Eram bombas, mas Olena não sabia. Mulher de Zelensky recorda o dia em que começou a guerra: "Parecia que estava numa realidade paralela"

18 jun, 20:31

De volta a Kiev, num escritório do complexo presidencial, recordou que mais tarde nesse dia abraçou o marido pela última vez, mas não houve tempo para grandes sentimentalismos. Só mais tarde pensou que podia nunca mais voltar a vê-lo

“Honestamente? Não. Não acreditei que fosse acontecer. Nem sequer tinha o meu passaporte pronto”, confessou Olena Zelenska, primeira-dama da Ucrânia, sobre a guerra no país, que nunca pensou que pudesse vir a ser uma realidade.

A verdade é que aconteceu e já lá vão quase quatro meses. Em entrevista ao jornal The Guardian, Olena contou que acordou com o som do que descreveu como estrondos abafados. Eram bombas, mas não sabia. Ainda na cama, olhou para o lado e viu que estava sozinha. Rapidamente, levantou-se e noutra divisão da casa encontrou o marido, Volodymyr Zelensky, vestido de fato e gravata, pronto para se tornar no símbolo da resistência ucraniana. 

Ficou sozinha com os dois filhos do casal, Kyrylo, de nove anos, e Oleksandra, de 17. Para sua surpresa, os filhos já estavam acordados e vestidos, como se soubessem o que estava a acontecer.

Olena disse que começou então a fazer as malas, correndo para a cave com os filhos e os seguranças sempre que os estrondos pareciam estar mais perto. “Parecia que estava numa realidade paralela, que estava a sonhar”, recordou.

“Foi um sentimento surreal… como se estivesse a jogar um jogo de computador e tivesse de passar um nível para chegar a casa. Mas estava a tentar controlar-me e tive um sorriso estranho o dia todo na cara, porque estava a tentar não mostrar pânico às crianças. Seguimos as ordens da segurança, fomos onde nos disseram para ir”, precisou a primeira-dama ucraniana.

Agora, de volta a Kiev, num escritório do complexo presidencial, recordou também que mais tarde nesse dia abraçou o marido pela última vez, mas não houve tempo para grandes sentimentalismos. Só mais tarde pensou que podia nunca mais voltar a vê-lo.

A vida longe de todos

No dia em que começou a guerra, o marido contou-lhe que ela e as crianças seriam levadas para um local seguro. Local esse que nunca revelou durante a entrevista: apenas que se mudou regularmente, nunca tendo saído da Ucrânia.

Revelou, no entanto, que os dias eram longos e solitários. Olena tentou criar horários e coisas para fazer para se manter ocupada, ajudando também o filho a fazer os trabalhos de casa. “Tens de planear as tuas horas e minutos, para teres a certeza que tens coisas para fazer e não acabares perdida nos teus pensamentos.”

Os filhos foram “fantásticos”. Oleksandra continuou os estudos à distância e planeia começar a universidade em setembro, Kyrylo sentiu falta dos amigos. “Não os vejo há tanto tempo. Há meses que brinco com cães e seguranças”, disse à mãe.

As declarações sobre o marido

Quando, nos primeiros dias de guerra, Zelensky afirmou publicamente que os russos o tinham como inimigo número um e a sua família como inimigo número dois, Olena confessou que não pensou muito no assunto, “caso contrário teria ficado paranoica”.

Olena tentou lidar com a situação com calma, revelando que às vezes conseguia falar com o marido, mas não de forma usual. Isto porque ela e os filhos foram aconselhados a deixar os aparelhos eletrónicos para trás, por questões de segurança. Também não podiam usar redes sociais.

No entanto, Zelenska manteve-se sempre informada e, acima de tudo, sabia como o marido estava a liderar a nação, até porque tinha televisão. “Podia ver que era tudo muito emocional para ele”, descreveu, acrescentando que, “conhecendo-o", sabe que "ele fez tudo emocionalmente para conseguir divulgar a sua mensagem". "Não era manipulação, era genuíno.”

Após mais de 100 dias de guerra, Olena preocupa-se principalmente com a saúde física do marido e não com a parte psicológica. “Ele fica sempre doente depois de períodos difíceis. Ele relaxa e depois apanha um vírus ou algo do género. Estou a tentar cuidar dele nesse aspecto, mas como todos os homens ele não gosta de medir a temperatura ou a tensão.”

A primeira dama ucraniana recordou com um sorriso a vida com o marido antes de 24 de fevereiro, afirmando que as “piadas sem fim” era uma constante nas suas vidas. “Por vezes, fico cansada dessas brincadeiras. Ele nunca se cansa”, revelou.

“Ele conseguia pensar sempre em coisas engraçadas. Se tivéssemos uma discussão, eu ia trabalhar e pensava nessa discussão o dia todo. Ele ia para o trabalho, desligava o interruptor do drama e ligava o da comédia, passava o dia a trabalhar e depois voltava para casa de ótimo humor. Eu ficava do género: 'porque não estás a sofrer como eu?’".

Relativamente à decisão do marido de se candidatar à presidência da Ucrânia, Olena contou que descobriu através das notícias. O marido disse-lhe que se esqueceu de lhe contar. Algo que lhe provocou “todo o tipo de emoções”.

Os dois voltaram a viver juntos em Kiev, mas não se veem com regularidade devido à agenda do marido. “Espero que, brevemente, nos possamos ver mais, mas não vejo essa possibilidade por agora.”

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