opinião
Psicólogo da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. A exposição leva à habituação?

28 mar, 13:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

A habituação corresponde à diminuição da magnitude da resposta a um estímulo com a exposição repetida ao mesmo. Trata-se de um processo bem estudado e conhecido, e aplicável a múltiplas experiências na nossa vida - incluindo a reação às trágicas notícias da guerra.

Quando, há um mês, nas primeiras horas da manhã, forças russas invadiram um país soberano que procura encontrar a sua progressão democrática, ficamos chocados, apreensivos e tememos pelo povo ucraniano, pela Europa e pelo tempo em que vivemos. Nessa ocasião, escrevíamos sob a incerteza (https://cnnportugal.iol.pt/ucrania/renato-gomes-carvalho-psicologia-em-tempo-guerra-dominio-identidade-des-animo/20220226/62192eee0cf2c7ea0f1b89f7), as incógnitas eram muitas  e continuam hoje a ser.

Desde então, assistimos a uma sucessão de acontecimentos (e também de não-eventos e especulações), sequência essa que é maximizada pelo facto de esta ser uma guerra em direto contínuo, na era dos ciclos noticiosos de 24h, da internet, das redes e de tudo o que lhes está associado em termos de incerteza e confusão - e que de certa forma já conhecemos da pandemia e anteriormente das experiências eleitorais em alguns países.

A exposição contínua à sequência desenfreada de estímulos que caracteriza a cobertura da guerra gera uma elevada ativação emocional, psicofisiológica e pode interferir com o nosso pensamento e funcionamento no dia a dia, motivo pelo qual se torna essencial gerirmos essa exposição, no quadro da promoção do nosso autocuidado. Mas, para além de corresponder somente a uma estratégia de autocuidado, ter atenção à exposição a uma sequência contínua de estímulos daquela natureza remete para a necessidade de também termos consciência de uma trajetória insustentável e que nos pode levar a habituação e subsequente dessensibilização. Na prática, a certa altura, as imagens e relatos que chegam têm menor impacto em nós e isso poderá ter consequências.

Sabemos que acontecimentos extremos, como é o caso da guerra, fazem com que estejamos mais atentos à informação e a todo o tipo de dados que são veiculados sobre os mesmos. O problema é que é pouco provável que esse padrão se mantenha indefinidamente ou seja sustentável. Com o tempo, é previsível a instalação de um sentimento de saturação ou de fadiga - nem que seja pelo sentimento de impotência de que quem se encontra a milhares de quilómetros ou pela necessidade de dar resposta a outros acontecimentos de vida - e que pode corresponder a um fator de risco adicional para a importância que damos ao que se está a passar, para a nossa reatividade e envolvimento, e até para a acomodação de alguns impactos económicos, por exemplo, que decorrem das sanções.

Pensar nas potenciais consequências da habituação alerta-nos assim para dois aspetos. Em primeiro lugar, termos consciência deste fenómeno da diminuição da disponibilidade emocional e impacto poderá ajudar a contrariá-lo, incluindo através do autocuidado, o que, entre outros, envolve gerirmos a exposição a uma sequência ininterrupta de notícias, valorizarmos a interação social de qualidade, realizarmos atividades prazerosas, entre outros (vide https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_aguerraafecta_nosatodos.pdf). É importante que não desvaneçam o nosso interesse e a nossa indignação com tudo o que se está a passar, nem o nosso envolvimento para ajudar no que for possível - nem que seja num donativo ou apoio circunstanciado, mas muito útil a quem precisa.

Em segundo lugar, no plano social, institucional e político, recorda-nos o facto que está bem descrito de, após uma certa fase heróica inicial, surgir um aumento da frustração e saturação nas comunidades, sobretudo com a deterioração de algumas condições de vida, em resultado dos problemas nas cadeias de distribuição e de aumentos consideráveis de custos das matérias-primas. A perspetiva de estar demasiado tempo em suspenso não é mobilizadora e deve ser dado um racional e um sentido à experiência, incluindo quando a mesma envolve sacrifícios e sobretudo numa comunidade que, após 2 anos de pandemia, digamos, não está emocionalmente na melhor forma.

Um dos motivos pelos quais esta guerra nos afeta tem que ver com a proximidade psicológica que temos com aquele conflito. É certo que a menor distância psicológica é influenciada pela exposição a todos os estímulos resultantes da cobertura contínua. Mas essa proximidade psicológica decorre mormente da semelhança lato sensu de uma matriz cultural e, sobretudo, da consciencialização que o que está ali em causa à nossa porta é uma ameaça civilizacional - à nossa cultura, ao nosso modo de vida e ao risco de sujeição da Vida e do Tempo a algo que há muito rejeitamos.

É também por isto que, com habituação ou não, com maior ou menor reatividade à barbárie, serão a resistência, a perseverança e a reafirmação contínua dos valores que partilhamos - assim como os comportamentos consequentes - que nos permitirão ter sucesso e continuar.

 

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