Se este artigo farmar aura, ótimo. Se for cringe, são menos mil pontos na aura da jornalista. Se o leitor não tankar até ao fim, a jornalista está cooked. E quanto ao "six seven"... six seven… Não percebeu? Não é o único e talvez tenha acabado de descobrir como se sente um adulto quando ouve falar um grupo de adolescentes
Pedro tem 13 anos, Martim já fez 14 e Hugo quase 16. Jogam futebol no mesmo clube, mas não é só a bola que os une. São os melhores amigos, vivem na casa uns dos outros e, quando não estão juntos, passam horas online e ao telefone, a falar uns com os outros. Falam uma linguagem especial, que os adultos que os rodeiam têm dificuldade em perceber. Uma espécie de código que é comum a milhões de jovens das mesmas idades e que passa de moda a uma velocidade que só eles são capazes de acompanhar.
Acabado de regressar das férias no Algarve, Hugo conta a Pedro, que está a seu lado, e a Martim, do outro lado do telefone: “Farmei bué aura nas férias!”. “Porquê? Tankaste muito?”, perguntam-lhe os amigos. “Ya! Tankei bué tempo sem bola, mano!”, responde Hugo.
Que esta conversa exige tradução simultânea, não é propriamente uma novidade. Os adolescentes sempre falaram uma língua parcialmente inacessível aos adultos. Talvez já não se lembre, mas no seu tempo também era assim. Faz parte do crescimento e do desenvolvimento da identidade individual e grupal.
Identidade, pertença e diferenciação
Mas porque é que falar uma linguagem própria faz parte da adolescência? Porque precisam os adolescentes de um código próprio para comunicar? Alfredo Leite, licenciado em Psicologia, professor universitário, empresário e palestrante, não hesita em responder: “Porque estão a fazer uma das tarefas fundamentais da adolescência.” Ou seja, estão a criar a própria identidade fora da identidade que receberam da família. “O código próprio permite dizer ‘eu pertenço aqui’. Não é necessariamente rejeição dos pais! Mesmo quando alguns pais se sentem confusos. É diferenciação. Eles não estão a perder o juízo. Estão a construir identidade”, reforça o especialista, cujo trabalho envolve precisamente adolescentes, escolas, educação e comunicação.
“Quando um adolescente percebe six seven e o adulto não percebe, a expressão cumpriu uma função social: identificou imediatamente quem está dentro e quem está fora. Funciona quase como uma palavra-passe”, acrescenta Alfredo Leite.
O professor universitário diz mesmo que, “em certa medida”, é até importante que os jovens tenham um código próprio que o adulto não conheça. Mas faz uma ressalva importante: “Isso não significa ausência de supervisão. Significa autonomia progressiva.” “Um pai não precisa de conhecer cada piada para continuar a ser pai. Precisa de conhecer o filho”, sublinha.
E se uma expressão criada por determinado grupo foge da alçada desse grupo, quando os adultos se começam a apropriar de determinada expressão, isso pode significar a morte da mesma. Alfredo Leite fala numa “espécie de inflação linguística”: quanto mais universal se torna a expressão, menos exclusiva ela se torna e tende a ser abandonada por quem a fez nascer.
Quando o online se mistura com o offline
Uma das particularidades que difere a gíria dos adolescentes de agora é que a esmagadora maioria das expressões que usam nasceram online, nas redes sociais e nos videojogos. E isso pode estar a afetar a forma como os jovens comunicam cara a cara. Alfredo Leite considera que a fronteira entre o online e o offline é cada vez mais ténue. “Uma expressão nasce num vídeo, transforma-se num meme e, poucas horas depois, aparece no recreio, na sala de aula e à mesa de jantar. O digital tornou-se uma fábrica de matéria-prima para a interação presencial”, diz o psicólogo.
E se, antes das redes sociais, a gíria viajava de boca em boca e se aprendia com o irmão mais velho, com os colegas da escola ou do bairro, agora, quem propaga estes neologismos é o algoritmo, o que lhes imprime uma globalização que antes não era conhecida. “O adolescente continua a procurar pertença, mas o grupo de referência potencial tornou-se global. Um jovem português pode repetir hoje uma expressão criada há poucos dias por alguém na Indonésia ou nos Estados Unidos. A necessidade psicológica é antiga. A infraestrutura é nova”, brinca Alfredo Leite.
Mesmo quando a gíria não faz sentido ou não tem significado, ela está a fazer o seu trabalho. Questionados o que significa exatamente a expressão six seven, Hugo e Pedro riem-se e respondem: “não significa nada”. Então e para que a usam? “Precisamente para dizer que alguma coisa não significa nada. Que tanto faz”, responde Pedro.
