A grande dúvida da Europa: o que fará a seguir uma Rússia enfraquecida

CNN , Análise de Nick Paton Walsh, Editor de Segurança Internacional, CNN
3 jan, 08:00
Vladimir Putin (EPA/ Vladimir Gerdo)

A guerra na Ucrânia já provou que quase todos os pressupostos estavam errados, com a Europa agora a questionar-se sobre o que ainda é seguro presumir

A invasão de fevereiro foi surpreendente em todos os sentidos: para aqueles que pensavam que Moscovo não era louca o suficiente para tentar um plano tão grande e imprudente; para aqueles que achavam que os militares russos avançariam sem dificuldades por um país de 40 milhões de habitantes e estariam a fazer operações de limpeza passados 10 dias; e para aqueles que julgavam ter a capacidade técnica e de informações para fazer mais do que apenas bombardear aleatoriamente zonas civis com artilharia antiquada que os militares do Kremlin teriam aperfeiçoado desde Grozny, na Chechénia, nos anos 90. E, finalmente, para aqueles que achavam que o brandir do sabre nuclear era um paradoxismo em 2022 - que não era possível ameaçar casualmente as pessoas com armas nucleares, pois a destruição que trariam seria total, para todos no planeta.

Ainda assim, no final de 2022, a Europa lida com um conjunto de incógnitas conhecidas, inimagináveis até em janeiro. Recapitulando: um exército antes considerado o terceiro mais formidável do mundo invadiu o seu vizinho mais pequeno, que há um ano se destacava principalmente nas áreas da informática e da agricultura.

A Rússia gastou milhares de milhões de euros na aparente modernização das suas Forças Armadas, mas descobriu-se que isso era, em grande parte, uma farsa. Veio a descobrir que as suas cadeias de abastecimento não funcionam a algumas dezenas de quilómetros da sua própria fronteira; que a avaliação que fez da Ucrânia como uma nação desesperada para se libertar do seu próprio “nazismo” é o produto distorcido dos yes-men submissos a um presidente - Vladimir Putin - que lhe diziam o que ele queria ouvir no isolamento da pandemia.

A Rússia também conheceu um Ocidente que, longe de estar dividido e hesitante, ficou, pelo contrário, feliz em enviar algumas das suas munições para a fronteira a leste. As autoridades ocidentais também podem sentir-se surpreendidas pelo facto de as linhas vermelhas da Rússia parecerem mudar constantemente, à medida que Moscovo percebe quão limitadas são as suas opções não nucleares. Nada disso deveria acontecer. Então, agora que aconteceu, o que faz e para o que se prepara a Europa?

A chave é como o Ocidente tem estado inesperadamente unido. Apesar da divisão em relação ao Iraque e à Síria, e parcialmente relutantes em gastar os 2% do PIB em segurança, algo que os Estados Unidos há muito exigem dos membros da NATO, a Europa e os EUA têm falado ao mesmo ritmo em relação à Ucrânia. Por vezes, Washington deixou passar uma posição mais cautelosa e houve exceções autocráticas como a Hungria. Mas a mudança é em direção à união, não à disparidade. E isso é uma grande surpresa.

São ainda prematuras as afirmações de que a Rússia perdeu a guerra. Existem variáveis que ainda podem levar a um impasse a favor de Moscovo ou mesmo a um revés da sorte. A NATO pode perder a paciência ou a coragem em relação ao envio de armas e procurar uma solução económica mais conveniente em vez de uma segurança a longo prazo, pressionando por uma paz desfavorável a Kiev. Mas isso, neste momento, parece improvável.

A Rússia está entrincheirada na margem leste do rio Dnipro, no sul da Ucrânia, e tem a vantagem de ter as linhas da frente de Donetsk e Lugansk, no leste, mais próximas da fronteira russa. No entanto, os desafios são imensos: soldados mal treinados e recrutados à força totalizam 70.000 das forças na linha da frente - e isso segundo a avaliação polida de Putin, que debate-se por munições e é alvo de críticas internas regulares e abertas à cadeia de abastecimento no inverno.

