De "farmar aura" ao "six seven": porque criam os adolescentes uma linguagem que os adultos não entendem?

19 set, 08:00
Farmar Aura
Farmar Aura (Getty Images)

Se este artigo farmar aura, ótimo. Se for cringe, são menos mil pontos na aura da jornalista. Se o leitor não tankar até ao fim, a jornalista está cooked. E quanto ao "six seven"... six seven… Não percebeu? Não é o único e talvez tenha acabado de descobrir como se sente um adulto quando ouve falar um grupo de adolescentes

Pedro tem 13 anos, Martim já fez 14 e Hugo quase 16. Jogam futebol no mesmo clube, mas não é só a bola que os une. São os melhores amigos, vivem na casa uns dos outros e, quando não estão juntos, passam horas online e ao telefone, a falar uns com os outros. Falam uma linguagem especial, que os adultos que os rodeiam têm dificuldade em perceber. Uma espécie de código que é comum a milhões de jovens das mesmas idades e que passa de moda a uma velocidade que só eles são capazes de acompanhar.

Acabado de regressar das férias no Algarve, Hugo conta a Pedro, que está a seu lado, e a Martim, do outro lado do telefone: “Farmei bué aura nas férias!”. “Porquê? Tankaste muito?”, perguntam-lhe os amigos. “Ya! Tankei bué tempo sem bola, mano!”, responde Hugo.

Que esta conversa exige tradução simultânea, não é propriamente uma novidade. Os adolescentes sempre falaram uma língua parcialmente inacessível aos adultos. Talvez já não se lembre, mas no seu tempo também era assim. Faz parte do crescimento e do desenvolvimento da identidade individual e grupal.

Identidade, pertença e diferenciação

Mas porque é que falar uma linguagem própria faz parte da adolescência? Porque precisam os adolescentes de um código próprio para comunicar? Alfredo Leite, licenciado em Psicologia, professor universitário, empresário e palestrante, não hesita em responder: “Porque estão a fazer uma das tarefas fundamentais da adolescência.” Ou seja, estão a criar a própria identidade fora da identidade que receberam da família. “O código próprio permite dizer ‘eu pertenço aqui’. Não é necessariamente rejeição dos pais! Mesmo quando alguns pais se sentem confusos. É diferenciação. Eles não estão a perder o juízo. Estão a construir identidade”, reforça o especialista, cujo trabalho envolve precisamente adolescentes, escolas, educação e comunicação.

“Quando um adolescente percebe six seven e o adulto não percebe, a expressão cumpriu uma função social: identificou imediatamente quem está dentro e quem está fora. Funciona quase como uma palavra-passe”, acrescenta Alfredo Leite.

O professor universitário diz mesmo que, “em certa medida”, é até importante que os jovens tenham um código próprio que o adulto não conheça. Mas faz uma ressalva importante: “Isso não significa ausência de supervisão. Significa autonomia progressiva.” “Um pai não precisa de conhecer cada piada para continuar a ser pai. Precisa de conhecer o filho”, sublinha.

E se uma expressão criada por determinado grupo foge da alçada desse grupo, quando os adultos se começam a apropriar de determinada expressão, isso pode significar a morte da mesma. Alfredo Leite fala numa “espécie de inflação linguística”: quanto mais universal se torna a expressão, menos exclusiva ela se torna e tende a ser abandonada por quem a fez nascer.

Quando o online se mistura com o offline

A expressão farmar aura já saiu das conversas para as ruas, em 'batalhas' que juntam jovens a 'lutar' pelo título de campeão do estilo. (Getty Images) 

Uma das particularidades que difere a gíria dos adolescentes de agora é que a esmagadora maioria das expressões que usam nasceram online, nas redes sociais e nos videojogos. E isso pode estar a afetar a forma como os jovens comunicam cara a cara. Alfredo Leite considera que a fronteira entre o online e o offline é cada vez mais ténue. “Uma expressão nasce num vídeo, transforma-se num meme e, poucas horas depois, aparece no recreio, na sala de aula e à mesa de jantar. O digital tornou-se uma fábrica de matéria-prima para a interação presencial”, diz o psicólogo.

E se, antes das redes sociais, a gíria viajava de boca em boca e se aprendia com o irmão mais velho, com os colegas da escola ou do bairro, agora, quem propaga estes neologismos é o algoritmo, o que lhes imprime uma globalização que antes não era conhecida. “O adolescente continua a procurar pertença, mas o grupo de referência potencial tornou-se global. Um jovem português pode repetir hoje uma expressão criada há poucos dias por alguém na Indonésia ou nos Estados Unidos. A necessidade psicológica é antiga. A infraestrutura é nova”, brinca Alfredo Leite.

