Cessar-fogo unilateral na Ucrânia: "uma jogada notável" de Putin ou "um suicídio" para a Rússia?

5 jan, 22:08
Putin

Vladimir Putin decidiu unilateralmente decretar um cessar-fogo durante 36 horas devido ao Natal ortodoxo, que se celebra no fim de semana. Esta decisão pode sair cara à Ucrânia - mas também pode ser "um suicídio" para as forças russas

O anúncio de um cessar-fogo na Ucrânia a propósito do Natal ortodoxo é “uma jogada notável” por parte do presidente russo, e que tanto pode sair cara às forças de Kiev, como às forças russas. À CNN Portugal, analistas políticos e militares explicam como Putin pode ter decretado "um suicídio" para o seu próprio exército.

“Há aqui uma notável jogada de Vladimir Putin, sobretudo do ponto de vista político, porque transfere para a Ucrânia - o Estado agredido - aquela que será uma decisão difícil”, salienta o comentador da CNN Portugal Azeredo Lopes.

E esta é uma decisão difícil porque, por um lado, se a Ucrânia aceitar esta imposição unilateral corre o risco de “haver uma espécie de desgraduação do conflito”, isto é, pode dar a entender que, “afinal, eles são capazes de falar uns com os outros e não há razão para não haver negociações”, observa o especialista.

No caso de recusar - como parece que vai fazer, a avaliar pela resposta do conselheiro do presidente ucraniano, Mykhailo Podolyak - “transmite a ideia de um contendor intolerante”, aponta Azeredo Lopes. E esta ideia vai ser aproveitada por Vladimir Putin, que vai insistir na narrativa de que a Ucrânia é que quer esta guerra. 

"A Ucrânia pode fazer o que quiser, mas penso que Vladimir Putin vai mais uma vez insistir que quem quer o conflito é a Ucrânia, que nem sequer foi capaz de fazer uma pausa", sustenta. 

Além de ser uma "jogada notável", este anúncio do chefe de Estado russo, diz o comentador, é também "oportuno - para não dizer oportunista - porque acontece horas imediatamente antes do cessar-fogo”, não dando tempo para a devida reflexão da Ucrânia.

Por sua vez, o major-general Agostinho Costa argumenta que este anúncio mais não é do que uma demonstração do "peso da Igreja Ortodoxa" e do patriarca Cirilo I no regime russo. "A religião é um fator identitário para a Rússia", aponta.

Por essa razão, o especialista militar acredita que "da parte russa vai efetivamente haver uma trégua", e o mesmo será cumprido pela Ucrânia - até porque, se não o fizer, essa recusa pode não ser bem recebida pela comunidade ortodoxa ucraniana, adverte.

"Muito provavelmente, a Ucrânia não vai lançar uma ofensiva num período religioso. Uma boa parte dos seus combatentes são ortodoxos, por isso, creio que a Ucrânia vai respeitar esta trégua."

"Um cessar-fogo unilateral é suicídio"

Já o major-general Isidro de Morais Pereira acredita que Volodymyr Zelensky vai "responder de igual forma" a Putin, que ignorou o seu pedido para um cessar-fogo no dia 25 de dezembro. "Nada leva a crer que as forças ucranianas deixem de prosseguir com as suas contraofensivas e ações habituais da guerra. E mesmo Putin não estaria à espera de outra reação", destaca.

Ora, se a Ucrânia não aceder à imposição de cessar-fogo, o mais provável é que a Rússia não se deixe ficar sem resposta, antecipa.

"Um cessar-fogo só surte efeito quando é aceite por ambas as partes, porque um cessar-fogo unilateral é suicídio. Isto é, se uma parte não concordar, aproveita. E o que acontece a quem recebeu ordens para não abrir fogo? Vai ter de o fazer, caso contrário vai morrer", problematiza Isidro de Morais Pereira. 

O especialista militar argumenta ainda que este anúncio de Vladimir Putin tem como propósito "limpar a imagem" do presidente russo, que está "muito desgastada no mundo inteiro" como consequência da invasão da Ucrânia.

É importante salientar que um acordo para um cessar-fogo "não significa o abandono das tropas das respetivas posições" no campo de batalha, mas sim "uma pequena trégua", esclarece o major-general Isidro de Morais Pereira.

O mesmo clarifica o major-general Agostinho Costa, que classifica este acordo como "um calar de armas", "uma paragem temporária dos combates".

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