A Rússia está a culpar os seus próprios soldados mortos

CNN , David A. Andelman
9 jan, 07:58
Tropas russas guardam uma entrada da central nuclear Kakhovka, no rio Dnieper, no sul da Ucrânia, a 20 de maio de 2022

OPINIÃO. O ataque de Makiivka sublinha não só as capacidades de armamento da Ucrânia, apoiadas pelo Ocidente, mas também os colossais erros estratégicos da Rússia.

Nota do editor: David A. Andelman é colaborador da CNN, duas vezes vencedor do Prémio Deadline Club, é um cavaleiro da Legião de Honra Francesa, autor do livro “A Red Line in the Sand: Diplomacy, Strategy, and the History of Wars That Might Still Happen” [tradução à letra: "Uma Linha Vermelha na Areia": Diplomacia, Estratégia e a História de Guerras Que Ainda Podem Acontecer"] e de blogs na Andelman Unleashed. Foi anteriormente correspondente do The New York Times e da CBS News na Europa e na Ásia. As opiniões expressas neste comentário são as suas próprias.

A guerra na Ucrânia entrou em 2023 com o ataque às tropas russas mais mortífero até agora - e uma tentativa de Moscovo de transferir o grosso da culpa para os seus próprios soldados mortos.

Pouco depois da meia-noite do dia de Ano Novo, um ataque ucraniano à cidade ocupada de Makiivka matou dezenas de tropas, com o Ministério da Defesa da Rússia a afirmar que o uso dos telemóveis dos seus soldados expôs a sua localização.

Independentemente de a Rússia ter perdido 400 homens, como afirma a Ucrânia, ou 89, como diz Moscovo, o resultado do ataque é o mesmo: o maior número de mortos num só incidente desde que a guerra começou há mais de 10 meses.

Se o relato russo estiver correto, foram os telemóveis que as tropas novatas estavam a utilizar, em violação dos regulamentos, que permitiram às forças ucranianas atingi-los com maior precisão. A Ucrânia, contudo, não indicou como é que o ataque foi executado. Mas as implicações são mais vastas e profundas, especialmente para a forma como a Rússia está a conduzir a sua guerra agora.

O ataque de Makiivka sublinha não só as capacidades de armamento da Ucrânia, apoiadas pelo Ocidente, mas também os colossais erros estratégicos da Rússia, cometidos quer por ignorância, quer por incompetência ou simples negligência.

É revelador que, dias após o mais mortífero ataque conhecido aos militares russos, o Presidente Vladimir Putin tenha apelado a um cessar-fogo temporário, argumentando com o feriado de Natal ortodoxo. A medida foi corretamente rejeitada pela Ucrânia e pelos EUA, como sendo uma tentativa cínica de procurar espaço para respirar, no começo de ano muito mau para as forças russas.

Como disse o Presidente dos EUA, Joe Biden, sobre Putin, "penso que ele está a tentar encontrar algum oxigénio".

Linhas de comunicação

Oficiais russos afirmaram que quatro mísseis HIMARS lançados pela Ucrânia atingiram a escola profissional onde as suas forças estavam alojadas, aparentemente adjacentes a um grande depósito de armas. (Outros dois mísseis HIMARS foram abatidos pelas defesas aéreas russas).

Este relato parece validar que há uma continuação, ou mesmo a expansão, da utilização dos sistemas de armas HIMARS que os Estados Unidos têm vindo a fornecer à Ucrânia.

O HIMARS - abreviatura de High Mobility Artillery Rocket System [à letra, “Sistema de Mísseis de Artilharia de Alta Mobilidade”] - guiado por satélite tem atualmente um alcance de 80 quilómetros. Um outro HIMARS, de longo alcance de 300 quilómetros, ainda não foi autorizado, apesar dos repetidos apelos ucranianos. (A administração Biden teme que o sistema de longo alcance possa expandir a guerra para lá das fronteiras da Ucrânia e levar a uma escalada das hostilidades).

Entretanto, a Rússia continua a armazenar grandes quantidades de armas e munições perto das tropas que irão fornecer, e bem dentro do alcance do armamento inimigo. A prática militar padrão dita que grandes depósitos sejam desmantelados e espalhados, e que estejam localizados muito atrás das linhas inimigas - mesmo dentro do território russo que as potências ocidentais declararam fora dos limites dos ataques ucranianos.

Chris Dougherty, membro sénior do Programa de Defesa e co-dirigente do Laboratório de Jogos do Centro para a Nova Segurança Americana em Washington, nos EUA, disse-me que o fracasso da Rússia em desmantelar ou movimentar grandes depósitos de armas é, em grande parte, função da realidade de que as suas forças não conseguem comunicar adequadamente.

Por causa destas más comunicações, os comandantes não saberiam que reservas estavam à sua disposição se os fornecimentos estivessem amplamente dispersos.

