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Major-general

A China a ser a China

15 mai, 23:09

Num artigo da revista Economist de 11 de abril último, Feng Yujun, investigador sénior da Universidade de Pequim, afirma que a guerra na Ucrânia prejudicou as relações sino-russas e prevê que a Federação Russa acabe por sofrer uma derrota completa nesta contenda que já entrou no seu terceiro ano de duração. Apelidando o fracasso de Moscovo de “inevitável”, este conceituado Professor prevê inclusivamente que as forças da Rússia “sejam forçadas a retirar-se de todos os territórios ucranianos ocupados, incluindo a Crimeia”. Em muitos aspetos, os comentários do Professor Feng Yujun encontram-se em linha com o pensamento de muitos investigadores ocidentais. Parece existirem sinais subtis de que Pequim não está realmente entusiasmada com a forma como o Kremlin se encontra a conduzir a guerra e a querer estendê-la no tempo.

Em boa verdade o Professor Feng Yujun, neste seu já citado artigo, acaba por questionar de uma forma engenhosa o posicionamento russo no que toca à sua aventura expansionista na Ucrânia. Estamos claramente perante a defesa do primado dos interesses que movem cada Estado: primeiro nós, depois os outros! Realpolitik do mais alto nível, dando a conhecer de uma forma singular, bem ao estilo chinês, a posição de Pequim, nos termos de uma habitual “inescrutabilidade oriental”.

Acresce que, em regra, nada na China é publicado, como de resto foi o caso, sem a anuência prévia ou a orientação explícita do governo. A forma como o artigo foi escrito leva-nos desde logo a uma primeira ilação: a de que Pequim está a ficar sem paciência para esta guerra sem sentido e pelos cabelos com as permanentes demandas do Kremlin. Parece, sem exageros, que Pequim já começa a considerar esta conjuntura como uma verdadeira causa perdida. A China parece ter muito mais com que se preocupar. Focar-se naquilo que para si considera como vital: até final da primeira metade deste século tornar-se na primeira economia à escala planetária. Ou seja, ultrapassar, de facto, a economia dos EUA.

Do artigo vale a pena destacar ainda alguns outros pontos considerados centrais.

Em primeiro lugar, a convicção de que esta guerra acabará por resultar numa derrota russa. De seguida e assim sendo, a Rússia terá de devolver as terras que ilegalmente ocupou. Vem depois a velha questão que sempre se coloca em qualquer conflito: até quando os ganhos compensarão as perdas? Na opinião do distinto Professor e também na minha, a longo prazo os potenciais ganhos desta guerra não compensarão minimamente os custos. Neste caso subjugar pela força das armas um país dilacerado a precisar de ser reconstruído e uma população que, durante décadas, irá nutrir um ódio visceral a tudo quanto tenha o mais ligeiro odor a Rússia, não parece ser prémio suficiente para tanto sacrifício. Outra dimensão complementar digna de registo é o facto de a China entender a ameaça nuclear ciclicamente brandida por Moscovo, como um sinal de debilidade em matéria de capacidade convencional. Mais relevante ainda o ter para si própria que mesmo no Ocidente mais permeável às ações de propaganda moscovita, ninguém acredita já neste tipo de confabulações catastrofistas. A perceção é a de que a Federação Russa está a hipotecar o seu futuro numa guerra infrutífera que nunca conseguirá realmente vencer.

Se Moscovo persistir no erro, acabará no colo da China, como seu vassalo económico e político, não porque assim o queira, mas por absoluta necessidade de sobrevivência. Torna-se clara a sensação que hoje a China não está certa de que arcar com tal responsabilidade lhe seja benéfico. No fundo sustentar uma cleptocracia moscovita colocará a China numa posição muito pouco recomendável tendo em vista os seus próprios interesses.

Não se trata de uma posição oficial chinesa. O que está em causa é um artigo de opinião. Mas, conhecendo a China convém que o visado lhe dê a atenção devida. Pequim é pródigo neste tipo de mensagens dadas de forma indireta e adepta desde longa data do uso de um tipo de linguagem e de achegas por vezes quase impercetíveis para, nas entrelinhas, passar a sua mensagem. Muitas vezes, decifrar as reais intenções das autoridades chinesas constitui uma verdadeira forma de arte. Entre construções fraseológicas desdenhosas, mescladas com formulações sóbrias, sérias e firmes, esta missiva só pode ser interpretada como uma advertência.

Em boa verdade, a China está a tentar dizer à Rússia, ao seu estilo, que está a ficar farta da guerra e da forma como ela está a ser conduzida.

Em termos realistas, a China está a defender-se de uma clara possibilidade de vir a ser objeto de sanções secundárias, já aventadas quer por autoridades dos EUA, da EU e de numerosos Estados Europeus, contra os seus bancos e muitas das suas indústrias que fornecem à máquina de guerra russa materiais de uso dual. Desde máquinas-ferramentas a microchips, passando por elevadas quantidades de nitrocelulose que constitui a base do fabrico da maior parte dos explosivos convencionais.

A recente visita de Anthony Blinken deixou claro uma crescente resistência no que diz respeito ao apoio encapotado de Pequim ao esforço de guerra russo e tudo sugere que a China parece estar a levar a sério a mensagem do Secretário de Estado norte-americano.

No fundo Pequim vê-se apanhada entre dois fogos. Por um lado quer apoiar o seu aliado mal-comportado e neste processo vê-se a arriscar a concretização de objetivos vitais. Putin, na sua teimosia de restaurar o império russo, parece estar inflexível, não importa o quanto a China tente persuadi-lo a encontrar uma saída airosa. Por outro lado uma boa relação com os EUA trar-lhe-á enormes benefícios comerciais, económicos e financeiros. Uma qualquer perturbação de uma relação económica fluida e frutífera com o Ocidente, designadamente com os EUA, deixa a China inquieta. Pequim ainda está a tempo de emendar a mão. A ideia de uma Federação Russa em estertor e em potencial derrocada à sua porta, com todos os problemas que isso poderia trazer, coloca a China num estado de grande ansiedade. No fundo, Pequim está a dar a indicação de que é altura de mudar de rumo. Mas do lado de Moscovo nada parece estar fácil. A situação só se alterará quando alguém suficientemente poderoso e lúcido disser a Putin o que ele precisa ouvir.

A China parece estar a entoar algumas notas soltas de uma melodia que precisa de ser entendida. Ninguém em Moscovo parece conseguir captar a mensagem. A estridência da histeria é demasiada para perceberem que o fim da denominada “cooperação sem limites” parece afinal estar mais próximo do que se supunha.

O realismo político continua a ser o “primeiro mandamento” nas relações internacionais. A China, entre defender o seu parceiro ou defender os seus interesses vitais parece não ter qualquer dúvida. De resto em vários artigos de opinião recentemente publicados, especialistas bem posicionados fruto da sua proximidade à Casa Branca e às diversas Comissões Especializadas do Congresso dos EUA têm vindo a sugerir que Anthony Blinken terá disponibilizado os bons ofícios norte-americanos por forma a garantir à China os recursos que de momento lhe são fornecidos pela Rússia. Porventura esta eventual inflexão da política externa chinesa possa ser um catalisador de uma possível solução mais rápida para uma guerra que apenas serve a Moscovo.

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