Mudar a forma como deita um bebé pode salvar-lhe a vida. Estes são os erros que deve evitar

CNN , Katia Hetter
Há 1h e 2min
Sono bébé
Sono bébé Traduzidos

Cerca de 3.400 bebés morreram de forma súbita e inesperada nos Estados Unidos em 2024. Um novo relatório revela que quase três quartos das mortes analisadas ao longo de cinco anos envolveram condições de sono inseguras - fatores de risco que os pais e cuidadores podem ajudar a evitar com mudanças simples

A morte súbita e inesperada de lactentes vitimou cerca de 3.400 bebés nos Estados Unidos em 2024. Apesar de décadas de esforços de saúde pública para promover práticas de sono mais seguras, estas mortes continuam a ser uma das principais causas de mortalidade durante o primeiro ano de vida.

Um novo relatório dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) concluiu que quase três quartos das mortes analisadas, ocorridas entre 2020 e 2024, envolveram fatores associados a condições de sono inseguras.

Isto significa que há medidas que os pais e cuidadores podem tomar para reduzir os riscos. O primeiro passo é saber como deve ser um ambiente de sono seguro.

Falámos com a especialista em saúde e bem-estar da CNN, a médica Leana Wen, para perceber o que podem fazer os pais e outros cuidadores para reduzir o risco para os bebés. Wen é médica de urgência e professora associada de Medicina Clínica na Universidade George Washington. Foi anteriormente responsável pela saúde pública da cidade de Baltimore e é mãe de duas crianças pequenas.

CNN: O que concluiu o novo relatório dos CDC sobre a morte súbita e inesperada de lactentes?

Dra. Leana Wen: A morte súbita e inesperada de lactentes, conhecida pela sigla inglesa SUID, é um termo geral que designa a morte súbita e inesperada de um bebé com menos de um ano. Inclui a síndrome de morte súbita do lactente (SMSL), bem como os casos de asfixia e estrangulamento acidentais na cama e as mortes cuja causa permanece desconhecida.

Para este relatório, os CDC analisaram 4.861 casos de morte súbita e inesperada de lactentes ocorridos entre 2020 e 2024, em 31 jurisdições dos Estados Unidos que participam no registo de casos da instituição. Este registo disponibiliza informações detalhadas sobre as circunstâncias em que ocorreram as mortes, que não estão disponíveis apenas através das certidões de óbito.

A principal conclusão é que 73% das mortes foram classificadas como tendo envolvido fatores associados a condições de sono inseguras. Analisando as características específicas do ambiente de sono, 78% dos casos envolveram roupa de cama macia; 75% ocorreram numa superfície de sono que não era um berço ou um berço de grades; 59% envolveram a partilha da superfície de sono com outra pessoa ou um animal; e, em 46% dos casos, os bebés foram encontrados a dormir de barriga para baixo ou de lado, em vez de estarem de costas. Estas categorias sobrepõem-se, pelo que um mesmo bebé pode ter estado exposto a vários destes fatores de risco.

Foram também identificadas disparidades raciais significativas. Os bebés negros representaram 38% das mortes incluídas no registo, e os CDC salientaram que a morte súbita e inesperada de lactentes afeta de forma desproporcionada bebés negros e bebés indígenas norte-americanos ou nativos do Alasca. As razões são complexas e podem incluir diferenças no acesso aos recursos necessários para aplicar de forma consistente práticas de sono seguro.

Como deve ser um ambiente de sono seguro?

A Academia Americana de Pediatria recomenda que os bebés sejam deitados de costas sempre que dormem, incluindo durante as sestas. A superfície deve ser firme, plana e concebida para o sono infantil, como um berço, um berço de grades ou um berço portátil que cumpra as normas federais de segurança em vigor.

O berço deve estar vazio ou praticamente vazio. Deve utilizar-se um colchão firme, coberto por um lençol ajustado, sem almofadas, cobertores, edredões, protetores de grades ou outros objetos macios. Se os pais recearem que o bebé tenha frio, podem recorrer a um saco de dormir para bebés ou a outra peça de roupa adequada para dormir, em vez de colocarem um cobertor solto no berço.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que os pais partilhem o quarto com o bebé, mas não a cama, idealmente durante, pelo menos, os primeiros seis meses. Isto significa que o berço ou o berço de grades do bebé pode ficar junto à cama dos pais, facilitando a alimentação e o conforto da criança, mas o bebé deve dormir numa superfície separada.

Os bebés devem ser sempre deitados de costas para dormir. O tempo passado de barriga para baixo, conhecido como tummy time, é importante para desenvolver a força muscular e as capacidades motoras, mas só deve acontecer quando o bebé está acordado e sob supervisão constante. Quando os bebés já conseguem virar-se sozinhos de costas para a barriga e da barriga para as costas, os pais não precisam de continuar a reposicioná-los durante o sono. Ainda assim, devem deitá-los de costas no início de cada período de sono.

