Uma mulher, que perdeu uma fortuna numa burla protagonizada por uma falsa taróloga, conta à CNN Portugal como foi enganada num período de fragilidade emocional e solidão. Habituada a estar atenta, a gerir pessoas e a ter controlo - devido à sua atividade profissional - ainda lhe é difícil perceber como se deixou enganar. Um momento, porém, foi determinante para se aperceber que alguma coisa não estava bem e pedir ajuda. Com a colaboração das autoridades brasileiras, os burlões acabaram por ser detidos no Porto, numa das muitas viagens que realizaram a Portugal
Não acontece só aos outros. E no caso de Vitória (nome fictício), que foi burlada em 400 mil euros, bastou um momento de fragilidade emocional. O caso foi notícia no início de outubro, depois de a Polícia Judiciária ter anunciado a detenção de um casal, que vivia no Brasil e se deslocava a Portugal por curtos períodos, por burlar uma mulher em milhares de euros. A suspeita apresentava-se como taróloga e promovia serviços nas redes sociais e num site, alegando poderes e anunciando serviços esotéricos. Em entrevista à CNN Portugal, Vitória, que não quer ser identificada, conta como se deixou enganar. Admite alguma "vergonha", porque sempre foi muito cuidadosa e custa-lhe acreditar que ela própria tenha sido enganada. "Se me contassem a minha história, eu dizia que era mentira", diz.
Vitória conheceu os serviços de Dora (nome fictício) através do Instagram. Falaram "uma ou duas vezes" e, depois, passaram "para o WhatsApp". Foram mensagens, chamadas telefónicas e até vídeochamadas. Dora apresentava-se como taróloga e falava sobre os seus alegados poderes. Parecia "simpática e de confiança".
Habituada a estar atenta, a gerir pessoas e a ter controlo - devido à sua atividade profissional, que também prefere que não seja revelada - ainda lhe é difícil perceber e explicar o que aconteceu. "Como estava numa situação de perda, quem me conhece... Isto não tem nada a ver comigo...", desabafa, com tristeza.
"Sou uma pessoa que acredita muito em Deus e acredita muito no poder de Deus. E não sei como é que eu me desviei. Sinceramente, não sei", confessa. Não foram poucas as vezes que alertou outras pessoas para burlas e recorda um caso em que evitou que uma funcionária sua fosse enganada quando tentava conseguir um empréstimo. "Sempre fui uma pessoa muito cuidadosa", conta.
"Estava numa péssima fase"
A ligação a Dora começou em janeiro deste ano e durou até esta ser detida com o marido, no Porto, em outubro. A promessa era sempre devolver o dinheiro que Vitória enviava. Era preciso "abençoar" o dinheiro e ele tinha de "passar por um processo". E assim aconteceu no início, com as quantias mais pequenas, que iam sendo devolvidas. Mas os pedidos foram aumentando e de transferências bancárias também passaram para exigências em numerário. As devoluções iam sendo adiadas e as justificações variavam, mas envolviam muitas vezes trabalhos novos que era preciso realizar, porque se não fossem feitos "haveria consequências pessoais e afetivas".
Sentiu-se "mal com esta história", mas agora está mais segura e não hesitou em apresentar queixa apesar da "vergonha". Quando percebeu onde se tinha metido procurou ajuda de uma advogada. Seguiu os conselhos e não foi fácil continuar a manter a conversa com Dora. Mas era preciso que Dora voltasse a Portugal para vir buscar mais dinheiro, valores que prometia sempre devolver.
Vitória lembra-se do momento em que percebeu que havia alguma coisa errada. "Quando fui uma vez ao Porto. Ela dizia que me ia devolver tudo e fomos para um apartamento. Ela disse que era o apartamento dela." A dada altura, "fui à casa de banho e não havia uma pasta de dentes, não havia um champô, não havia nada. Portanto, não havia nada que indicasse que ela estava a viver ali. Ou que alguém estava a viver ali". E, sem que Vitória esperasse, "ela pediu mais dinheiro". "Foi quando eu entendi, 'isto não pode ser bom'." Em pouco tempo procurou ajuda.
