Porque é que as viroses dos bebés deixam os adultos quase sempre de rastos?

Há 9 min
Gripe, constipação
Gripe, constipação (Pexels)

O cenário repete-se todos os anos e quem já ultrapassou a fase do chamado “infetário” diz sempre que tudo acaba por melhorar. E é mesmo assim: os dois primeiros anos são sempre mais críticos, sobretudo para os pais, e a culpa pode estar na memória do sistema imunitário

Começa com um pouco de corrimento nasal, um ou dois dias de febre e passa para uma tosse que se arrasta durante semanas. Quando os pais dão por si, um deles já está ‘de cama’. E, se não é isto, é uma diarreia ou uns vómitos que, num ápice, os levam a correr para a casa de banho. Assim que entram na creche, as crianças passam a estar em contacto direto e frequente com uma panóplia de vírus, sobretudo respiratórios, como os rinovírus e os adenovírus, e gastrointestinais, como os rotavírus e os norovírus. Embora alguns possam ser verdadeiramente perigosos em bebés e crianças pequenas, o sistema imunitário dos mais pequenos é mais ‘ingénuo’, o que pode ajudar a explicar por que razão, em muitos casos, os sintomas se limitam a um ou dois dias, acabando por recuperar rapidamente. Já o mesmo não acontece necessariamente com os pais.

“Em adultos, o contacto com esses vírus é mais espaçado e o que pode acontecer é termos perdido a memória imunológica que adquirimos há mais tempo, na infância, é como se fosse sempre uma primeira infeção, um primeiro contacto e, por isso, muito mais sintomático do que nos nossos filhos”, começa por explicar o infeciologista Daniel Silva Coutinho. 

A memória imunológica de que o médico fala vai sendo adquirida pelas crianças através da exposição continuada aos vírus ou da vacinação e ajuda a protegê-las ao longo da infância. No entanto, essa proteção pode diminuir com o passar dos anos, sobretudo quando o contacto com estes agentes se torna muito esporádico ou quase inexistente. Além disso, explica o infeciologista, "ao longo do envelhecimento há um processo chamado imunossenescência: o nosso sistema imunitário fica mais fragilizado com os anos e perdemos algumas das proteções, dos anticorpos e das defesas imunológicas que adquirimos e que ajudam a combater os vírus”. Assim, quando voltamos a entrar em contacto com estes agentes, “é como se fosse a primeira vez”, continua o especialista. O médico lembra ainda que, “a partir dos 30, 40 anos”, é também comum existirem outras doenças associadas, que podem contribuir para que os sintomas das infeções virais trazidas das creches sejam mais intensos e duradouros.

Mas há outros fatores para os pais ficarem “de rastos” ou até mesmo “de cama” com as viroses dos filhos. Um dos principais, diz o médico, é a falta de descanso e de sono: “está mais do que comprovado que a nossa imunidade depende do nosso descanso, do sono”. Mas não só: o estado nutritivo, a imunossupressão por medicamentos, as neoplasias e o próprio estilo de vida da pessoa também podem atuar como escudo ou como gatilho para estas infeções. “Toda a nossa rotina diária tem impacto na nossa proteção”, vinca o médico.

Quem já ultrapassou a fase do chamado “infetário” diz sempre que tudo acaba por melhorar. E é mesmo assim: os dois primeiros anos são sempre mais críticos, com muitos vírus a entrar pelas casas adentro das famílias, e com as crianças a mostrarem cada vez mais resiliência com o passar do tempo, até porque, só no primeiro ano de creche ou de convívio com outras crianças, um bebé pode ter oito a 12 infeções respiratórias por ano. 

“Com estas infeções, a própria criança adquiriu imunidade do contacto com esses vírus e protegeu-se ela própria, por isso, a possibilidade de transmitir aos pais vai diminuindo, a carga viral tende a ser mais baixa e a probabilidade de transmissão diminui”, conclui Daniel Silva Coutinho.

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