Estas recomendações aplicam-se sempre que o bebé dorme e em qualquer local. Não basta ter um berço seguro em casa se o bebé dormir de outra forma em casa dos avós ou de quem toma conta dele. Todas as pessoas que cuidam de um bebé devem seguir as mesmas práticas, e as famílias devem mantê-las também durante as viagens.

Porque são perigosas a roupa de cama macia e a partilha da cama com um bebé?

Os bebés mais pequenos têm uma capacidade limitada para mover a cabeça e o corpo quando algo interfere com a respiração. A roupa de cama macia representa um perigo particular, porque uma almofada, um cobertor ou outro objeto pode tapar o nariz e a boca do bebé, que poderá não conseguir mudar de posição para voltar a respirar livremente.

A partilha de uma superfície de sono cria riscos adicionais. Um adulto, uma criança ou um animal pode, involuntariamente, deitar-se sobre o bebé ou obstruir-lhe as vias respiratórias de outra forma. Os bebés também podem ficar presos entre um colchão e uma parede, uma cabeceira ou outro objeto. É por isso que as camas de adultos não são consideradas superfícies seguras para o sono dos bebés. Os sofás e os cadeirões podem ser ainda mais perigosos: o bebé pode ficar preso entre as almofadas ou entre a pessoa que adormeceu e o próprio móvel.

Os dados dos CDC ilustram estes perigos. Entre as 919 mortes que os investigadores atribuíram a asfixia associada a fatores de sono inseguros, em 74% dos casos a via respiratória ficou obstruída por roupa de cama macia. Cerca de uma em cada quatro mortes envolveu o chamado "sobreposição", quando outra pessoa ou um animal obstruiu as vias respiratórias do bebé, e 8% dos casos envolveram bebés que ficaram presos entre objetos. Algumas mortes tiveram mais do que um mecanismo associado.

Que outras medidas podem os pais e cuidadores adotar para reduzir o risco de morte súbita e inesperada de lactentes?

A medida mais importante é seguir as práticas de sono seguro sempre que o bebé dorme. Isso significa deitá-lo de costas, no seu próprio berço ou berço de grades, sem roupa de cama macia nem outros objetos à sua volta.

Os pais devem também evitar fumar e consumir nicotina durante a gravidez e impedir que o bebé seja exposto ao fumo passivo após o nascimento. A exposição ao fumo do tabaco aumenta o risco de síndrome de morte súbita do lactente, pelo que ninguém deve fumar ou utilizar cigarros eletrónicos junto do bebé, em casa ou no carro. Devem também evitar o consumo de álcool, marijuana, opioides e drogas ilícitas durante a gravidez e após o parto. Estas substâncias podem aumentar os riscos durante a gravidez e, quando consumidas pelos pais ou por outros cuidadores, podem comprometer a capacidade de acordar e reagir às necessidades do bebé.

Além disso, a Academia Americana de Pediatria recomenda a amamentação e a utilização de chupeta durante as sestas e à hora de dormir, uma vez que estas práticas também estão associadas a uma redução do risco de síndrome de morte súbita do lactente. As grávidas devem receber acompanhamento pré-natal regular e os bebés devem receber as vacinas recomendadas.

O que devem fazer os pais se o bebé adormecer numa cadeira auto, num carrinho de passeio, num baloiço ou num marsúpio?

As cadeiras auto são essenciais para proteger os bebés durante as deslocações de automóvel, mas não se destinam a ser utilizadas regularmente como locais para dormir fora do carro. É comum os bebés adormecerem em cadeiras auto, carrinhos de passeio e marsúpios, e os pais não precisam de se preocupar só porque isso acontece.

Quando chegam ao destino, devem transferir o bebé para uma superfície adequada, concebida para o sono infantil. A principal preocupação é a posição em que a criança se encontra. Os bebés mais pequenos têm a cabeça relativamente grande e um controlo limitado da cabeça e do pescoço. Numa superfície inclinada ou na posição sentada, a cabeça pode tombar para a frente ou o corpo pode deslizar para uma posição que comprometa a respiração.

Quanto aos baloiços, os pais devem ter especial cuidado quando estes são apresentados como produtos que ajudam os bebés a dormir. O facto de um produto ser comercializado para bebés não significa que seja adequado para dormir sem supervisão. A opção mais segura continua a ser uma superfície firme, não inclinada e que cumpra as normas de segurança para o sono infantil.

E no caso de pais exaustos que levam o bebé para a cama para o alimentar ou confortar?

Esta é uma questão prática importante, porque as mamadas durante a noite acontecem quando os pais estão, compreensivelmente, exaustos. É mais fácil seguir as recomendações de sono seguro se o berço ou o berço de grades do bebé estiver junto à cama dos pais. Depois de alimentarem ou confortarem o bebé, devem voltar a colocá-lo nesse espaço de sono separado antes de adormecerem novamente.

Se um dos pais adormecer involuntariamente enquanto alimenta o bebé na cama, deve colocar a criança de volta no berço ou no berço de grades assim que acordar. Durante a alimentação, devem manter-se almofadas, cobertores e outros objetos macios afastados do bebé, caso o adulto adormeça sem querer.

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