opinião
Delegação Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. A Arte e o sofrimento

15 mar, 13:52

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

“Uma pintura não é para decorar casas, é um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo” - Pablo Picasso

A 26 de Abril de 1937, uma pequena cidade espanhola sem interesse militar estratégico foi bombardeada pela força aérea nazi. Terá sido a primeira vez na história em que civis foram vítimas de um bombardeamento aéreo, numa altura em que Espanha vivia um conflito entre os Republicanas e os Nacionalistas, liderados pelo General Francisco Franco, tendo este autorizado o massacre.

Pablo Picasso, ao ter conhecimento desta tragédia que terá provocado a perda de 1645 vidas inocentes, sentiu que precisava de agir, abdicando do projecto que realizava para iniciar aquela que seria das mais impactantes e importantes obras do sec. XX; Guernica é o espelho da extraordinária criatividade estética em linha com a sua capacidade mental em representar o sofrimento humano implícito às vítimas da guerra. A imponência desta obra cubista é a expressão dura e abstrata da dimensão da tragédia humana até nas suas proporções (3,49m de altura por 7,765m de comprimento).

É natural e quase perverso que encontremos em Guernica de 1937 uma representação similar à realidade que temos vivido desde 24 de Fevereiro de 2022, em pleno séc XXI, numa Europa onde a paz era dada como adquirida. Com a agravante que atualmente o poder bélico é muito mais letal do que à época e a imprevisibilidade seja uma constante no discurso do agressor. A perceção de controlo é quase nula, o que nos tira de uma aparente zona de conforto e nos mantém sempre ativos num desgastante e contínuo modo “fight or flight”. É, por isso, natural que haja consequências sérias na saúde mental de todos os que (sobre)vivem na primeira pessoa à crueldade da guerra, mas também em quem assiste aos recorrentes “inputs” mediáticos (e que devemos moderar para o nosso auto-cuidado). As imagens chocantes, as semelhanças culturais e geográficas geram sentimentos quase imediatos de revolta e incompreensão, mas também de compaixão e reação. A angústia de quem assiste, o potencial traumático, ansiogénico e depressivo de quem a vive, são algumas das impactantes consequências diretas que a guerra pode ter. Os contributos da ciência psicológica perante desafios como estes são particularmente relevantes no apoio às vítimas destes conflitos. É importante dar esperança e fazer algo pelas vítimas, os mais frágeis e inocentes: transformar o sentimento de impotência e revolta em ações válidas no terreno.

Picasso usou a tela para se expressar e com um soldado de espada partida, enquanto segura uma flor na mão logo por baixo de uma mulher com um lampião, não representa só o sofrimento, alude também à esperança, no meio de todo aquele caos trágico. “Guernica” foi o seu “grito de revolta” e de sensibilização que o seu talento imortalizou. E cada um de nós tem várias “talentos”. Podemos não saber pintar, mas envolvermo-nos em iniciativas organizadas e supervisionadas de forma a ajudar as vítimas é também uma “Arte”, o nosso pequeno poder. Porque se a guerra é a “Arte” do engano e mostra o pior do homem, esta revela também o melhor da Humanidade. É legítimo considerar a Paz como a Obra Prima da evolução societal e nunca é tarde para mudar de perspectiva porque, como afirma Saramago no Ensaio sobre a Cegueira: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara.”

Quando Picasso estava em Paris, as forças de segurança nazis foram vistoriar o seu estúdio; ao aperceberem-se da uma fotografia de Guernica, perguntaram:

“Você fez isto?”

Picasso respondeu:

“Não, foram vocês.”

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