Estudo revela que a pandemia pode ter mudado as nossas personalidades

CNN , Madeline Holcombe
1 out, 11:00
A pandemia pode ter feito com que as pessoas se tornassem mais neuróticas e menos simpáticas, abertas e conscientes, segundo o estudo

A covid-19 mudou muita coisa – a forma como socializávamos, para onde íamos e até como trabalhávamos. Um novo estudo revela que a pandemia também pode ter mudado as nossas personalidades.

Há muito tempo que os psicólogos acreditam que as características de uma pessoa permanecem basicamente as mesmas, mesmo após eventos stressantes. No entanto, analisando os níveis pré-pandémicos de neuroticismo, extroversão, abertura, amabilidade e consciência, e comparando-os com dados recolhidos em 2021 e 2022, os investigadores detetaram mudanças notáveis ​​de personalidade entre a população dos Estados Unidos, de acordo com o estudo.

“A pandemia foi uma oportunidade sem precedentes para ver como um evento stressante e coletivo pode afetar a personalidade”, disse a principal autora do estudo, Angelina Sutin, professora de Medicina da Universidade do Estado da Florida.

A extroversão, a amabilidade e a consciência diminuíram na população dos EUA, nos anos que se seguiram ao início da pandemia, especialmente em adultos jovens, segundo o estudo publicado quarta-feira na revista “PLOS One”.

Porque foram os adultos mais jovens aqueles que sofreram um maior impacto? Não podemos ter certezas, disse Sutin, mas existem teorias.

“A personalidade é menos estável nos adultos jovens”, disse Sutin. “Mas, ao mesmo tempo, a pandemia interrompeu o que os jovens adultos deveriam estar a fazer. Eles deveriam estar na escola, a iniciar as suas carreiras ou a fazer a transição para o início das suas carreiras. Deveriam estar a sair com os amigos e a criar relacionamentos.”

Os resultados não foram transversais a todas as pessoas - foi uma análise a uma tendência populacional, portanto, não é uma surpresa se não vir essa mesma mudança em si ou nas pessoas que lhe são mais próximas, disse Sutin.

Há também algumas ressalvas nos dados, disse Brent Roberts, professor de Psicologia da Universidade do Illinois em Urbana-Champaign, que não esteve envolvido no estudo. Como não houve um grupo de controlo e outras explicações não foram analisadas, ele disse que é difícil dizer com toda a certeza se foi a pandemia que causou essas mudanças.

Por trás das descobertas

Os investigadores recolheram dados de mais de 7000 pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 109 anos, que participaram online no “Understanding America Study”, e compararam a forma como responderam às perguntas antes de fevereiro de 2020 com as respostas que deram no final do mesmo ano e novamente em 2021 ou 2022.

Os dados foram analisados usando um modelo de cinco fatores, que levanta a hipótese de os vários traços de personalidade poderem ser atribuídos a uma das cinco qualidades abrangentes: neuroticismo, extroversão, abertura, amabilidade e consciência.

Em toda a população analisada, os investigadores encontraram uma tendência de declínio no neuroticismo em 2020, mas as alterações foram pequenas, segundo Sutin.

Depois de terem em consideração os dados de 2021 e 2022, os investigadores observaram uma diminuição mais significativa na extroversão, na abertura, na amabilidade e na consciência. A alteração foi grande o suficiente para equivaler a cerca de uma década de mudança, segundo o estudo. O neuroticismo também aumentou ao longo deste tempo.

Isto é especialmente importante se tivermos em conta o quão essenciais são estas características, disse Sutin. A consciência é importante para os resultados académicos e de trabalho, bem como para os relacionamentos e a saúde física, acrescentou.

“O aumento do neuroticismo e a diminuição da consciência significariam que este grupo estaria mais vulnerável a problemas de saúde mental e física”, disse Roberts. “Embora, tendo em conta a dimensão modesta dos efeitos, eles seriam muito subtis para serem vistos ao nível de um indivíduo e, provavelmente, só seriam vistos em análises agregadas a um nível populacional, como aquelas feitas pelos epidemiologistas.”

Ainda restam dúvidas

Uma sociedade menos aberta, menos agradável e menos consciente pode não parecer promissora, mas os especialistas dizem que ainda há mais trabalho a ser feito para determinar como é que estas descobertas podem afetar o futuro.

Embora os investigadores tenham notado alterações, ainda não podem dizer quanto tempo pode durar a mudança de personalidade ou se a mesma sofrerá um retrocesso, disse Sutin.

A conclusão, acrescentou Roberts, é que “a personalidade, embora mais consistente do que a mudança, não é fixa e pode reagir às mudanças ambientais”.

E, como houve mudanças na sociedade e na maneira como as pessoas funcionavam, torna-se claro que a pandemia foi difícil para todos, apontou.

“Por outras palavras, as pessoas não estão loucas. Foram alguns anos difíceis para todos nós. Tanto que houve até um pequeno efeito nas nossas personalidades”, disse Roberts.

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