De "viver a 200%" a "minimizar a vida": como lidam os portugueses com a pandemia e as guerras? "As pessoas sentem-se ameaçadas"

3 mar, 18:00
Depressão (Pexels)

A pandemia e os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente alteraram, de forma mais direta ou indireta, o estilo de vida dos portugueses. Uns começaram a viver a vida numa "correria" e a aproveitar ao máximo; outros passaram a adotar um estilo de "evitamento"

A aproveitar "a 200%" ou a "minimizar a vida", fechando-se numa "bolha” por não se conseguir viver o que se gostaria. Este é o retrato da sociedade portuguesa feito por psicólogos, como reação aos fenómenos globais e até regionais, como a pandemia e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, que, segundo dizem, estão a alterar o estilo de vida de muitos e a elevar a saúde mental a um lugar prioritário.

"Nota-se mais ansiedade, angústia, falta de esperança no futuro e negativismo. As pessoas estão tristes", garante a psicóloga Catarina Lucas. É unânime para os especialistas contactados pela CNN Portugal que a imprevisibilidade destes eventos está a ter "um impacto negativo" nas pessoas, quer sejam afetadas direta ou indiretamente por eles.

A psicóloga clínica Catarina Graça diz que "há pessoas que começaram a viver a 200%", o que foi visível logo depois da pandemia com "um boom de viagens", que se mantém até hoje. Só no segundo trimestre de 2023, de acordo com o INE, os residentes em Portugal fizeram 5,7 milhões de viagens, ultrapassando os níveis do mesmo período de 2019.

"As pessoas têm mais vontade de viajar, de priorizar o bem-estar e de praticar desporto", constata Patrícia Dâmaso, garantindo que esta mudança é, no entanto, "geracional". "São as pessoas entre os 30 e os 40 anos que tentam aproveitar ao máximo a vida, esta mudança vê-se muito nessa faixa etária", diz.

Vivem numa "correria" a tentar viver tudo o que não viveram e a aproveitar ao máximo, mas não estão livres de qualquer preocupação. "Para estas pessoas não deixa de haver um alerta por trás. Há sempre um 'se' e um 'mas', que não deixam de ser um alerta", reconhece Catarina Graça.

Ainda assim, se para uns estes eventos são sinónimo de aproveitar mais a vida, para outros nem tanto. No reverso da moeda, estão pessoas que desfrutam o mesmo que desfrutavam antes ou ainda menos. "Há pessoas que adotam um comportamento de evitamento e minimizam a vida em termos de aproveitamento. As famílias estão muito comprometidas, mesmo as que já tinham algumas fragilidades, e por isso continuam sem fazer muitas coisas e a pensar duas vezes", diz Catarina Graça, justificando o comportamento com as dificuldades económicas provenientes do aumento generalizado do custo de vida.

Estas pessoas, sobretudo as que têm filhos, vêem-se a braços com um aumento da ansiedade e do stress devido ao "aumento dos encargos". "As coisas estão mais difíceis e é difícil gerir, porque estamos num país que não evoluiu muito economicamente. Somos adultos, temos uma vida para gerir e torna-se preocupante", diz a psicóloga Patrícia Dâmaso.

Com a inflação a provocar o aumento do custo de vida, com as prestações das casas a subir vertiginosamente e a própria alimentação a encarecer, estas pessoas estão a "ver muito mais entraves". "Isto afeta várias áreas da vida de uma pessoa. As pessoas pensam em coisas que não pensavam antes e isso nota-se até nos projetos de mudar de casa ou de construir família", conta Catarina Graça.

Entre quem tenta aproveitar a vida ao máximo e quem se vê obrigado a minimizá-la, há ainda quem viva fechado num "ciclo" de contradições. "Há uma dicotomia em que as pessoas querem aproveitar ao máximo, ter mais qualidade de vida, viajar mais e sair mais, mas ao mesmo tempo isso não é assim tão concretizável, porque há vidas, trabalhos, filhos e rotinas", diz Catarina Lucas.

A psicóloga explica que estas pessoas ambicionam um estilo de vida que não conseguem adotar, o que dá lugar a sentimentos negativos. "Querem muito fazer esta vida, mas as adversidades geram um aumento da frustração e vivem neste ciclo. As pessoas fecham-se e estão cada vez mais isoladas nas suas bolhas", descreve, admitindo que a dicotomia também é sentida muitas vezes nas gerações mais jovens, que "têm uma perspetiva de que a vida deve ser aproveitada mas não têm forma de o concretizar".

