opinião
Colunista e comentador

“O pecado original foi cometido por Schmidt, mas o que se pede é bom-senso e… cada macaco no seu galho!”

28 nov 2023, 13:00

Rui Santos escreve sobre o incidente entre Roger Schmidt e os jornalistas, que começou no pós-dérbi. E não iliba ninguém

O incidente ocorrido entre um jornalista da RTP e Roger Schmidt há duas semanas, logo a seguir ao dérbi, a propósito de uma pergunta banal (“considera que o resultado foi melhor do que a exibição?”), gerou um pequeno “tsunami” no espaço público, com efeitos até hoje.

A resposta de Roger Schmidt à banal pergunta foi surpreendentemente tosca: “Porque pergunta isso? Você é do Sporting ou do FC Porto?”

Os jornalistas, no primeiro contacto que se seguiu com Schmidt após esse incidente, antes do jogo com o Famalicão, ensaiaram uma espécie de ‘resposta’ e uma espécie de auto movimento de proteção e decidiram, em maioria, fazer as perguntas ao treinador do Benfica em português.

Quase se acendeu um ponto de interrogação sobre a cabeça de Schmidt e o assessor de comunicação também mostrou algum incómodo, dizendo que não era tradutor. 

Estava o caldo entornado.

Após a partida com o Famalicão, o Benfica e Schmidt falaram à Sport TV e não à RTP (boicote a um dos operadores) e cancelaram a presença na conferência de imprensa pós-jogo, assumindo as consequências no plano disciplinar.

Vamos por partes.

Parece-me indiscutível que o pecado original esteve em Roger Schmidt.

Bastaria uma breve retratação pública e o assunto estava encerrado. Não o quis fazer, do alto da sua torre de marfim protegida pelo Benfica.

Fez mal. Fizeram mal.

Os jornalistas decidiram responder ou retaliar, na pior versão da interpretação, dando um sinal a Schmidt que merecem ser respeitados.

Percebemos depois que a resposta dos jornalistas foi um acto instantâneo, concertado no momento, não resultante de ações que, nestas circunstâncias, quando se pisam linhas vermelhas, devem ser acionadas, via protocolo, tipo alarme ou válvula de segurança.

Há sempre a questão da eficácia e, salvo melhor opinião, os jornalistas sobre este tema devem discutir e definir protocolos. Para que haja eficácia nas suas tomadas de posição. 

Não vi nesse esgar de indignação, nenhum tipo de ataque à instituição Benfica mas apenas uma forma de dizer ao treinador que, não assumindo o seu erro, há outras formas de jogar este jogo.

Na verdade, Schmidt está num país estrangeiro com idioma próprio; é ele quem deve fazer um esforço de adaptação a essa realidade (e Schmidt fez até agora zero esforço) e não o contrário.

Há anos que vejo, em quase todas as sedes, quando estamos a falar dos “grandes” e em ambientes de conferência de imprensa, um clima artificial gerado muitas vezes em cima ou de uma excessiva proximidade ou de um tácito pacto de não agressão. Em suma, regras viciadas.

Não é fácil, por causa das lógicas concorrenciais, que sugam o sangue, as energias e a lucidez quando se entra numa espécie de estúpido “território de guerra”, mas as empresas de comunicação social há muito que deveriam ter chegado a um acordo de regime, chamemos-lhe assim, para situações deste tipo. 

Urge.

O Benfica, como grande clube que é, com responsabilidades sociais indiscutíveis, percebendo o logro, deveria ter feito os possíveis para amenizar ou eliminar um principio de conflito gerado pelo seu treinador Roger Schmidt, em vez de lhe dar proteção.

O que Schmidt fez foi tentar esvaziar a crítica ou colocá-la num plano de… “se não estás connosco, és do FC Porto ou do Sporting”.

O Benfica não precisava de o castigar, não precisava de lhe puxar as orelhas, bastava ter uma abordagem construtiva. Assim colou-se ao lado do infrator e, mais uma vez o futebol português, caiu numa zona de desprestígio. Por causa das tais raivinhas e dos orgulhos de pacotilha.

O Benfica ainda tentou arranjar uma escapatória para justificar a discriminação feita em relação à RTP (em prol da Sport TV), mas o argumento que utilizou para explicar o cancelamento da conferência de imprensa no pós-jogo com o Famalicão (a questão do tradutor) parece uma coisa de amadores ou, se se quiser, uma desculpa esfarrapada.

O Benfica tem de estar acima destas manigâncias para não se tornar num alvo fácil quando situações similares ocorrem noutros lugares.

É neste plano que Rui Costa não se pode deixar confundir com outros. Na Luz ou fora dela.

A comunicação social, de uma vez por todas, precisa de perceber em que momentos (e como) deve abrir o pára-quedas, quando o avião da informação é atingido e fica em chamas.

Ninguém ganha com isto. Todos devem assumir as suas responsabilidades.

O bom-senso nunca deve ser derrotado por qualquer braço-de-ferro. 

É preciso não perder a noção de que ambas as partes devem ter consciência da importância do seu papel. O respeito é tudo e… cada macaco no seu galho!

… Ou é necessário… um tradutor?!!!

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados