«O excesso de mercantilismo no futebol é dramático»

12 mar 2020, 23:55
Joel Neto (Foto António Araújo)

Este «Café com...» é uma conversa à distância, o que aliás é recomendado por estes dias, com Joel Neto, a partir da sua casa de campo na Ilha Terceira. Do jornalista, também de desporto, ao escritor. Do antigo guarda-redes que dava «frangos infames» ao pensamento crítico sobre o futebol atual

«Um café com...» senta o Maisfutebol à mesa com figuras eminentes da nossa sociedade, nomes sem ligação aparente ao desporto, a não ser a paixão. A música, a literatura ou o cinema enredados nas quatro linhas de conversas livres e descontraídas. Críticas e sugestões para pcunha@mediacapital.pt ou bmmr.externo@medcap.pt 

Foi uma conversa à distância, o que é aliás recomendado por estes dias. A distância que vai até à Ilha Terceira, onde Joel Neto fala com o Maisfutebol enquanto fuma um cigarro e passeia com os cães pelo jardim da casa de campo onde vive há anos, um regresso às origens do escritor que foi jornalista, também de desporto. E antes disso um jovem guarda-redes que dava frangos «infames». E que, anos mais tarde, foi «apenas» sportinguista, «na melhor altura» para o ser. Pelo meio outra paixão desportiva, o golfe, que sempre praticou e que também comentou na televisão.

Joel Neto, 46 anos, tem uma obra que vai do romance aos contos, das crónicas ao registo de literatura biográfica que lhe valeu o grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores com «A vida no campo», que tem agora um novo volume. Também escreveu um romance que tem como protagonista alguém que comete a suprema heresia de mudar de clube de futebol. E mantém a ligação à atualidade desportiva, escrevendo crónicas e desenvolvendo um pensamento crítico sobre aquilo a que vai assistindo no futebol português. Tudo nesta conversa, com humor e ideias.

Como começou a ligação ao futebol?

Eu era um rapaz do campo, o futebol era o nosso entretém, para a minha geração não havia outro. Passávamos o dia a jogar à bola, fosse onde fosse, até no meio da rua. Na altura não passavam muitos carros… Hoje moro no mesmo sítio onde cresci e seria impossível. As balizas eram os portões da vizinha e passámos por todas as peripécias, a vizinha a ameaçar que esfaqueava a bola porque ela ia parar ao quintal dela, tudo isso. Também via muito futebol na televisão. O primeiro jogo de que me lembro foi um Sporting-Benfica que o Sporting ganhou por 3-1. O que me ficou gravado na memória de miúdo nem foram os golos, que foram todos do Jordão, foi o Bento ter dado um murro ao Manuel Fernandes. Na verdade foi mais um empurrão, mas a minha memória cristalizou aquilo como um murro. Depois vi o Euro 1984, que foi uma coisa incrível.

Chegou a jogar futebol mais a sério?

Joguei à bola também durante alguns anos, no Lusitânia, nos juvenis e nos juniores. Era guarda-redes. E não era um grande guarda-redes. Eram infames os frangos que dava nas circunstâncias mais despropositadas. E aquilo deixava-me com um grande mal-estar. A partir dos juniores havia policiamento nos jogos e o meu pai era polícia. Mesmo que ele não visse o jogo, acabava por saber. ‘Epá, o teu filho deu um granda frango.’ Era o cúmulo da minha humilhação… Naquele tempo não havia telemóveis, mas na segunda-feira de manhã ele ouvia a notícia. ‘Epá, aquilo ontem correu muita mal ao teu filho, outra vez.’

Deixou de jogar quando foi estudar para o continente?

Eu deixei de jogar porque tinha de entrar na universidade pública, não tinha recursos para ir para uma universidade privada e além disso a rapariga mais gira da escola queria ir para uma universidade que exigia notas muito altas. Eu tinha de ir para a universidade onde estava a rapariga mais bonita. Se ela fosse para medicina eu hoje em dia era um médico com processos de má prática e negligência nalgum centro de saúde recôndito na província… Mas felizmente ela foi para Relações Internacionais e eu tinha de ter uma média de 18 de entrada, portanto parei com o futebol a meio do segundo ano de juniores e dediquei-me um bocadinho mais à escola, tirei a carta de condução… Fiz essas coisas todas porque a mudança para Lisboa era mesmo o que queria, um rito de passagem, uma espécie de início do futuro e portanto eu queria estar totalmente preparado. Na altura os miúdos dos Açores, sobretudo de condições mais modestas como era o meu caso, não iam para Lisboa e os que arriscavam ir desistiam.

Porquê, não se adaptavam?

Não se adaptavam, eram mundos muito diferentes, a mundividência também era pouca, as pessoas estavam habituadas a viver com pouco e com poucas ambições. Era uma sociedade também com pouca formação escolar e académica, portanto não havia propriamente uma embalagem social que nos empurrasse para isso. Eu é que tinha essa ambição e essa obsessão. Entretanto, quando ainda jogava futebol comecei a escrever para o Diário Insular, onde aliás ainda hoje escrevo, nunca deixei de escrever para lá nestes 30 anos. Comecei a escrever sobre desporto e sobre futebol, a fazer as duas coisas ao mesmo tempo, jogar e escrever sobre. Depois, fui para a faculdade estudar relações internacionais mas nunca pensei ser um diplomata ou o que quer que fosse que não jornalista.

Jornalista sempre foi o que quis ser?

Eu queria ser escritor e achava que o jornalismo era o caminho mais parecido. Depois descobri que não, era exatamente o oposto. Embora haja muitos escritores que vêm do jornalismo, na verdade são forças não apenas distintas mas muitas vezes antagónicas. Porque o jornalista tem como missão preencher os espaços em branco, e o escritor tem como missão criar espaços em branco. Criar elipses, espaços de silêncio e dúvida, e no fundo fazer perguntas que levem o leitor a obter as suas próprias respostas. São forças opostas. Normalmente quando se faz a transição de uma coisa para a outra a primeiro grande dificuldade é lidar com essa oposição de forças e muitos acabam por não conseguir fazê-lo. É preciso combater o jornalista que há dentro de nós, que tem o vício da documentação, do esclarecimento, e que tem o vício da compreensão fácil por parte do leitor. São regras que vão contaminando cada vez mais a literatura, nomeadamente num tempo em que a própria literatura já tem dificuldade em conceber-se sem a sua própria realização comercial.

Como é que apareceu o trabalho em jornais desportivos?

Eu na altura tinha uma grande presunção e achava que já sabia tudo sobre jornalismo, por isso é que não tive problemas em ir para relações internacionais. E também achava que sabia tudo sobre desporto, portanto a última coisa que queria fazer era desporto. Candidatei-me a virtualmente todos os jornais, rádios e televisões de Lisboa. Uma vez fiquei cinco horas à espera ao sol que me recebessem na TVI, que tinha acabado de nascer. Não me receberam. Tinha no fundo da escala os jornais desportivos. Antes ainda estavam os jornais sensacionalistas e até os jornais de crime. Mas não consegui entrar em nenhum deles até que um dia fui ao último de todos, a Gazeta dos Desportos, que era o mais frágil dos jornais desportivos. Tinha acabado de ser demitida a direção, que tinha levado com ela virtualmente todos os jornalistas seniores. Nesse momento, quem passasse à porta da Gazeta corria o risco de ser apanhado com um camaroeiro e transformado em jornalista. Eu apareci lá com um currículo e fui contratado. Comecei no dia a seguir, porque era preciso fazer o jornal e não havia ninguém que o fizesse. Só depois aí ao fim de uns três meses é que fui convidado pelo Record e fiquei lá cinco anos.

O que é que fica dessa experiência como jornalista desportivo?

Fica uma enorme aprendizagem do ponto de vista das ferramentas de um jornalista. Uma enorme aprendizagem do ponto de vista da visão do mundo, porque me permitiu viajar. Eu tinha viajado muito pouco até aí e isso mudou completamente o meu olhar. E também fica uma grande aprendizagem humana, porque eu mantive sempre uma arrogância extraordinária, era um tipo absolutamente insuportável, que se julgava acima dos outros. Não tinha experiência de vida nem idade para ocupar cargos de responsabilidade como comecei a ocupar demasiado cedo. Isso aconteceu de maneira bastante tumultuosa, com bastantes dificuldades no relacionamento humano. Felizmente o tempo permitiu-me olhar para isso como uma aprendizagem e redimir-me tanto quanto possível. Hoje fico muito contente quando nos meus lançamentos e nas livrarias vejo antigos colegas com quem eu tinha más relações, e que tinham razões de queixa em relação à maneira como eu me comportava com eles, lerem os meus livros e estimularem essa atividade. Isso diz muito mais sobre a grandeza deles do que sobre a minha.

Foto: António Araújo

E a mudança de vida, voltar aos Açores e dedicar-se à escrita, como aconteceu?

Quando estava em Lisboa, há uns 10, 12 anos, e era jornalista talvez há sete, comecei a vir aos Açores com cada vez mais frequência e comprei uma casa que tinha pertencido aos meus avós. Comecei a passar aqui cada vez mais tempo e a remodelar muito lentamente a casa. Depois, embora não me tenha apercebido muito bem, todas as coisas acabaram confluindo no sentido desse regresso. Tive um divórcio pelo meio, passei a jornalista «freelancer», a poder trabalhar em qualquer sítio. Já tinha começado a escrever livros. A minha segunda mulher, apesar de ser lisboeta do Castelo, o mais de gema possível, sempre gostou muito de vir aqui. Começámos a passar aqui semanas, depois meses. Finalmente, quando a crise chegou em 2011 a Portugal, nós vivíamos de duas indústrias falidas, os jornais e os livros. A Catarina é tradutora. Chegámos à conclusão que para conseguirmos continuar a trabalhar naquilo de que gostávamos sem abdicar de um mínimo de qualidade de vida fazia sentido trabalhar também do lado da despesa, não apenas da receita. Também foi por isso que viemos para os Açores. Vive-se aqui com menos dinheiro e tem-se qualidade de vida com menos recursos. Vínhamos só por quatro ou cinco anos a ver se a crise passava. Eu tinha na altura intenção de escrever aquilo que eu esperava que fosse o meu grande livro sobre esta paisagem, a demanda interior que esta terra sempre tinha sido. Esse livro foi o «Arquipélago», saiu em 2015. Devíamos ter vindo embora em 2016 mas fomos ficando e em vez de um já publiquei seis livros depois desse. Depois houve prémios, bons resultados comerciais e críticos. Neste momento nem consideramos a hipótese de voltar para Lisboa.

Como é a vida longe da cidade, onde se viveu tanto tempo?

Aquilo que não temos de Lisboa é a rotina. Temos uma rotina rural, porque eu tenho uma pequenina quinta, tenho horta, um jardim, um pomar. Gosto muito de passar todos os meus tempos livres na quinta. Até deixei de jogar golfe praticamente, que era uma obsessão em Lisboa. Mas a rotina de Lisboa é a única coisa que não temos de Lisboa, e a rotina da ilha é a única coisa que temos da ilha. Como continuamos a viajar com frequência e a regressar a Lisboa com frequência, quando regressamos não há choque nenhum. Estamos presentes como sempre estivemos dentro do que importa, que tem a ver com a manutenção de uma certa atualidade, de uma certa visão do mundo. Continuamos de alguma maneira forasteiros nesta terra e temo-nos disciplinado de um modo que nos force a continuar forasteiros. Não queremos pertencer por completo, tal como eu quando estive em Lisboa nunca quis pertencer por completo. Quis sempre ser o açoriano em Lisboa e agora se calhar sou um bocadinho o lisboeta na Terceira. Agrada-me não ter de pensar como a embalagem social me impele a pensar. Isto permite-me, sempre que me cruzo com uma coisa local pensar à lisboeta, e sempre que me cruzo com uma coisa global pensar à açoriano. E cruzar essas duas visões. Tem-me permitido manter a perspetiva e a noção das proporções. E eu acho que na verdade essa é a primeira definição de cultura, a manutenção das proporções das coisas, do sentido das proporções, e a capacidade de relativização que essa noção nos proporciona.

Futebol e literatura não se cruzam normalmente, pois não?

