«No golo do Kelvin senti o Estádio do Dragão a levantar voo»

13 out 2020, 23:51
Miguel Guedes

Um «Café com...» o músico, advogado, comentador de futebol e portista, que tinha como ídolo improvável Freitas, o «115». Miguel Guedes desfia as memórias do velho estádio das Antas até ao Dragão, o único bloco de cimento que lhe descompassou o coração

«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura ou o cinema enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

No início, foi Viena. E aquela sensação de comunhão paternal, de joelhos na sala e a beber champanhe pela primeira vez, que se tornou irrepetível.

A essa memória juntou-se a de ver o FC Porto saltar para as parangonas das grandes revistas europeias, que chegavam a uma improvável tabacaria de Coimbrões, e muitas outras alegrias e tristezas das Antas ao Dragão. Até àquele golo que lhe provocou «uma reação animal» e que o fez «dançar sobre a linha do horizonte».

Miguel Guedes, portista de 48 anos, vocalista dos Blind Zero, advogado, comentador desportivo é o convidado do Maisfutebol para a rubrica «Um café com…» numa conversa que convoca lembranças familiares: às tardes em que seguia pela mão do pai ou do avô até ao estádio num mundo mágico onde os deuses da bola estavam ao alcance da mão.

Qual a primeira memória que tem como adepto do FC Porto?

Lembro-me dos ajuntamentos coletivos, tipo sardinhas em lata, para entrar no Estádio das Antas pela mão do meu avô ou do meu pai. As fintas aos porteiros, que nos deixavam entrar por baixo das gabardinas nos dias de chuva. Aquela azáfama de saber por que porta entrávamos, se íamos para a Superior ou para a Bancada. Lembro-me também de podermos ir ver os treinos! Descíamos aquela rampinha pelo lado da Superior Sul até ao campo de baixo onde havia um gradeamento, que nem sempre estava aberto. Era um tiro de sorte. Quando estava aberto, era uma alegria. Era um mundo mágico para putos que procuravam ali ver os seus ídolos.

Era uma forma de ter os craques ali ao alcance.

Quando andava na escola, o meu professor de ginástica era o Fernando Duarte, preparador físico do FC Porto na altura do Mestre Pedroto. Houve um dia em que ele levou alguns alunos da turma mais interessados em futebol ao balneário do clube. Aí, tive o primeiro autógrafo do Fernando Gomes, do Freitas, que era o meu ídolo da altura, o célebre número 4 que tinha a alcunha de «115» [então número de emergência médica].

Foi o Freitas o primeiro ídolo?

O meu jeito para a bola sempre foi muito limitado. Como não era um gajo tecnicista, eu era defesa-central na escola. Portanto, apreciava o jogador com o qual eu mais me podia aproximar e o Freitas não era o mais tecnicista dos defesas-centrais. Admirava aquelas duplas que ele fazia com o Lima Pereira ou o Simões, aquele mandar a bola para a bancada quando fosse preciso e a abnegação que ele punha no jogo. O Freitas não tinha receio em jogar feio. Depois, o 4 sempre foi um número de que gostei muito. Se calhar, é o meu número favorito por culpa do Freitas.

Voltando atrás: os jogadores eram nessa altura dos finais dos anos 70 inícios dos anos 80 mais terrenos do que são hoje? Estavam mais à mão?

Estavam mais à mão porque estavam menos à câmara. Hoje as pessoas tiram selfies, dantes havia mais palavras, trocavam-se mais impressões. Havia também menos gente a abordar os jogadores. Era mais fácil para eles de resolver. A vida privada era menos resguardada, era mais simples o acesso, mas nem por isso deixávamos de olhar para eles como pequenos deuses. Estar ao lado do Fernando Gomes era alucinante.

As suas memórias do futebol estão intrinsecamente relacionadas com a família?

Sim, aquilo de subir a Avenida Fernão Magalhães com o meu pai, com a bandeira às costas…

Qual foi o jogo que mais lhe marcou na infância?

A minha primeira grande comoção é a conquista da Taça dos Campeões Europeus, em 1987. Tinha 15 anos, lembro-me chorar de joelhos na sala de casa e de beber champanhe pela primeira vez com o meu pai. Depois, roubaram-me a minha bandeira felpuda junto ao Palácio de Cristal, mas aquela alegria de ser campeão europeu entrou para o top 5 das maiores da minha vida e de lá não vai sair.

Teve logo a noção da dimensão que o FC Porto ganhou a partir desse momento?

Eu morava em Coimbrões [Vila Nova de Gaia] e havia um quiosque altamente improvável onde se podia encontrar todo o tipo de revistas estrangeiras, da música ao futebol… Ao lado de casa, lia a Onze Mondial, a France Football, a Cahiers do Cinéma, a Prèmiere… A seguir à final de Viena, vi o Madjer na capa da Onze e aquilo pareceu-me uma coisa esotérica! Nunca pensei ver um jogador do FC Porto ali.