Havia alturas em que devolvia e voltava a pedir. Pedia várias vezes. Vitória não tem dúvida de que a intenção era baralhá-la, para "deixar de ter noção do dinheiro que lhe tinha dado". Sobre a possibilidade de recuperar o dinheiro apenas diz que "está nas mãos de Deus". "Eu tenho muita fé."
Tudo começou em janeiro. "Estava numa péssima fase. Tenho noção disso hoje e terá sido isso que fez com que acreditasse nela." Olhando para outras alturas da vida, aquela não foi a única em que esteve fragilizada. Recorda a morte da mãe a quem "era muito ligada" e que "foi uma péssima fase também". "Mas na altura tinha o meu ex-marido comigo, tinha as filhas, tinha os amigos."
Desta vez, "foi uma altura em que eu não tinha ninguém". "Desorientei-me." A fragilidade e a solidão que sentia tornaram Vitória um alvo fácil, apesar de ter noção de que não é a primeira a ser burlada e não será a última.
Em tempos já tinha procurado este tipo de conforto, por causa de uma doença grave, mas, dessa vez, "a pessoa foi honesta". Foi há mais de dez anos e Vitória acredita "que foi milagre". "Tive um problema muito sério de saúde", recorda. De grave passou para menos grave e acabou em "cura". "No fim, quando fui ter com a pessoa, perguntei-lhe 'quanto é que eu devo?'. Ela respondeu 'dá o que quiser, se quiser'. Portanto, há pessoas honestas no meio disto tudo."
Burlona já tinha sido detida no Brasil
Dora e o marido foram detidos no Porto, pela Polícia Judiciária no início de outubro. Era sempre nesta cidade que se encontrava com Vitória. Vinha a Portugal por curtos períodos de tempo e, segundo a PJ, o casal exibia nas redes sociais "um estilo de vida altamente luxuoso", associado a "manifestos sinais de riqueza".
O casal já tinha antecedentes criminais no Brasil. Em 2015, a mulher tinha sido detida por suspeitas de crimes da mesma natureza. Mas nunca terá sido julgada. Até este ano. Em colaboração com as autoridades brasileiras, foi possível localizar o casal, que acabou detido e permanece em prisão preventiva.
A mãe de Dora também deve ser constituída arguida no processo, já que parte das verbas de Vitória passaram pelas suas contas. As autoridades também já perceberam que o casal tem contas bancárias espalhadas por vários países.
"Uma parte do meu trabalho foi fazê-la perceber que não era culpada"
Núbia Alves é a advogada que representa Vitória e apesar de não poder revelar pormenores da investigação, aceitou responder a duas questões colocadas pela CNN Portugal: como estava a sua cliente quando a procurou e se será possível recuperar o dinheiro.
"Quando a minha cliente chegou até mim, estava confusa, claramente deprimida e com muito medo de enfrentar a realidade. Naquele momento, ainda não tinha plena consciência de que poderia estar a ser vítima de um crime. Sabia que alguma coisa não estava bem, mas não conseguia compreender verdadeiramente a dimensão do que lhe tinha acontecido", revela.
"A primeira coisa que lhe pedi foi que me mostrasse as mensagens e que me contasse, com o máximo de detalhe possível, toda a cronologia dos acontecimentos. Precisava de perceber como aquela relação tinha começado, como tinha evoluído e, sobretudo, de que forma tinham sido feitos os pedidos de dinheiro", explica à CNN Portugal.
"À medida que fui analisando as conversas e percebendo a dimensão dos valores envolvidos, tornou-se evidente que estávamos perante uma situação muito grave. Tive de a confrontar com essa realidade, o que foi um momento muito difícil e doloroso. Ela sentia-se culpada e tinha dificuldade em aceitar que pudesse ter sido enganada daquela forma. Uma parte do meu trabalho foi fazê-la perceber que não era culpada. Era uma vítima", conta.