Eu tenho coletâneas de crónicas sobre futebol, o futebol de vez em quando aparece nos meus livros vagamente, mas escrevi um romance sobre futebol, «Os sítios sem resposta», que é um livro com a história de um adepto que decide mudar de clube. Um sportinguista que decide mudar para o Benfica. Decide contrariar esse paradigma de que se muda de tudo menos de clube de futebol. Em quase todas as tentativas que foram feitas nos diferentes domínios da cultura popular cruzando o futebol com a cultura popular, o que acontece é que o futebol é uma matéria demasiado rasteira para interessar aos leitores de literatura e a literatura é uma arte demasiado elitista para interessar aos «rasteiros» amantes de futebol. Claro que algumas pessoas têm contrariado esta tendência, as crónicas do Nelson Rodrigues eram excecionais, as crónicas e os contos do Eduardo Galeano e do Osvaldo Soriano são excecionais, o Javier Marías é um colunista de futebol formidável. Mas as tentativas de cruzamento da ficção, nomeadamente, com o futebol, têm sido muito raramente bem sucedidas. A tal ponto que hoje, quando citamos um título de um exercício ficcional da cultura popular que tenha a ver com futebol citamos sempre o mais absurdo de todos, que é «A angústia do guarda-redes no momento do penálti», do Peter Handke, que deu o filme do Wim Wenders. Coisa de que só conhecemos o título e o título é a coisa mais absurda para quem percebe de futebol. Se há uma coisa que o guarda-redes não tem no momento do penálti é angústia.

Quem tem é quem marca…

Exatamente. O guarda-redes está sempre salvo. Se defender é um herói, se não defender não lhe acontece nada. Já o avançado, se marcar não fez mais do que a sua obrigação e se falhar é um vilão. Mas realmente são mundos muito diferentes e sobretudo nós os criadores nunca fomos capazes de os cruzar, que eu saiba… Talvez haja um grande livro ou grande filme sobre futebol. O único grande filme que conheço sobre futebol é um documentário sobre o Zidane em que não há uma única palavra, que é sublime, mas não é propriamente cultura popular, é um exercício estético. E eu neste momento já não me sinto motivado. Nós também vamos encontrando as nossas inclinações, os nossos métodos e a nossa voz e eu hoje sinto que os meus textos e os meus livros estão cada vez mais existencialistas, cada vez mais íntimos e menos ligados à espuma dos dias. Mesmo a vertigem documentalista a que recorri nos últimos quatro ou cinco livros já começou a desaparecer no último e no próximo não vai existir de todo. Portanto, neste momento não me sinto nada inclinado para voltar a ousar nessa área.

Na transição do jornalismo para a literatura, o desporto esteve sempre presente?

Sim, tirando talvez ali entre 2000 e 2004. Em 2000 consegui finalmente sair dos jornais desportivos Estava muito obcecado com a ideia de deixar de escrever só sobre futebol. Achava que era muito limitador. Quando finalmente consegui parar, não tinha mesmo vontade nenhuma de sequer olhar para a televisão. Aí tornei-me apenas sportinguista. Gozei o futebol como sportinguista. Foi uma boa altura para ser sportinguista. Entre 2000 e 2004 foi para aí a única altura do meu tempo de vida em que valeu a pena ser sportinguista. Duas vezes campeão…

Via os jogos em Alvalade?

Tinha lugar no estádio, ia aos jogos. Entretanto houve o Euro 2004 e eu sugeri ao diretor da Grande Reportagem, onde trabalhava, escrever uma coluna semanal a propósito do Euro 2004. Gostei imenso de fazer aquilo. Na altura achei, provavelmente presunçosamente, que podia escrever sobre futebol de uma maneira como na altura não se escrevia. Depois houve mais pessoas que começaram a escrever de uma maneira um pouco mais distinta. Entusiasmei-me e continuei a escrever sobre futebol na Grande Reportagem e depois na NS. Entretanto O Jogo convidou-me para escrever uma coluna diária, de terça a sábado, que dura até hoje. Na altura comecei a escrever sobre golfe, futebol e também sobre cultura.

Portanto, continua em cima dos jogos e da atualidade.

Sim. Eu não discuto penáltis e ainda hoje tenho um bocado de dificuldades em definir o que é um 4-4-2 em basculação… O meu futebol é o futebol da paixão e tem sido uma tentativa de perceber as ameaças que o futebol tem e que muitas vezes se contêm no próprio futebol, na própria euforia do cruzamento do futebol com uma certa ideia de modernidade e que o desvirtua.

A questão é a comercialização excessiva?

O excesso de mercantilismo é uma coisa absolutamente dramática. As sociedades anónimas desportivas vieram pulverizar a ideia de coletividade, que talvez já fosse uma ideia datada, mas é mais ou menos evidente que por exemplo em Portugal, que supostamente é a sexta maior Liga da Europa, só haja dois clubes, com sorte três, em que o futebol efetivamente seja um negócio rentável. Há uma série de indústrias satélite que estão a pisar os calos e os interesses do próprio futebol. A última delas, muito evidente, é a indústria das apostas, que é uma ameaça. Enquanto continuar sem controlo e sem a fiscalização devida, que é muito difícil de promover mas tem de ser possível, essa indústria está a ameaçar dramaticamente o futebol.

