os perigos do seu consumo. “Por que não implementar essas medidas simples? A indústria do álcool não vai gostar, mas trata-se de proteger os cidadãos", defende, questionando: "Por que é legal anunciar álcool?”

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