«Quero acreditar que há adeptos que conseguem ver humor no futebol»

18 mar 2021, 09:32

«Um Café com...» João Costa, o ator que dá corpo à personagem Matias, dos Caricas, e que ainda não perdeu a ambição de criar um projeto cómico em torno do futebol

Na semana em que o governo deixou as crianças voltar a ser crianças e regressar à escola, o Maisfutebol decidiu tomar um café com Matias. Quem? Pois, se não o conhece é porque não tem, nem teve na última década, um filho com menos de cinco anos.

Matias é um dos Caricas e faz sucesso no Canal Panda por ser o mais divertido dos quatro. Por detrás da personagem está o ator João Costa, adepto do FC Porto, que já criou dois projetos ligados ao humor no futebol: o Camisola Nove e o Luís Fígado.

Ora por isso esta a conversa andou muito à volta da comicidade associada ao futebol, do que se faz lá fora e do que é difícil fazer em Portugal, onde a clubite retira a graça a qualquer piada. João Costa não desiste e espera voltar a tentar fazer o país sorrir.

Como é que o Matias entrou na sua vida?

Entrou há nove anos, quase dez. Tirei o curso na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, aqui no Porto, e lancei-me para o mercado de trabalho. Surgiu a possibilidade de fazer um casting para os Caricas e fiquei com a personagem do Matias. Começámos a fazer isto ainda numa fase de testes. Criámos as personagens, criámos as coreografias, o nosso produtor musical criou as músicas e lançámo-nos um pouco às cegas.

Não faziam ideia se era para ir em frente?

Sabíamos que havia um produto do género de muito sucesso, que era a Xana Toc Toc. Gravámos o primeiro DVD, numa altura em que ainda se gravavam DVD’s. Agora o nosso forte é o Canal Vivo, no Youtube, somos a banda portuguesa com mais seguidores no Canal Vivo. Gravámos o DVD em maio, ninguém me reconhecia na rua, se fui reconhecido duas vezes em nove anos é muito – e até foi por pais, nunca por crianças –, de repente chegámos ao Multiusos de Guimarães e estavam três mil pessoas. A primeira cena era eu que fazia: abria uma janela e gritava ‘Bom dia’. Quando abri a janela e vi três mil pessoas a gritar fiquei assustado. Aí é que percebi que éramos um sucesso. Desde então o projeto tem vindo sempre a crescer.

E agora enchem o Campo Pequeno...

Sim, o Campo Pequeno, o Pavilhão Rosa Mota... Este é um projeto pelo qual sempre tivemos muito carinho. Claro que é trabalho, mas não o fazemos porque tem que ser. Pelo contrário, fazemo-lo com gosto e esperamos continuar até as crianças quererem que o façamos.

E vocês têm a noção que vão marcar a infância de uma geração inteira de crianças?

Sim, temos essa noção. Há uns anos aconteceu-me estar num bar e ver um ator de Os amigos de Gaspar e dizer-lhe ‘Eu via-o quando era mais novo’. Um dia isso vai acontecer comigo. Se calhar um dia quando tiver 60 anos alguém vem ter comigo e vai dizer-me ‘Eu adorava os Caricas quando era criança’. Isso é um motivo de grande orgulho. Mesmo que não faça muito mais da minha vida, sei que já fiz alguma coisa que vai ficar para a história. Porque os Caricas já estão na história.

Se calhar até há mais gente a associar a sua cara ao Camisola Nove do que ao Matias...

Se calhar. Houve um vídeo que se tornou mais viral, que foi antes do FC Porto perder por 5-0 com o Liverpool, na Champions de 2018. Eu fiz uma música em resposta a uma música de um adepto do Liverpool, e curiosamente acho que foi o Maisfutebol o primeiro a publicar esse vídeo. Na altura partilhei o vídeo nas redes sociais e viajei para Pequim, em turismo. Acordei com um fuso horário completamente diferente e estava um alvoroço total no meu telemóvel, porque vocês tinham publicado o vídeo, depois o Record publicou, O Jogo publicou, enfim.

Então a partir daí ficou mais conhecido?

Sim, nessa altura sim, até porque a partir daí também fui algumas vezes à Sporttv. No Camisola Nove fazíamos vídeos cómicos e a Sporttv mostrou algum interesse nisso. Ainda fui lá várias vezes, até fazer sketches em direto na altura do Mundial. Foi uma experiência engraçada.

Que tipo de adepto é que é?

Comparando com a religião, sou católico nem sempre praticante. Gosto muito do FC Porto, sempre que posso vejo os jogos, mas não tenho lugar cativo no estádio, por exemplo. O meu primeiro clube, por estranho que pareça, foi o Salgueiros. O meu pai e o meu avô eram adeptos do Salgueiros e quando era miúdo fui um puxado para esse lado. Conforme fui crescendo fui-me ligando ao FC Porto e com aquela queda Salgueiros, até o reaparecimento em 2008, fiquei ainda mais portista.

É natural do Porto?

Sou natural do centro do Porto, nascido e criado na Rua de Santa Catarina.