Houve algum jogo que se comparasse àquela final de Viena?

A nível internacional, nenhum. Nem por sombras! O jogo com o Celtic [conquista da Taça UEFA em 2003] teve alguns lampejos, mas eu infelizmente tive de o ver à entrada de um concerto dos Blind Zero, que passou muito indistinto nessa noite. [risos] Não houve nenhuma outra final europeia que se assemelhasse a Viena.

Isso significa que houve algum a nível interno que se equiparasse?

Do ponto de vista emocional, houve aquele jogo do golo do Kelvin, com o Benfica no Dragão [2013, que valeu a ultrapassagem ao Benfica na penúltima jornada e a conquista do título nacional]. É uma emoção completamente diferente. Significa coisas diferentes, mas senti o Estádio do Dragão a voar. A levantar voo! Senti-me a dançar sobre a linha do horizonte. Do ponto de vista de uma emoção visceral, animal, nunca vou sentir nada de igual num jogo de futebol.

Cometeu alguma loucura pelo futebol?

Vi com grande desespero aquele célebre FC Porto-Wrexham [3 de outubro de 1984], debaixo de um dilúvio durante os 90 minutos. Naquela noite choveu como nunca vi chover no Porto. E acabámos eliminados [da Taça das Taças] por aquela equipa [4-3 nas Antas, depois de 1-0 no País de Gales], meses depois de termos perdido aquela final da Taça das Taças frente à Juventus da maneira que foi.

Há alguma emoção forte que o futebol lhe tenha despertado já depois desse período de infância e adolescência?

Entrar pelo Dragão na primeira vez foi um momento marcante. Não acompanhei as obras, não fiz questão de ir lá, até porque queria ser surpreendido quando lá entrasse. Entrei às 9 horas da manhã no dia da inauguração, para uma emissão da Rádio Comercial, antes daquele FC Porto-Barcelona onde vimos o Messi pela primeira vez. O Dragão era um bloco de cimento sem ninguém e mesmo assim aquele momento provocou-me um batimento cardíaco como se estivesse a correr a 15km/h numa passadeira. Foi impactante e é inexplicável. Foi a primeira e única vez que um bloco de cimento me descompassou o coração.

Chegou a despedir-se das Antas?

Fui fazer a despedida do Estádio das Antas na véspera, numa noite em que não havia futebol. Fui eu, o Álvaro Costa, o Prof. Hernâni Gonçalves, o Rui Reininho… Participámos numa emissão especial da rádio Antena 1. Era uma noite de orvalho e fez-se uma espécie de «post scriptum» do estádio, só com uma luz acesa sobre o local do relvado em que o Pavão faleceu. Desfilámos memórias das Antas e saímos de lá sob uma grande emoção.

Prefere as Antas ou o Dragão?

É incomparável. As Antas são um amor primeiro, do qual tenho muitas saudades. O Dragão é muito bonito, é muito mais confortável, é muito mais tudo, mas tenho tantas memórias do ambiente que se vivia nas Antas... São coisas que têm que ver com a própria juventude. Acredito que algumas pessoas possam dizer o mesmo da Constituição. [Risos]

O Miguel também gosta do Barcelona. Será também por aquele lado identitário e de contrapoder que o clube simboliza em Espanha?

Acho que esse paralelismo é inevitável. Porto ou Barcelona são cidades contraponto às capitais. Porque são diferentes, porque são muitas vezes subalternizadas e têm muitas vezes que marcar a sua identidade e lutar pelos seus direitos. Depois, há escalas e patamares completamente diferentes. Nesse sentido, podemos comparar-nos à Galiza e a alguns clubes do País Basco.  Há ali traços de identificação de personalidade e de pertença a um território. É normal traçar um paralelismo. O FC Porto é à nossa maneira também «Más que un club».

Acredita, portanto, que um clube de futebol possa também ser um símbolo de algo maior?

Lisboa está dividida entre dois clubes fundamentais, como Benfica e Sporting. O Porto tem um clube importante como o Boavista, mas a proporção é diferente e isso faz do FC Porto um clube unificador da cidade. Representa-a quase como bandeira. E quem carrega esse estandarte é o povo. Esta cidade e esta região identificam-se com um clube que ganhou dimensão internacional e que por isso é também um orgulho nacional de quem se sente português pelas coisas boas.

Além de músico e advogado, o Miguel é também há vários anos comentador desportivo. Essa condição já lhe trouxe dissabores?

Neste país, temos de ter algumas cautelas. Não posso ir a todo o lado ver jogos na bancada. Nunca tive episódios muito desagradáveis. Só alguns, que não quero valorizar. Continuo a ver jogos, sempre com mais cuidados e sem receios. Infelizmente, nem sempre podemos fazer a nossa vida normal.

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