Pode questionar a própria integridade do jogo, não é?

Questiona, é evidente. No futebol, como em qualquer sistema ultra-capitalista, tudo se compra e tudo se vende. E quando um dos negócios mais rentáveis é o das apostas, que depende de resultados, os resultados também passam a ser passíveis de se comprar e vender. Por regra, porque por exceção sempre o foram. Mas essa indústria é profundamente ameaçadora. E a indústria do agenciamento, que desloca o eixo dos interesses do futebolista e dos clubes para uma entidade externa com interesses nem sempre claros, que tem a ver às vezes com a promoção de outros futebolistas e de outros negócios que não têm nada a ver com o negócio que está em causa. E mesmo pequenas indústrias, como por exemplo a das novas tecnologias. O VAR é apenas o exemplo mais claro. Mas com o VAR o que é que conseguimos? Conseguimos criar uma pequena indústria de distribuição de material tecnológico, que não é apenas um software de leitura das imagens que as câmaras captam. São as câmaras também, são os operadores, as gruas, as carrinhas, os gabinetes mais as pessoas que lá trabalham, mais os ex-árbitros e árbitros que trabalham como VAR. Há uma série de pessoas a sustentarem-se de uma coisa que no tempo de jogo realmente melhorou o índice de justiça do futebol.

Vamos falar do VAR, de que é crítico…

É verdade, a dita verdade desportiva melhorou. O problema é que aquilo em que não melhorou tornou-se dramaticamente mais grave. Porque, ao retirar-se o elemento critério deixou de haver alguma coisa que pudesse atuar na zona da dúvida. Além disso temos o problema do antí-climax total que é um golo. Eu próprio já estou habituado. Há um golo, acendo um cigarro e fico à espera que alguém me diga se devo festejar golo ou não. Pode demorar 30 segundos e pode demorar até seis minutos, como este fim de semana. Dá tempo para fumar o cigarro até ao fim. Isto está a transformar o futebol num jogo muito diferente no estádio e também na televisão. Está a transformar-se em elemento do espetáculo aquilo que não era. E que no fundo é a mesma coisa que há tanto tempo desvirtua o cinema, desvirtua a política. A transformação de tudo num espetáculo. Isso desagrada-me. Além de que a verdade é que as polémicas não se reduziram, não há mais consenso em torno da verdade de um campeonato. Não só não se reduziram como se incendiaram ainda mais, porque agora é ainda mais evidente, e há provas ainda mais evidentes para uns, de que as coisas eram realmente assim, como demonstram as imagens. Que aparentemente continuam a demonstrar outra coisa para outra pessoa que está ao lado.

O benefício que o VAR traz não compensa isso?

Não. Traz algum benefício, o número de erros de arbitragem é hoje menor, mas o futebol é mais desinteressante e mais caótico, a pretexto de uma medida que pretendia torná-lo mais ordeiro. E isso é um grande paradoxo. E um paradoxo que ninguém está disponível para aceitar, apesar das demonstrações evidentes todas as semanas, ninguém consegue concentrar-se nos sinais de fracasso. O último jogo do FC Porto foi muito claro. Não apenas no que diz respeito ao golo invalidado por três centímetros, quando o presidente da UEFA uns dias antes tinha dito que não se pode invalidar um golo por um centímetro, que era evidentemente uma imagem. Um centímetro e três neste caso queriam dizer a mesma coisa. E fica por marcar um penálti, que ficaria também sem VAR. Portanto, não ganhámos nada. O que ganhámos foi o FC Porto ter dito com mais propriedade que foi prejudicado. Já existe VAR em Portugal há 3, 4 anos. Portugal foi um dos pioneiros. Aquilo que conseguimos com isso foi deixar o pelotão da frente do top 5 das Ligas europeias, onde estávamos na altura com mais um lugar nas competições europeias. Agora estamos a lutar com a Rússia pelo sexto lugar e estamos sempre a falar no regresso de uma vaga na Liga dos Campeões em 2022, mas em 2024 vai haver uma nova Liga dos Campeões. Essa vaga que vamos recuperar vai valer dois anos e não há garantia nenhuma de que o futuro não seja definido com critérios distintos dos atuais. E nós continuamos a investir em coisas absolutamente inúteis e inconsequentes. E os clubes continuam a queixar-se e a renovar a direção da Liga, por exemplo, não apenas com maioria absoluta mas com sufrágios acima dos 90 por cento porque nem sequer existe alternativa. Acho tudo isto um grande paradoxo e uma gestão profundamente conjuntural, sem nenhuma visão estrutural do problema. E entretanto as novas gerações torcem pelo Real Madrid, pela Juventus, pelo Manchester United, com uma paixão que muitas vezes não têm pelo Benfica, pelo Sporting ou pelo Porto.