Então nem sequer tem ligação com Paranhos...

Não, não. O meu pai é que tinha. Lembro-me que quando era muito pequeno o meu pai me levava a passear para a zona do Estádio Vidal Pinheiro, lembro-me que as primeiras canetas ou porta-chaves que tive eram do Salgueiros. Lembro-me de um jogo que o Salgueiros empatou com o Benfica, na Luz, com um golo do João Pedro. Mas as memórias mais vivas são do FC Porto.

Alguma memória especial?

Curiosamente a memória mais especial que tenho é de quando fui convidado para atuar nos Dragões de Ouro dos 120 anos do FC Porto. Fui contratado como ator e cantor. Isto foi em 2013. Cantei o «Mi Buenos Aires querido», do Carlos Gardel, e dediquei a música ao Lucho González, que na altura era o nosso capitão. Recordo-me perfeitamente de ter sugerido descer do palco a meio da música e, como estava a fazer de Carlos Gardel, que era um romântico, propus cumprimentar a esposa do Pinto da Costa. Na altura disseram-me logo ‘não, não, tu se vais descer as escadas é para cumprimentar o senhor presidente’. E eu: sim senhor, com todo o gosto. E pronto, assim foi, desci as escadas e tive o prazer de cumprimentar o nosso presidente. Nessa noite também tive oportunidade de fazer os momentos cómicos e teatrais com o grupo do Balas e Bolinhas, do Ismael, que estava responsável pelo entretenimento dos Dragões de Ouro.

Então nessa altura já estava lançado no teatro...

Sim, nessa altura estava a trabalhar no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos. Estive lá cerca de cinco anos como ator.

Mas foi parar aos Dragões de Ouro como? Foi um casting, foi um convite?

Foi alguém que indicou o meu nome. Mas nesse ano um dos apresentadores era o historiador Joel Cleto, que eu já conhecia de um espetáculo biográfico do Charles Chaplin em participei, também já conhecia a coreógrafa, portanto as coisas conjugaram-se e alguém indicou o meu nome.

E há mais alguma história em que a sua vida de ator se tenha cruzado com o FC Porto?

Entretanto parei de produzir conteúdo para a Camisola 9, porque não estava a ver o projeto muito bem encaminhado, e quis fazer uma coisa diferente. Então criei uma página no Instagram que se chamava Luís Fígado, que teve um sucesso grande em pouco tempo: em dois meses já tinha dez mil seguidores. Era uma página diferente do que havia, em que criei quase um livro de banda desenhada, com fotografias dos jogadores da Seleção, em que a cara principal era o Luís Figo, mas que ali se chamava Luís Fígado. Mudava o nome de todos. Por exemplo, o Maniche era o Caniche.

Sim.

Uma das rubricas dessa página era Histórias das Seleção, em que reinventei a rábula do Ricardo a defender sem luvas. Então coloquei o Luís Fígado a dizer ao Costinha ‘não digas a ninguém, mas o Ricardo defendeu sem luvas porque eu fiz xixi nas luvas’. Isto porquê? Porque em todas as histórias, o grande herói era o Luís Fígado. Neste caso foi por causa dele que o Ricardo tirou as luvas e defendeu o penálti. Então houve uma noite em que fui beber um copo com amigos à Baixa e vimos o Costinha. Fomos falar com ele e eu disse-lhe que tinha criado uma história com ele, para ele ia lá dar uma vista de olhos. Mas a pensar que ele nunca iria ver. O certo é que no dia seguinte, quando acordei, fui ver e ele tinha colocado um ‘gosto’ e tinha comentado com emojis de gargalhadas e palmas. Fiquei super orgulhoso, porque ele percebeu o sentido de humor da página e, claro, porque era o Costinha e era um dos meus heróis desde há muitos anos.

E o que é aconteceu a essa página do Luís Fígado?

Foi bloqueada. Alguém me denunciou por roubo de identidade ao Figo. Não percebo porquê. Ainda tentei recorrer, argumentar que era uma personagem fictícia chamada Luís Fígado, que nem sequer era o Luís Figo, mas já não houve grande coisa a fazer.

E porquê essa paixão pela criação de páginas de humor futebolístico?

Eu tenho um grupo de amigos catedráticos do futebol, que estudam a tática, e que discutem, e que sabem. Eu sempre vi o futebol mais como entretenimento. Muitas vezes estou a ver um jogo e distraio-me com outras coisas. A forma como o Capucho usava as meias. Ou agora com a forma como o Zaidu corre, que parece uma múmia. Acho piada a esses pormenores. Para além disso sou muito ligado à comédia e tudo o que eu via relacionado com o futebol ou era ofensivo para os outros clubes ou não era de grande qualidade. Então pensei que tinha ali uma oportunidade para fazer uma coisa que gostava, que era comédia, e que agradava a muita gente, que era o futebol.

E era fácil encontrar tema?

