opinião
Psicólogo da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Uma história da história da guerra e alguns símbolos

3 abr, 16:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

Por vezes em psicologia temos que pegar em acontecimentos negativos, ou traumáticos e deles extrair algo… construtivo. Por vezes, em consulta psicológica, temos que levar a pessoa a fazer coisas que simbolicamente a motivem ou direcionem para a sua estruturação. Seja na arte, no desporto, na economia, a palavra “guerra” assume por vezes um caminho indireto, respeitoso e estruturante da paz.

A Torre de Tóquio, com 33 metros de altura, tem sido desde 1958 uma das principais fontes de turismo da cidade que lhe dá nome. É a segunda maior estrutura artificial do Japão e foi inspirada na Torre Eiffel. Mais de 160 milhões de pessoas já a visitaram. Inicialmente foi concebida para transmissão de sinais televisivos. Para mim, o maior valor da Torre de Tóquio é o simbolismo que ela carrega. O Japão queria afirmar para si e para o mundo o milagre económico da década de 50 pós II Grande Guerra, pretendendo na altura construir uma torre mais alta que o Empire State Building (edifício situado em New York, capital financeira do país responsável pela capitulação e destruição do Japão em consequência da Guerra).

O plano inicial não se concretizou devido à falta de recursos e de materiais. A solução encontrada consolidou um dos legados da Torre de Tóquio para o mundo. A estrutura foi redesenhada, passou a ter capacidade para aguentar terramotos com intensidades duas vezes superiores ao grande terramoto de Kanto e tufões com velocidades acima dos 220kms/h. Apesar de ser mais alta do que a Torre Eiffel, pesava menos 3,3 mil toneladas quando foi acabada. A torre foi construída em aço, sendo um terço do aço retirado dos tanques norte-americanos abatidos na guerra da Coreia. A Torre de Tóquio ergue-se há muitos anos como uma representação de paz, construída em parte com os despojos de um invasor e a ambição de um povo envergonhado pelo passado, orgulhoso pelo futuro em construção.

Talvez seja isto que nós, ocidentais, procuramos quando tentamos atribuir uma certa lógica a este conflito sem razão que existe na Ucrânia, procurando apaziguar essa fonte de ansiedade e instabilidade. Tentamos trazer uma certa razão e um certo simbolismo ao conflito e procuramos heróis por entre os escombros de uma miséria que é a Guerra, acreditando que eles são os arautos da Paz. Já ouvimos notícias de políticos ucranianos que nos dão esperança, começando pelo próprio presidente Zelenski; já ouvimos histórias de oficiais russos supostamente sabotadores do seu próprio regime; ouvimos falar de um fantasma de Kiev que com o seu avião seria o terror do exército invasor; sabemos de histórias de desportistas ucranianos que lutam pelo seu país. De todos eles esperamos grandeza e superpoderes que coloquem fim a toda esta irracionalidade.

O fantástico cérebro humano procura a lógica no caos, preenche vazios, cria referências que tragam equilíbrio emocional às situações que não controlamos. Esta Guerra é tão terrível (talvez por estar mais próxima) que nos fez esquecer Síria, Nagorno-Karabakh, Turquia-Curdistão, Israel-Palestina, Afeganistão, Iraque, Iémen, Líbia, Sudão do Sul, Somália, Paquistão, Mali, República Centro-Africana… desculpem-me se me esqueci de alguma zona instável. Todos estes territórios têm conflitos potencialmente descontrolados. Pelo menos dois dos países que referi nesta lista têm conflitos abertos com outros estados e ofereceram-se como mediadores para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

Será que no final desta Guerra haverá uma Torre de Kiev construída com os tanques do exército invasor?

 

 

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