Esta é uma opinião partilhada por outros especialistas. “A má segurança nas comunicações parece ser prática corrente no exército russo”, disse-me James Lewis, diretor do Programa de Tecnologias Estratégicas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), numa troca de e-mails.

Pouco profissional e mal equipado

Para tornar o problema mais complicado, o Ministério da Defesa britânico disse, após o recente ataque de Makiivka, que “os militares russos têm um registo de armazenamento de munições inseguro muito antes da guerra atual, mas este incidente realça como as práticas não profissionais contribuem para a elevada taxa de baixas da Rússia".

As tropas mortas em Makiivka parecem ter sido recrutas recentes, parte de um quadro maior de soldados russos que foram enviados para as linhas da frente com pouco treino e equipamento, e armas profundamente abaixo do padrão.

De facto, alguns dos recém-chegados à guerra são reclusos das prisões russas, libertados e transferidos imediatamente para a frente ucraniana. Só se pode imaginar a utilização de telemóveis como apelativa para prisioneiros habituados a anos de isolamento, com pouco ou nenhum contacto com o mundo exterior.

O que dizem os bloggers de guerra

Os erros dos militares russos estão agora a tornar-se tão flagrantes e, como mostra o ataque de Makiivka, tão mortíferos para as forças russas, que alguns dos mais ardentes apologistas de Putin começaram agora a virar-se para o estabelecimento militar.

Semyon Pegov, que escreve em blogues sob o pseudónimo de WarGonzo e foi agraciado com a Ordem da Coragem pessoalmente pelo Presidente Vladimir Putin no Kremlin há duas semanas, atacou o Ministério da Defesa pela sua “flagrante tentativa de difamar por culpa” ao sugerir que foi a própria utilização de telemóveis pelas tropas que levou à precisão do ataque. 

Pegov questionou como poderia o Ministério da Defesa estar “tão seguro” de que a localização dos soldados alojados num edifício escolar não poderia ter sido determinada utilizando a vigilância de drones ou por um informador local.

Ele não é o único blogger de guerra russo a lançar dúvidas. “Como era de esperar, a culpa pelo que aconteceu em Makiivka começou a ser atribuída aos próprios soldados", dizia um post no canal do Telegram conhecido como "Grey Zone", ligado ao aliado de longa data do Kremlin Yevgeny Prigozhin, líder do Grupo Wagner, de mercenários. “Neste caso, é a 99% mentira e uma tentativa de desresponsabilização”.

Onde Putin encaixa na fotografia

A questão é saber quando é que a culpa começará a passar dos militares para o próprio Putin, particularmente porque ele pareceu mal preparado na mudança da liderança de topo. A última mudança foi a nomeação de Sergei Surovikin como a primeira pessoa a ser colocada no comando geral de todas as forças russas na frente da Ucrânia – sendo ele um general do exército anteriormente encarregado do brutal bombardeamento russo de Aleppo na Síria.

Um mês antes, o Ministério da Defesa sofreu um abalo quando o Coronel Mikhail Y. Mizintsev, conhecido pelos oficiais ocidentais como o “carniceiro de Mariupol”, foi nomeado vice-ministro da Defesa para supervisionar a logística, substituindo o general de quatro estrelas Dmitri V. Bulgakov, que ocupava o cargo desde 2008. A localização do depósito de armas, adjacente aos recrutas de Makiivka, terá provavelmente estado sob a vigilância de Mizintsev.

Ainda assim, Sergei Shoigu, um favorito de Putin, continuava como ministro da defesa no sábado, antes do ataque de Makiivka, a contar às suas forças num vídeo comemorativo: "A nossa vitória, tal como o Ano Novo, é inevitável".

Saber durante quanto tempo Putin pode isolar-se, e impedir que a culpa se volte contra si próprio, é a questão-chave na esteira de Makiivka. Não há qualquer indicação de que as forças ucranianas tenham qualquer intenção de diminuir a pressão sobre as forças russas no leste ou sul do seu país, à medida que a guerra entra num novo ano civil.

Parece haver poucas indicações de que o Ocidente estará a deixar de apoiar a Ucrânia. Tanto os EUA como cada vez mais a Europa, que recentemente se comprometeram a aumentar o seu financiamento em dois mil milhões de dólares em 2023, parecem determinadosema ver a Ucrânia passar este Inverno e continuar.

Ainda na semana passada, a administração Biden anunciou que os EUA estavam a considerar o envio de veículos blindados de combate Bradley para a Ucrânia. O presidente francês, Emmanuel Macron, também anunciou que enviaria tanques ligeiros, embora o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, insistisse no envio de tanques de combate mais pesados. Tudo isto coloca o chanceler alemão, Olaf Scholz, sob pressão crescente para adicionar os seus poderosos tanques Leopard 2 ao cabaz.

É uma impressionante lista de desejos de armas. E, sobretudo, um excelente começo do novo ano para as forças da democracia.

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