Mesmo quando a gíria não faz sentido ou não tem significado, ela está a fazer o seu trabalho. Questionados o que significa exatamente a expressão six seven, Hugo e Pedro riem-se e respondem: “não significa nada”. Então e para que a usam? “Precisamente para dizer que alguma coisa não significa nada. Que tanto faz”, responde Pedro.

Mas Alfredo Leite diz que é humor e humor é bom. “Não devemos é ‘diagnosticar’ uma geração inteira através de memes. Há uma forte componente de absurdo, repetição, ironia e humor autorreferencial. E precisamente porque six seven pode não precisar de um significado estável, perceber a piada torna-se parte da própria piada”, explica.

Da próxima vez, nem pergunte o que significa six seven. O especialista lembra que “o absurdo também funciona como código de pertença”: "Quem exige uma explicação literal já demonstrou que está fora do grupo.”

“Não pergunte o que significa a palavra para controlar. Pergunte para aprender. A pergunta certa é curta: ‘explica-me lá isso, que eu não percebi’. A errada é: ‘isso agora é o quê?’. O six seven durou meses, quando o normal é durar semanas. E há especialistas a apontar a razão: durou porque irritava os adultos. A reação do adulto era o combustível”, explica Alfredo Leite.

"Não estão a roubar nada à língua"

Em Portugal, a gíria da geração Alpha é pródiga em ir beber inspiração ao inglês. Não é só farmar (que é uma adaptação do verbo to farm). Há também o ghostar, shippar, o slayar e o tankar, por exemplo.

A linguista Sara Almeida Leite olha para estas importações como uma oportunidade e não como uma tragédia para o português: “Não estão a roubar nada à língua. Não estão a limitar as formas de comunicação em português. Estão só a acrescentar. Até porque este tipo de comunicação é transnacional. Podemos ter portugueses e sul-coreanos a usarem a mesma linguagem está para lá do idioma linguístico.”

“Podemos achar que farmar é uma coisa horrível, estranhíssima… mas aconteceu o mesmo quando se pegou em click e passámos a dizer clicar ou quando pegámos em blog e passámos a dizer blogar. Alguém diz ‘não digas surfar, que isso não é português!’? claro que não e surfar também vem de um anglicismo. Há adultos a dizer coisas como deletar, pintar, scanear”, exemplifica a linguista.

Além disso, diz a especialista, os adolescentes nunca vão falar só adolescentês. Eles precisam da língua para expressar ideias mais elaboradas e para comunicar noutros contextos que não só o grupal. Por isso, considera Sara Almeida Leite, é uma “comunicação bastante limitada”. “Não quer dizer que os jovens devam usar esta linguagem num trabalho para a escola, na sala de aula ou à mesa com a família. É para ser usado entre eles, não é para ser usado com os professores, com os pais”, defende.

E porque comunicar não é só a palavra, em relação à geração Alpha, podemos estar até diante de um fenómeno muito maior do que a gíria. Podemos estar diante de um socioleto. “Não se cinge ao vocabulário. Tem os gestos, as expressões faciais e envolve a prosódia - a sonoridade da língua, o próprio tom de voz que se usa quando se diz. Porque o tom de voz também comunica. Mas sobretudo os gestos. Estes jovens estão a elevar os gestos e as expressões corporais a um estatuto gramatical”, considera Sara Almeida Leite.

Uma linguagem a que os adultos já se renderam

Farmar aura, six seven ou tankar são expressões tão repetidas pelos jovens, que já não são indiferentes aos adultos. Alguns até se atrevem a falar adolescentês ou, pelo menos, tentam.

A Santa Casa de Belmonte, uma instituição com mais de 400 anos, colocou recentemente nas redes sociais um vídeo com dois dos seus idosos a mostrar como se farma aura depois dos 65 anos. Em pouco mais de 24 horas, o post do Instagram arrancou mais de 10 mil gostos e meio milhar de comentários.

O último reduto adolescente parece estar sob ameaça. Os adultos descobriram a aura.

Há um lado do mundo dos adultos que encara o fenómeno da linguagem própria dos adolescentes com humor e há outro que já se rendeu. O six seven, por exemplo, já tomou conta do Google: se tentar pesquisar “six seven” ou “6-7”, o próprio motor de busca treme, procurando simular os movimentos que os jovens fazem com as mãos enquanto o dizem. É exatamente o tipo de exemplo que mostra como uma piada interna juvenil já foi apropriada pela cultura mainstream.

Qual dancinha do Jamal ou o SIIIIMMMM de Cristiano Ronaldo, qual quê? No futebol, o six seven já é usado por muitos jogadores como gesto de comemoração de golos. O brasileiro Casimiro é um deles. Já fez o six seven várias vezes.

Começou no clube, levou a comemoração para a seleção e, no Mundial, no jogo Brasil – Panamá, Vinicius Jr. juntou-se a Casimiro e comemorou com ele usando o six seven.