Isso ainda é reversível, voltar a essa paixão mais local?

Às vezes vejo o exemplo do que aconteceu com a cultura francesa. Os franceses sempre fizeram aquilo que no século XIX o Eça disse que nós devíamos fazer também, que é falar orgulhosamente mal as línguas estrangeiras. Nós rimo-nos porque somos profundamente provincianos. Os franceses estão a proteger a sua cultura desde sempre. É óbvio que a cultura francesa atual também já está muito contaminada pela ditadura da língua inglesa. No cinema francês os filmes com mais resultados também já são feitos segundo modelos americanos. Mas ainda assim é a segunda indústria ocidental do cinema e a segunda grande literatura a nível de projeção global. Desde o ocaso da literatura de língua russa apenas a língua francesa consegue fazer frente à ditadura da língua inglesa. E isso aconteceu porque os franceses à partida foram aquilo a que nós chamávamos chauvinistas. Foram protetores da sua cultura. Ora nós sempre tivemos muito orgulho em falar bem inglês, continuamos a usar palavras e expressões idiomáticas de língua inglesa, julgando que supostamente nos dá algum cosmopolitismo. Eu acho que isso é tudo um grande provincianismo, porque no fundo é abrir os braços à colonização cultural. O mesmo acontece com o futebol.

Abdicar da memória, não é?

É abdicar da memória. Nós estamos a fazer isto também com o futebol. Esta coisa de querermos ser os primeiros a ter o VAR foi muito paradigmática disso. Num país onde os clubes têm os défices que têm, onde os clubes estão sob as suspeitas de corrupção que estão, onde os jogadores da seleção nacional jogam todos no estrangeiro, querer fazer de ser pioneiro na operacionalização do VAR uma coroa de glória é uma grande tontice. É ver o mundo ao contrário. Para mim é um grande provincianismo e infelizmente os resultados estão a demonstrá-lo. Os nossos clubes estão cada vez mais longe do topo europeu, a competitividade das nossas equipas ficou bem expressa nas competições europeias este ano.

Foto: António Araújo

Para terminar, como é essa relação com o golfe?

Eu acho o golfe o melhor jogo do mundo. O pior do golfe são os golfistas. Eu nunca gostei de golfistas. Há alguns com quem gosto de jogar e sempre joguei, que são os meus amigos. Mas em regra os golfistas são uns patos bravos terríveis, uns arrivistas que jogam para se validarem socialmente. E curiosamente isso não está na origem do golfe, o golfe é um jogo inventado por pobres, por pastores escoceses, de que depois os ricos se apropriaram. É o caminho oposto do futebol, que é inventado nos colégios elitistas ingleses e depois é o povo a apropriar-se dele. Portanto, eu não gosto muito do convívio, não gosto muito de torneios recreativos, embora tenha jogado dezenas, centenas de torneios. Mas continuo a gostar de jogar com os meus amigos. Cheguei a ser handicap 7. Jogava bem, jogava campeonatos nacionais. É evidente que não disputava título nenhum, ficava sempre na segunda metade da tabela. Mas jogava bem, jogava muito, obsessivamente. Mas o meu verdadeiro gosto, sempre foi jogar com os amigos, por 10 euros o jogo, como se jogava um bocado no século XIX, com o saco às costas, sem tróleis nem buggies nem caddies nem essas coisas. Hoje em dia jogo muito pouco, porque tenho tanto mais que fazer. Mas hoje, quando tenho dificuldades em adormecer, o que eu faço ainda é rever um campo de golfe do princípio ao fim, o sítio onde eu gostaria de bater a bola perfeita em cada um dos 18 buracos. Em vez de contar carneirinhos, penso no campo nº 1 do campo de golfe da Aroeira. E nessas noites jogo sempre abaixo do Par. Faço imensos birdies…

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