opinião
Diretor executivo CNN Portugal

A razia sonsa

8 dez 2021, 14:15

A lista de candidatos de Rio às legislativas tem zero independentes, zero antigos membros do governo, quase zero de “sociedade civil”, quase zero de opositores, é aparelho, aparelho, aparelho, o que é lindo para quem diz que ganhou contra ele. Quem falou em “limpeza étnica”?

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Primeiro o PSD escolheu Rui Rio, agora Rui Rio escolheu o PSD. O seu PSD. E o seu PSD é este. E este é um PSD de muitos fiéis e alguns tementes. Rio não paga a traidores.

Não é tanto a razia que surpreende, é a sonsice. Porque antes, durante e depois, Rui Rio jurou, jura e jurará que não fez, faz ou fará uma “limpeza étnica”, excluindo os “outros” ou os apoiantes dos “outros”. Ou “outros” são os que o desafiaram internamento ou desfiaram críticas externamente. E quando se olha para as listas dos candidatos a deputados do PSD aprovada esta terça feira à noite em Conselho Nacional, só há uma pessoa que nega o apartheid político: Rui Rio - “É mentira, é mentira mesmo”.

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Rui Rio tem razão, é “mentira mesmo”, não há exclusão absoluta, estão lá dois ou três dos “outros”. Quase todos zeros à esquerda, é zero vírgula um de “outros”, umas décimas para a fotografia. “Diga-nos um”, perguntaram-lhe os jornalistas, mas os nomes são tão pouco relevantes que nem lhe ocorreu dizer um. Adiante.

Adiante estão as eleições de 30 de janeiro e Rui Rio é agora um sério candidato a ser primeiro-ministro, depois da grande vitória interna contra o favorito Paulo Rangel. Foi no dia seguinte a essa vitória que o relegitimado presidente do PSD, em entrevista à CNN Portugal, se projetou com a grandeza dos magnânimos. Não, não puniria, integraria. Palavras, palavras, palavras. As ações ficaram guardadas para as listas de deputados.

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Os jornalistas da CNN Portugal que acompanharam o Conselho Nacional foram relatando em direto as ações e reações. Os presidentes das distritais de Faro, de Viseu e de Coimbra (apoiante de Rangel) foram excluídos, tendo um (Paulo Leitão) afirmado ser “uma honra estar excluído das listas” e outro (Cristóvão Norte) acusado a direção de “punir aqueles que não apoiaram o líder”; o presidente da distrital do Porto, Alberto Machado (apoiante de Rangel), ficou no humilhante último lugar da lista do distrito; Bruno Vitorino, ex-presidente da distrital de Setúbal, falou de “vergonha” e de “tiques de ditadorzeco”; Pedro Pinto acusou Rio de ter já “feito” três partidos, o Aliança, o Chega e a IL; Paulo Rangel, mais comedido, identificou a falta de “esforço para unidade”.

Rui Rio teve meio partido sempre contra ele. Três vezes venceu esse meio partido e está agora com mais força do que nunca. O mérito é seu, o poder também. O afastamento de detratores não é por isso uma surpresa, até porque esse é o seu perfil (e o seu percurso político). A questão é outra, é Rio ser gato dizendo que é lebre, contrariando aliás uma das caraterísticas que os portugueses mostram nos estudos de opinião mais apreciar nele: a honestidade.

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A jura de não fazer uma “limpeza étnica” no partido rima com a promessa anterior de dar “um banho de ética” no partido. Rui Rio tem um estilo de liderança cavaquista, de confiar em poucos e desconfiar de muitos, de centralizar e rodear-se de um núcleo duro pequeno e fiel. O resultado é uma lista do PSD às legislativas com zero independentes, zero antigos membros do governo, quase zero de “sociedade civil” e quase zero de opositores. Ou zeros vírgula uns, pronto. É aparelho, aparelho, aparelho, é agora o aparelho de Rui Rio, o que é notável para quem diz que ganhou contra ele.

Pronto, PSD, agora vai dormir. Vêm aí o natal e o fim de ano, pede os teus desejos e espera trinta dias. Para ganhar, Rui Rio vai dar tudo. Mas não a todos.

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