Mas Alfredo Leite diz que é humor e humor é bom. “Não devemos é ‘diagnosticar’ uma geração inteira através de memes. Há uma forte componente de absurdo, repetição, ironia e humor autorreferencial. E precisamente porque six seven pode não precisar de um significado estável, perceber a piada torna-se parte da própria piada”, explica.
Da próxima vez, nem pergunte o que significa six seven. O especialista lembra que “o absurdo também funciona como código de pertença”: "Quem exige uma explicação literal já demonstrou que está fora do grupo.”
“Não pergunte o que significa a palavra para controlar. Pergunte para aprender. A pergunta certa é curta: ‘explica-me lá isso, que eu não percebi’. A errada é: ‘isso agora é o quê?’. O six seven durou meses, quando o normal é durar semanas. E há especialistas a apontar a razão: durou porque irritava os adultos. A reação do adulto era o combustível”, explica Alfredo Leite.
"Não estão a roubar nada à língua"
Em Portugal, a gíria da geração Alpha é pródiga em ir beber inspiração ao inglês. Não é só farmar (que é uma adaptação do verbo to farm). Há também o ghostar, shippar, o slayar e o tankar, por exemplo.
A linguista Sara Almeida Leite olha para estas importações como uma oportunidade e não como uma tragédia para o português: “Não estão a roubar nada à língua. Não estão a limitar as formas de comunicação em português. Estão só a acrescentar. Até porque este tipo de comunicação é transnacional. Podemos ter portugueses e sul-coreanos a usarem a mesma linguagem está para lá do idioma linguístico.”
“Podemos achar que farmar é uma coisa horrível, estranhíssima… mas aconteceu o mesmo quando se pegou em click e passámos a dizer clicar ou quando pegámos em blog e passámos a dizer blogar. Alguém diz ‘não digas surfar, que isso não é português!’? claro que não e surfar também vem de um anglicismo. Há adultos a dizer coisas como deletar, pintar, scanear”, exemplifica a linguista.
Além disso, diz a especialista, os adolescentes nunca vão falar só adolescentês. Eles precisam da língua para expressar ideias mais elaboradas e para comunicar noutros contextos que não só o grupal. Por isso, considera Sara Almeida Leite, é uma “comunicação bastante limitada”. “Não quer dizer que os jovens devam usar esta linguagem num trabalho para a escola, na sala de aula ou à mesa com a família. É para ser usado entre eles, não é para ser usado com os professores, com os pais”, defende.
E porque comunicar não é só a palavra, em relação à geração Alpha, podemos estar até diante de um fenómeno muito maior do que a gíria. Podemos estar diante de um socioleto. “Não se cinge ao vocabulário. Tem os gestos, as expressões faciais e envolve a prosódia - a sonoridade da língua, o próprio tom de voz que se usa quando se diz. Porque o tom de voz também comunica. Mas sobretudo os gestos. Estes jovens estão a elevar os gestos e as expressões corporais a um estatuto gramatical”, considera Sara Almeida Leite.
Uma linguagem a que os adultos já se renderam
Farmar aura, six seven ou tankar são expressões tão repetidas pelos jovens, que já não são indiferentes aos adultos. Alguns até se atrevem a falar adolescentês ou, pelo menos, tentam.
A Santa Casa de Belmonte, uma instituição com mais de 400 anos, colocou recentemente nas redes sociais um vídeo com dois dos seus idosos a mostrar como se farma aura depois dos 65 anos. Em pouco mais de 24 horas, o post do Instagram arrancou mais de 10 mil gostos e meio milhar de comentários.
O último reduto adolescente parece estar sob ameaça. Os adultos descobriram a aura.
Há um lado do mundo dos adultos que encara o fenómeno da linguagem própria dos adolescentes com humor e há outro que já se rendeu. O six seven, por exemplo, já tomou conta do Google: se tentar pesquisar “six seven” ou “6-7”, o próprio motor de busca treme, procurando simular os movimentos que os jovens fazem com as mãos enquanto o dizem. É exatamente o tipo de exemplo que mostra como uma piada interna juvenil já foi apropriada pela cultura mainstream.
Qual dancinha do Jamal ou o SIIIIMMMM de Cristiano Ronaldo, qual quê? No futebol, o six seven já é usado por muitos jogadores como gesto de comemoração de golos. O brasileiro Casimiro é um deles. Já fez o six seven várias vezes.
Começou no clube, levou a comemoração para a seleção e, no Mundial, no jogo Brasil – Panamá, Vinicius Jr. juntou-se a Casimiro e comemorou com ele usando o six seven.
Iago Aspas marcou dois golos pelo Celta contra o Mallorca, em fevereiro, e celebrou um deles com o six seven. “Yo no entiendo mucho”, respondeu quando lhe perguntaram o que significava. Afinal, era só um pai a responder a um pedido dos filhos.