Em todos os projetos associei-me a pessoas que realmente percebem de futebol. Ou seja, todos os textos que escrevia, todas as opiniões que dava eram coisas que estavam bem estudadas. Mesmo quando ia à Sporttv, ia bem preparado e com o trabalho de casa feito. Mas no fundo foi a vontade de explorar novos caminhos e novas formas de entretenimento que o futebol nos pode trazer, e que mesmo hoje ainda estão pouco exploradas. Por exemplo o humor do Luís Fígado, muito seco, super simples, de trocadilhos, de pegar em pessoas que todos conhecemos e colocá-las em outros ambientes, é uma coisa que praticamente não existe e que interessa ao público do futebol.

Mas neste momento não tem nenhum projeto relacionado com futebol...

Não, e não é por não querer. É porque ainda não descobri uma nova linguagem. Gosto de trabalhar novas linguagens e então ainda estou à procura de algo novo, diferente, para explorar.

Não sei se tem essa ideia, mas em Portugal associamos muito o futebol a uma coisa séria, enquanto em Inglaterra e até em Espanha há um carácter muito mais lúdico: há livros, músicas, humor sobre futebol.

Concordo, e gosto muito de ver as coisas que são feitas em Inglaterra. O que eu acho que falta em Portugal é, por exemplo, um adepto do Benfica ver um sketch a brincar com o Benfica e não ficar ofendido. Quem diz Benfica, diz FC Porto, Sporting, Sp. Braga. Ainda agora saíram imensos memes do Sérgio Conceição por causa de ele dizer que onze contra onze dava cinco ou seis ao Sp. Braga. Obviamente que eu não acho muito piada, porque sou adepto do FC Porto e quero que o FC Porto ganhe, mas não fico incomodado com isso.

Mas isso é muito difícil em Portugal...

Em Portugal, infelizmente, muito facilmente se parte para o insulto e essa até foi uma das razões pelas quais eu deixei o Camisola Nove. Eu dava-me ao trabalho de criar um sketch, até tinha o cuidado que não fosse ofensivo, e o primeiro comentário que me faziam, só por brincar com o FC Porto, com o Benfica ou com o Sporting, era logo a insultar-me do piorio. Muitas vezes nem viam o vídeo. Eu conseguia saber quem via, quanto tempo via e a maior parte das pessoas nem via o vídeo. Era apenas: está aqui um gajo com a camisola do FC Porto, vou insultá-lo.

Bem-vindo ao futebol português... [risos]

Pois, exatamente. Mas quero acreditar que temos capacidade para mudar isso. Quero acreditar que há adeptos que gostam de futebol e conseguem ver o sentido de humor disto. O sofrimento está, por exemplo, naqueles minutos finais do jogo com a Juventus, aí sim, é justo sofrer, enquanto queremos que o FC Porto passe e que o jogo acabe. Agora sofrer porque alguém está a fazer humor com o meu clube? Isso já é doença, quase.

Temos de dar passinhos pequeninos num caminho que tem de ser feito, não é?

Claro. Só que às vezes é desmotivador. Dou-lhe um exemplo: o vídeo que mais vi nos últimos tempos foi de um adepto do FC Porto a dizer qualquer coisa como ‘ó Ronaldo traz a vaselina, vamos fazer com a Juventus o que fazes com a Georgina’. É um vídeo super ofensivo. Super, super ofensivo. Mas teve um sucesso brutal. Eu devo-o ter recebido centenas de vezes. Eu sou da área do teatro e vejo que por vezes é difícil as pessoas aceitarem coisas menos comerciais, mais experimentais e tal, mas ainda há alguma abertura. No futebol não há abertura, no futebol ainda estamos muito longe de que isso venha a acontecer.

Faz parte dos seus planos voltar a juntar o futebol e o humor?

Sim, faz. Um dos meus grandes objetivos é fazer uma série portuguesa, que fosse toda ela à volta do futebol. Chamar-se-ia ‘O senhor presidente’, teria vários episódios e iríamos falar do que se passa no futebol, de forma leve e com humor. Gostava que aparecesse uma produtora disposta a apostar nisto ou que eu próprio tivesse condições para gravar uma série piloto. A não ser que tenha uma ideia completamente fora da caixa para fazer uma nova página no Instagram, quero apostar o meu tempo em gravar um episódio piloto de uma série portuguesa sobre futebol. Porque é algo que não existe em Portugal, e mesmo lá fora há pouco.

E como surgiu essa ideia?

Por acaso foi quando estava na Netflix. Tinha acabado de ver o documentário sobre o Bobby Robson e nas sugestões surgiu-me uma série canadiana sobre futebol. Ora os canadianos são os piores a jogar futebol, como se sabe. Comecei a ver e nem sequer os atores sabem jogar à bola. É uma novela autêntica, terrível, que fala um pouco sobre futebol e transferências. Daí surgiu-me a ideia de fazer algo bom, porque temos conteúdo e muito material, que podia agradar a quem gosta de séries e a quem gosta de futebol. Eu pelo menos ia gostar muito de ver.

«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura, o cinema ou a moda enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

Relacionados

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Patrocinados