Iago Aspas marcou dois golos pelo Celta contra o Mallorca, em fevereiro, e celebrou um deles com o six seven. “Yo no entiendo mucho”, respondeu quando lhe perguntaram o que significava. Afinal, era só um pai a responder a um pedido dos filhos.

As batalhas de rua

As Aura Battles tomaram conta dos recreios das escolas e das ruas das cidades um pouco por todo o mundo. As Aura Battles explodiram sobretudo em agosto de 2026, com encontros organizados pelas redes sociais na América Latina e já em Espanha. Numa reportagem, a Associated Press descreve-as como eventos públicos, maioritariamente juvenis, e há exemplos em México, Peru, Bolívia, Argentina e Brasil.

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Não demorou muito a chegar a Portugal e, por cá, também já há vídeos a circular nas redes sociais de adolescentes em danças peculiares a competir para ver quem farma mais aura. Em Leiria, temos um caso ainda mais peculiar. Começou a circular nas redes o anúncio do “1.º Campeonato de Farmar Aura de Leiria”, marcado para 1 de outubro, supostamente no pátio da “Universidade de Leiria e Oeste”. Aparentemente começou como uma piada do projeto Aqui é Leiria, ganhou vida própria, começou a ser divulgado como evento verdadeiro e chegou ao ponto de a instituição visada esclarecer que não tinha autorizado o evento e de Associação Académica se ver obrigada a demarcar-se publicamente do assunto.

Quando os gestos, as palavras e as expressões se misturam

Nas Aura Battles, os participantes estão precisamente a usar six seven, rizz face, mewing, poses sigma e até o “Siuuu” do Cristiano Ronaldo como movimentos para derrotar o adversário. Portanto, farmar aura, six seven ou rizz já não são sequer dois exemplos independentes. O léxico transformou-se numa espécie de linguagem performativa: primeiro dizem-se os memes, depois fazem-se fisicamente. Há palavras que já nem precisam de ser ditas. O six seven ganhou um gesto, a aura ganhou campeonatos.

Pedro, Hugo e Martim não acham graça nenhuma às farma batles. Antes pelo contrário. “Isso, para mim, é tudo menos farmar aura. Isso, para mim, é mas é perder aura!”, exclama Pedro.

Hugo nem precisa de competir com ninguém para saber que tem “bué aura”. É um rapaz extrovertido, descontraído e despreocupado e assegura que isso lhe basta para ter aura. Os amigos concordam: “Ya!!! O Hugo tem bué aura mesmo!”.

E dos três, quem tem menos aura? “O Martim, claro”, respondem Pedro e Hugo, sem dar hipótese ao amigo com quem conversam em videochamada.

Glossário

Se chegou até aqui e ainda não percebeu nada, correndo o risco de ser cringe e estar a condenar à morte estas expressões, tornando-as do conhecimento dos adultos, aqui fica o tradutor:

Tankar

Aguentar uma situação difícil, uma crítica, uma derrota ou até uma vergonha sem se deixar abalar. Vem de tank, a personagem/jogador que, nos videojogos, absorve o dano para proteger a equipa.

Six seven (6-7)

Expressão viral entre os mais novos, muitas vezes usada sem um significado concreto. Pode funcionar como resposta, interjeição ou simplesmente como uma espécie de código de pertença ao grupo.

Ghostar

Deixar de responder ou desaparecer da vida de alguém sem dar explicações. Vem do inglês ghosting.

Shippar

Torcer para que duas pessoas fiquem juntas, normalmente como casal. Vem de relationship e é muito usado para personagens de séries, filmes ou até pessoas reais.

Slay

Dizer que alguém arrasa, está incrível ou fez algo muito bem. Pode referir-se ao visual, à atitude, a uma atuação ou simplesmente a uma resposta particularmente boa.

Brain rot

Literalmente, “cérebro podre”. É usado para descrever o consumo excessivo de conteúdos online, sobretudo vídeos curtos e memes, considerados absurdos, repetitivos ou pouco úteis - e também para brincar com a sensação de ficar “viciado” nesse tipo de conteúdo.

Skibidi

Palavra que ganhou vida própria a partir de “Skibidi Toilet”, uma série viral de vídeos absurdos. Hoje é frequentemente usada pelos mais novos sem significado específico, precisamente como uma referência ao universo brain rot.

Delulu

Forma abreviada e divertida de delusional (“delirante”). É estar a fantasiar ou a acreditar numa possibilidade pouco realista, muitas vezes de forma assumidamente brincalhona. Ex.: “Ele olhou para mim, portanto estamos apaixonados” → delulu.

Tem mais esta ferramenta que aqui lhe deixamos para compreender os adolescentes aí de casa. Mas, como diz Alfredo Leite, “pais e professores não precisam de falar fluentemente adolescentês”. “Precisam de fazer uma coisa muito mais difícil: permanecer suficientemente próximos para compreender o mundo deles e suficientemente adultos para não precisar de pertencer a esse mundo”, remata.

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