Núbia Alves diz que este tipo de burlões "são pessoas que sabem o que estão a fazer, que utilizam estratégias de aproximação e manipulação e que podem ser extremamente convincentes". "A vítima vai sendo envolvida progressivamente, muitas vezes sem se aperceber de que está a ser manipulada. Por isso, não podemos olhar para este caso com incredulidade. Pode acontecer a qualquer um de nós, dependendo do momento e das dificuldades que estejamos a atravessar."
A advogada destaca ainda a rapidez desta investigação e espera uma resolução rápida: "O meu papel, enquanto advogada, foi primeiro acolher e depois reunir, organizar e analisar toda a prova disponível, de forma a apresentar a participação criminal acompanhada do maior número possível de elementos que permitissem às autoridades policiais dar início à investigação criminal, que culminou na aplicação da medida de coação de prisão preventiva aos arguidos, em menos de três meses após a apresentação da queixa."
O valor envolvido nesta burla é elevado e pouco comum, mas, apesar de sublinhar que é preciso "aguardar pelo desenvolvimento da investigação", Núbia Alves tem alguma esperança e admite querer "acreditar que sim, que será possível recuperar, pelo menos, parte do dinheiro, o que poderá ser particularmente importante no sentido de reduzir o prejuízo sofrido pela vítima".
No entanto, a advogada lembra que "estamos perante um tipo de criminalidade que frequentemente ultrapassa as fronteiras de um único país, em que os valores são movimentados com grande rapidez e podem ser transferidos entre várias contas ou até convertidos noutros ativos, o que torna a sua recuperação particularmente complexa".
"Primeiro criar confiança e depois a burla"
César Afonso, psicólogo forense e ex-inspetor chefe da PJ, onde foi coordenador da Secção de Informação da Unidade Nacional de Cibercrime, diz que "ganhar literacia digital" é fundamental. "As pessoas têm de perceber o que é isto de ter um telefone ou um smartphone na mão, ou aceder a um computador. Temos de perceber e ter responsabilidade."
A experiência de César Afonso não lhe deixa dúvidas: "Não acontece aos outros. Isto não está longe de nós, está mesmo em cima de nós". E o caso de Vitória é um bom exemplo. O burlão é especialista "ao nível da engenharia social", aponta o psicólogo forense, "ataca pessoas", ataca "a vulnerabilidade das pessoas".
São os acontecimentos marcantes da vida que podem determinar se somos ou não um alvo, segundo este especialista. "Depende do que é que está a acontecer na nossa vida. As pessoas podem estar mais frágeis e fazer o que esta senhora fez."
César Afonso admite que existam mais vítimas em Portugal e espera que a coragem de Vitória leve mais pessoas a apresentar queixa.
Também considera normal que "ela tenha receio de ser julgada", mas diz que é fundamental ter noção de que também podemos ser um alvo. "Depende do que está a acontecer na nossa vida e quais são os nossos limites individuais. De repente, estamos de tal maneira fragilizados numa circunstância especial, ou de doença, ou de perda, ou seja de dor, e surge uma porta para alguém entrar."
Vítória "viu-se numa altura em que se sentiu sozinha e a outra pessoa aproveitou-se". E, para César Afonso, a solidão é um dos pontos essenciais nestes casos. "Hoje temos milhares de formas de comunicar uns com os outros. Os smartphones e as redes sociais põem-nos em comunicação uns com os outros. Mas é uma comunicação irreal." Para comunicar, reforça, "temos de olhar para a pessoa, tocar nela, conversar, ouvir e disso as pessoas têm falta".
Uma das chaves do sucesso para uma burla é "o velho truque de criar confiança", explica. "Começam com quantias pequenas que devolvem, a pessoa começa a sentir que tudo vai correr bem e, depois, começam a pedir quantias maiores." Isto vale também para "investimentos online", alerta. "Começam com pequenos investimentos, algumas quantias pequenas que a pessoa põe. Depois recebe algum lucro e pensa que aquilo funciona bem e que não há problema. De repente vêm os grandes investimentos e nestes grandes investimentos é que as coisas correm mal."