SIX SEVEEEEEEEEEEEN 🗣️ pic.twitter.com/LZkFMxixW0
— Celta (@RCCelta) February 22, 2026
As batalhas de rua
As Aura Battles tomaram conta dos recreios das escolas e das ruas das cidades um pouco por todo o mundo. As Aura Battles explodiram sobretudo em agosto de 2026, com encontros organizados pelas redes sociais na América Latina e já em Espanha. Numa reportagem, a Associated Press descreve-as como eventos públicos, maioritariamente juvenis, e há exemplos em México, Peru, Bolívia, Argentina e Brasil.
@dymrstore #aurabattle ♬ original sound - DYMR
Não demorou muito a chegar a Portugal e, por cá, também já há vídeos a circular nas redes sociais de adolescentes em danças peculiares a competir para ver quem farma mais aura. Em Leiria, temos um caso ainda mais peculiar. Começou a circular nas redes o anúncio do “1.º Campeonato de Farmar Aura de Leiria”, marcado para 1 de outubro, supostamente no pátio da “Universidade de Leiria e Oeste”. Aparentemente começou como uma piada do projeto Aqui é Leiria, ganhou vida própria, começou a ser divulgado como evento verdadeiro e chegou ao ponto de a instituição visada esclarecer que não tinha autorizado o evento e de Associação Académica se ver obrigada a demarcar-se publicamente do assunto.
Quando os gestos, as palavras e as expressões se misturam
Nas Aura Battles, os participantes estão precisamente a usar six seven, rizz face, mewing, poses sigma e até o “Siuuu” do Cristiano Ronaldo como movimentos para derrotar o adversário. Portanto, farmar aura, six seven ou rizz já não são sequer dois exemplos independentes. O léxico transformou-se numa espécie de linguagem performativa: primeiro dizem-se os memes, depois fazem-se fisicamente. Há palavras que já nem precisam de ser ditas. O six seven ganhou um gesto, a aura ganhou campeonatos.
Pedro, Hugo e Martim não acham graça nenhuma às farma batles. Antes pelo contrário. “Isso, para mim, é tudo menos farmar aura. Isso, para mim, é mas é perder aura!”, exclama Pedro.
Hugo nem precisa de competir com ninguém para saber que tem “bué aura”. É um rapaz extrovertido, descontraído e despreocupado e assegura que isso lhe basta para ter aura. Os amigos concordam: “Ya!!! O Hugo tem bué aura mesmo!”.
E dos três, quem tem menos aura? “O Martim, claro”, respondem Pedro e Hugo, sem dar hipótese ao amigo com quem conversam em videochamada.
Glossário
Se chegou até aqui e ainda não percebeu nada, correndo o risco de ser cringe e estar a condenar à morte estas expressões, tornando-as do conhecimento dos adultos, aqui fica o tradutor:
| Tankar |
Aguentar uma situação difícil, uma crítica, uma derrota ou até uma vergonha sem se deixar abalar. Vem de tank, a personagem/jogador que, nos videojogos, absorve o dano para proteger a equipa. |
| Six seven (6-7) |
Expressão viral entre os mais novos, muitas vezes usada sem um significado concreto. Pode funcionar como resposta, interjeição ou simplesmente como uma espécie de código de pertença ao grupo. |
| Ghostar |
Deixar de responder ou desaparecer da vida de alguém sem dar explicações. Vem do inglês ghosting. |
| Shippar |
Torcer para que duas pessoas fiquem juntas, normalmente como casal. Vem de relationship e é muito usado para personagens de séries, filmes ou até pessoas reais. |
| Slay |
Dizer que alguém arrasa, está incrível ou fez algo muito bem. Pode referir-se ao visual, à atitude, a uma atuação ou simplesmente a uma resposta particularmente boa. |
| Brain rot |
Literalmente, “cérebro podre”. É usado para descrever o consumo excessivo de conteúdos online, sobretudo vídeos curtos e memes, considerados absurdos, repetitivos ou pouco úteis - e também para brincar com a sensação de ficar “viciado” nesse tipo de conteúdo. |
| Skibidi |
Palavra que ganhou vida própria a partir de “Skibidi Toilet”, uma série viral de vídeos absurdos. Hoje é frequentemente usada pelos mais novos sem significado específico, precisamente como uma referência ao universo brain rot. |
| Delulu |
Forma abreviada e divertida de delusional (“delirante”). É estar a fantasiar ou a acreditar numa possibilidade pouco realista, muitas vezes de forma assumidamente brincalhona. Ex.: “Ele olhou para mim, portanto estamos apaixonados” → delulu. |
Tem mais esta ferramenta que aqui lhe deixamos para compreender os adolescentes aí de casa. Mas, como diz Alfredo Leite, “pais e professores não precisam de falar fluentemente adolescentês”. “Precisam de fazer uma coisa muito mais difícil: permanecer suficientemente próximos para compreender o mundo deles e suficientemente adultos para não precisar de pertencer a esse mundo”, remata.