«Por causa do Benfica sofri bullying quando o bullying ainda não existia»

11 nov 2020, 09:42
Fernando Alvim

Fernando Alvim aceitou tomar «Um café com...» o Maisfutebol e viajou às memórias futebolísticas de quando era o único adepto encarnado numa primária de Mafamude

Fernando Alvim, 46 anos, cumpriu recentemente 50 anos de uma carreira riquíssima. É humorista, locutor de rádio, apresentador de televisão e escritor nas horas vagas. Como o dia não estica, falta-lhe tempo para tudo o que quer fazer.

Provavelmente por isso adiou esta conversa com o Maisfutebol várias vezes, até que ela aconteceu mesmo, já o dia era de noite. Simpático, afável e disponível, falou o tempo que foi preciso sobre o Benfica e o futebol que o deixa de sorriso nos lábios.

Quem diz que a melhor miss foi Helena Laureano, que os melhores desenhos eram os de Vasco Granja e que o melhor sindicalista foi Torres Couto, não tem seguramente falta de memória, pelo que esta entrevista mergulha a fundo na nossa infância.

Como é que um rapaz de Mafamude, Vila Nova Gaia, se torna adepto do Benfica?

Ora bem, a minha grande influência foi o meu professor primário, que era doente pelo Benfica. Eu gostava muito daquele professor. Na verdade, não havia muita coisa que me fizesse ser do Benfica naquela altura. A minha infância, basicamente, foi marcada pela ascensão do FC Porto. Vivendo no Porto, eu sofri bullying desportivo numa altura em que a palavra bullying ainda não existia. Portanto, eu sofri bastante. Mas a minha convicção desportiva foi sempre mantida. E atenção: foram vários os momentos em que passei perigo. Passei perigo para ser do Benfica. Eu fiz a escola primária toda em turmas em que a única pessoa do Benfica era eu.

Imagino que não tenha sido fácil...

Não foi. Ir contra a corrente não é fácil em lado nenhum.

Isto acontece para aí nos anos oitenta, não é?

Anos oitenta, sim, sim.

Portanto você é do Benfica quando o FC Porto ganha a Taça dos Campeões Europeus em Viena, mais a Supertaça Europeia, mais a Intercontinental em Tóquio...

Foi a pior altura para ser do Benfica. Mas não se muda de clube e eu nunca pensei em mudar. Quando era miúdo, os amigos do meu pai inscreveram-me como sócio do FC Porto, na tentativa de eu ganhar simpatia pelo clube e mudar. Mas foi uma tentativa gorada, é certo. Eu não me deixei comprar e isso não aconteceu.

No dia a seguir ao FC Porto ganhar em Viena, você era o saco de boxe na escola, não?

Era, era basicamente um saco de boxe. Foi um dos períodos mais humilhantes da minha vida e eu não podia fazer nada, porque a minha equipa não estava naquela altura ao mesmo nível. Ou pelo menos ao nível que era esperado.

Mas atenção, o Benfica dos anos oitenta não é o pior da história...

Tinha fases. Também me lembro de momentos de glória. Por exemplo o golo do Vata. Ir a uma final com aquele golo vale por tudo. Ainda hoje dedico aquele golo a todos os VAR do mundo.

O mais curioso desse jogo é que não deu na televisão. Portanto soubemos do golo do Vata pela rádio. Eu lembro-me de ouvir o relato desse jogo no quarto dos meus pais, num daqueles despertadores que eram rádio...

Sim, não deu na televisão, é verdade. Mas eu ainda hoje não acredito muito que tenha sido com a mão. [risos] Parece eventualmente haver ali uma mão, mas não sei se estou em condições de afirmar convictamente que tenha sido com a mão. Que foi um golo, isso tenho a certeza que foi.

E quando o próprio Vata diz que não foi com a mão... um ídolo não mente, não é?

Espera, o Vata diz isso?

Diz, diz. Ainda hoje...

Isso é delicioso. Grande Vata.

Para além de ser do Benfica, quais são as suas primeiras memórias de futebol?

Sempre gostei muito de jogar à bola. Sou mais jogador do que propriamente adepto. Jogo à bola com alguma frequência e até sou bom jogador, pelo menos é o que dizem. Portanto eu fui crescendo a ver os meus ídolos. O Nené, que jogava sempre com o número sete, o Carlos Manuel que era o número seis, o Diamantino já não me lembro que número era... Mas o Nené, o Carlos Manuel, o Diamantino, o Hernâni, sei lá, havia tantos. O Chalana, como é o óbvio, o grande Chalanix. Essa altura, com estes jogadores, foi a mais impactante em mim.

Que tipo de adepto é que é?

Eu não sou nada fanático, sou aquilo que se pode chamar um adepto equilibrado. Gosto muito do Benfica, como é óbvio, mas não perco a minha vida pelo Benfica. Gosto de ver o Benfica e vou ao estádio de quando em vez. Portanto, voltando atrás, eu cresci com essa geração. Mas também gostei muito do primeiro período do Jorge Jesus no Benfica. Não é que não esteja a gostar deste segundo, mas acho que o Jorge Jesus ainda não fez aquilo que vai fazer. Como é óbvio, os adeptos das outras equipas já estão a dizer que vai ser muito pior e tal, mas eu acho que ele só precisa de tempo. Não tenho a menor dúvida que ele é o melhor treinador português. Por isso ele vai fazer aquilo que nós, adeptos, esperamos.

Que é o quê?