A Ucrânia está no seu território, com a moral ainda elevada, e as armas ocidentais continuam a chegar. Desde o colapso da manta de retalhos que eram as forças de Moscovo à volta de Kharkiv, no nordeste, em setembro - onde as linhas de abastecimento foram interrompidas por uma força ucraniana mais inteligente - a dinâmica tem sido toda contra Moscovo.

A perspetiva de uma derrota russa pode ser vista no panorama mais amplo: o país não venceu rapidamente contra um adversário inferior. Os porta-vozes da TV estatal falaram sobre a necessidade de “descalçar as luvas” depois de Kharkiv, como se não fossem expor um punho já definhado. Reveladas quase como um “tigre de papel”, as forças armadas russas passarão décadas a recuperar até mesmo uma aparência de estatuto de par com a NATO. Esse talvez seja o maior prejuízo para o Kremlin: os anos de esforço usados para reconstruir a reputação de Moscovo como um inimigo inteligente e assimétrico, com forças convencionais de apoio, evaporaram em cerca de seis meses de má gestão.

Soldados russos na Ucrânia, a 6 de março de 2022

Ainda persiste a questão da força nuclear, principalmente porque Putin gosta de invocá-la regularmente. Mas até nisto a ameaça da Rússia enfraqueceu. Em primeiro lugar, a NATO tem enviado sinais inequívocos da devastação convencional que as suas forças infligiriam se qualquer tipo de dispositivo nuclear fosse utilizado. Em segundo lugar, os outrora aliados da Rússia, a Índia e a China, avaliaram rapidamente a sequência de derrotas russas e condenaram publicamente a retórica nuclear de Moscovo. (É provável que as mensagens privadas entre líderes tenha sido mais agressiva.)

E, finalmente, Moscovo fica com uma pergunta para a qual ninguém quer saber a resposta: se as cadeias de abastecimento de gasóleo para os carros de combate que estão a 60 quilómetros da fronteira russa não funcionam, então como podem ter a certeza de que “o botão” funcionará, se um Putin louco avançar para pressioná-lo? Não há perigo maior para uma potência nuclear do que revelar que os seus mísseis estratégicos e a sua capacidade de retaliação não funcionam.

Apesar deste declínio palpável da Rússia, a Europa não está a prever uma era de maior segurança. Os apelos por maiores gastos com a Defesa são mais altos e mais ouvidos, ainda que ocorram num momento em que a Rússia - que durante décadas definiu a segurança europeia - se revela menos ameaçadora.

A Europa começa a perceber que não pode depender dos Estados Unidos - e das suas oscilações loucas entre pólos políticos - para a sua própria segurança.

Entretanto, morreram milhares de ucranianos inocentes em resultado da tentativa egoísta e desorientada de Putin de reviver um império czarista. De forma mais ampla, o autoritarismo foi exposto como um sistema desastroso através do qual se podem travar guerras de opção.

No entanto, algo de bom resultou deste desastre. A Europa sabe que deve abandonar a dependência do gás russo imediatamente e dos hidrocarbonetos em geral, a longo prazo, pois a dependência económica dos combustíveis fósseis dos ditadores não pode resultar numa estabilidade a longo prazo.

Então, como é que o Ocidente lida com uma Rússia que passou por esta colossal perda de prestígio na Ucrânia e que está lentamente a definhar a nível económico por causa das sanções? Uma Rússia fraca é algo a temer ou é apenas fraca? Esta é a dúvida com a qual o Ocidente se debate. Mas já não é uma questão assim tão assustadora.

Durante mais de 70 anos, a Rússia e o Ocidente mantiveram o mundo nas garras da destruição mutuamente garantida. Era uma paz baseada no medo. Mas o medo de Moscovo deve diminuir lentamente, e isso acarreta um risco de erro de cálculo. Também levanta uma perspetiva menos assustadora: a de que a Rússia - como muitas autocracias antes dela - pode estar a desaparecer, prejudicada pela sua própria dependência interna do medo.

O desafio atual da Europa é lidar com uma Rússia num estado de negação caótica, esperando que evolua para um estado de declínio controlado. Um consolo inabalável pode ser que, depois de subestimar o potencial de maldade de Moscovo, o risco para a Europa seria sobrestimar o seu potencial como ameaça.
 

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