Apesar das diferentes reações e formas de lidar com estes fenómenos, uma coisa parece ser comum a todos: "As pessoas mudaram o estilo de vida porque a pandemia provocou um impacto". "Não estávamos habituados a isto – estávamos habituados a ‘tudo se cura, até o cancro pode ser curado’, mas a covid-19 veio mostrar que somos humanos e que temos uma enorme fragilidade", considera Patrícia Dâmaso, psicóloga do Hospital Beatriz Ângelo - uma das unidades de saúde na linha da frente no tratamento dos doentes durante a pandemia.

Covid-19 em Portugal (AP)

Também para Catarina Graça estes eventos foram "uma grande lição" de que não podemos "controlar tudo". "Este tem sido o ponto fraco e não há pior para o ser humano", garante.

A pandemia chegou sem avisar e fechou todos em casa, numa "paragem clara da normalidade" e, como descreve Patrícia Dâmaso, "a viver uma espécie de realidade à parte". A guerra na Ucrânia explodiu e faz-se diariamente sentir para lá das fronteiras dos palcos dos combates. E, ainda sem um fim à vista para este conflito, a tensão no Médio Oriente cresceu e ameaça agora alastrar o conflito. As especialistas dão assim como certo o impacto destes fenómenos na "saúde física, psicológica e mental", com "um despertar para cuidar da saúde mental e um aumento muito grande dos pedidos de ajuda", sobretudo na sequência da pandemia.

"As pessoas não tiveram tempo de sair de uma situação para outra e estes acontecimentos fazem com quem se apercebam daquilo que está à sua volta enquanto vivem o seu dia a dia. Há uma ameaça muito grande. As pessoas sentem-se ameaçadas", garante Catarina Graça. "As pessoas estão sempre com medo e a perguntar-se onde é que isto vai parar. Não há esperança de melhoria e isso assusta-as", acrescenta.

"Ansiedade, angústia, falta de esperança": são reações normais?

O psicólogo David Neto distingue três tipos de reação a fenómenos como a pandemia e as guerras: "o stress e a ansiedade"; "as perturbações mentais na população com mais vulnerabilidade", que levou a casos de perturbação obsessiva-compulsiva durante a pandemia; e ainda "o stress pós-traumático" - que "não implica a vivência dos acontecimentos".

O especialista afirma que o stress e a ansiedade são formas "normais" de reagir a eventos deste tipo, sendo que tal foi "evidente e generalizado" no caso da covid-19, porque "as pessoas passaram por um processo de quarentena", sendo ainda visível "um impacto diferenciado quer se fale da população em geral ou das pessoas mais frágeis".

Nos conflitos armados, as reações são um pouco "diferentes". Em causa está "uma experiência que está a ser vivida por outras pessoas", não tendo por isso um impacto direto. "Infelizmente temos guerras suficientes para que não seja uma situação evidente", considera David Neto. O psicólogo garante, no entanto, que "a exposição a notícias e a imagens está associada a um crescimento do stress, principalmente quando existe exposição a situações que envolvem risco de vida para outros". 

Já quanto ao stress pós-traumático, a terceira reação apontada, o especialista esclarece que não se trata de uma situação "normal" e que deve por isso ser analisada clinicamente.

A psicóloga Catarina Graça, que indicou que há quem tenha passado "a viver a 200%", fala também em reações "normais", mas diz que tal "depende da bagagem de cada pessoa". Mesmo quem procura viver mais, pode "cair no excesso e tomar decisões precipitadas e impulsivas e começar a ter problemas de gestão financeira". "Deve ser tudo com conta, peso e medida", alerta.

"Focar no que se pode controlar e no que está dependente de nós" é a dica da especialista para "fugir da frustração". Não quer isto dizer, no entanto, que "se deve pôr tudo para trás das costas", mas antes "integrar estas situações na vida da melhor forma". "Devemos reduzir a questão para o que está ao nosso controlo, normalizando, e adaptarmo-nos, mudando os objetivos se houver necessidade disso, mas sempre no propósito de atingir a felicidade", sugere Catarina Graça.

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