Que é um Benfica campeão e sobretudo um Benfica mais ambicioso a nível internacional. Acho que é termos a vista curta só pensarmos no campeonato. É pouco. Temos que pensar em competições internacionais. Eu não pactuo com o adepto que diz que ganhar o campeonato é que é bom. Eu até preferia, honestamente, que o Benfica fosse a uma final da Champions e não ganhasse, do que ser campeão nacional. Palavra de honra que preferia. Ir à final da Champions, sabes o que isso é?! Agora ganhaste o campeonato nacional no teu país. Ok, está bem. Claro que é importante, mas não acho que seja tão importante comparado com uma final da Champions.

Voltando um bocadinho atrás, na altura da sua adolescência passou por outra fase marcante, que foram os anos noventa e a presidência de Vale e Azevedo...

Aconteceu-me como a maior parte dos adeptos: quando o clube está a jogar mal, quando há casos de corrupção, eu sinto-me a desligar do clube. Começas a perder interesse. Esse momento é um momento negro. Eu ontem disse uma coisa curiosa: disse que o Joe Biden é o Manuel Vilarinho dos Estados Unidos. E os meus amigos perguntaram-me: ‘Espera lá, o que é que estás a querer dizer?’ E basicamente estava a dizer que era um presidente de transição. Veio ali o Vilarinho, afastar o Vale e Azevedo e preparar o terreno para o presidente que veio a seguir, que foi o Luís Filipe Vieira. Acho que é capaz de ser uma analogia acertada, até porque o Biden tem 78 anos e, portanto, nunca será um presidente com uma frescura relevante. O essencial é que o Vilarinho foi muito importante porque tirou o Vale e Azevedo do Benfica, enquanto o Biden foi muito importante porque tirou o Trump da presidência dos Estados Unidos.

Isso traz-me à memória uma crónica que você escreveu em que comparava o Benfica ao PSD.

Ah, sim, sim. Lembro-me, lembro-me da crónica. Eu na altura escrevi a crónica e o Rui Reininho mandou-me uma mensagem a dizer que lhe tinha tirado a ideia, porque ele ia escrever a mesma coisa. Lembro-me dessa crónica.

Comparava-os porque dizia que ambos tinham muito apoio, mas não ganhavam, e até referia que como o Benfica tem o Eusébio, o PSD tem o Sá Carneiro...

Pois era, que engraçado. Já não me lembro dos detalhes da crónica, mas lembro-me da crónica. Tinha a ver com o momento que o PSD estava a passar e o momento que o Benfica estava a passar. Hoje já não fazia sentido nenhum.

Outra crónica sua que me lembro foi uma em que falava dos livres do Carlos Manuel...

Acho que essa era mesmo sobre o Benfica.

É possível, porque também falava do Nené. Mas o que para mim foi curioso nessa referência aos remates de Carlos Manuel é que eu ainda hoje considero que o golo da minha vida foi...

Contra a Alemanha?

Contra a Alemanha, sim.

Claro, claro. Apuramento para o Mundial 86, em Estugarda.

Um espetáculo de golo.

Eu não conhecia o Carlos Manuel, nem o Diamantino, mas eles sempre foram os meus ídolos. Um dia a Sporttv convida-me a ir comentar jogos da Seleção e eu fui. E quando chego lá percebo que os outros dois convidados eram o Diamantino e o Carlos Manuel. Imaginem a cena. Depois tive de lhes contar: ‘vocês não vão acreditar, mas vocês foram os maiores ídolos da minha infância, e agora estou aqui convosco’. Depois disso fiquei muito amigo do Carlos Manuel.

E o Veloso onde é que entra aí nesse seu ranking?

O Veloso também era uma referência. Era um defesa extraordinário e jogava sempre bem. Era um jogador muito constante. Era aquele defesa que nunca jogava mal: estava ali para garantir estabilidade à defesa e equilíbrio à equipa.

Mas estou a falar do Veloso porque depois acontece o penálti de Estugarda...

É verdade. Esse é o grande calcanhar de Aquiles do Veloso. Pode acontecer a qualquer um. Na verdade, toda a gente diz a mesma coisa, acontece a todos, qualquer um pode falhar, mas o Baggio, por exemplo, ficou completamente marcado pelo penálti falhado na final do Mundial 94. E o Baggio era um craque, fez muitos golos e não sei quê, mas falhou aquele penálti. É muito marcante.

E o Veloso também ficou muito marcado por aquele penálti...

O Veloso sim, fica marcado por isso. É verdade.

Já falámos de vários nomes, mas para acabar falta-me uma pergunta: de todos os jogadores que viu jogar no Benfica ao logo da sua vida, qual foi o que mais lhe encheu as medidas?

Essa pergunta é muito difícil. Eleger um é muito complicado. Talvez por o ter conhecido e pela proximidade que ganhei com ele, o Carlos Manuel talvez tenha sido o jogador que mais me encheu as medidas. A ter que destacar apenas um, seria esse.

É curioso porque muita gente, mesmo da nossa idade, não esquece o Pablo Aimar...

Não, não. Não vou ao Aimar. Vou mais ao Carlos Manuel. Há outro jogador que nunca ninguém refere, mas que eu gostava muito, que é o Hernâni. Gostava muito do Mozer. É tão ingrato, são tantos. O Isaías, adorava o Isaías. Adorava o Valdo. Gostei imenso do Di Maria. De quem é que gostei mais...?

Do João Pinto, não?

Claro, o João Pinto era um jogador fora de série. Gostei muito do João Pinto e dos 6-3 em Alvalade. Por acaso também assisti aos 7-1. Mas acho que um adepto é isso mesmo: tem de estar com o seu clube nas alegrias e nas tristezas. E nunca um adepto se pode esquecer que o futebol é um jogo, e é lógico que de vez em quando a outra equipa ganha.

«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras da sociedade, nomes sem ligação ao futebol a não ser a paixão. A música, a literatura ou o cinema enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas.

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