Primeiro o críquete, depois o burquini e agora as orações. Em Monfalcone há uma guerra aberta entre políticos e imigrantes

18 fev, 19:09
Burquini (Amr Nabil/AP)

Milhares de cidadãos vindos do Bangladesh vivem na cidade portuária que desde 2022 viu ser reforçado um governo de extrema-direita. Em Roma dizem que "aqueles que escolhem viver em Itália devem respeitar as normas italianas"

“Foi doloroso, um insult sério que nunca esperámos”. É assim que o presidente da associação cultural Darus Salaam recorda a receção de um envelope com duas páginas do Corão queimadas.

Nas declarações citadas pelo The Guardian, Bou Konate estava longe de imaginar o que aí vinha. A viver de forma pacífica há cerca de 20 anos na cidade portuária de Monfalcone, em Itália, a comunidade muçulmana ali residente viu a vida virar pesadelo no último ano.

Depois do envelope recebido pela associação vieram as medidas da autarquia. A presidente da câmara de Monfalcone, Anna Maria Cisint, ordenou o fim de todas as rezas da religião muçulmana, isto já depois de ter proibido as mulheres de utilizarem acessórios como o burquini, endurecendo a legislação de ano para ano desde 2016, quando a autarca de extrema-direita chegou ao poder.

“Não foi coincidência”, disse Bou Konate, ainda sobre a carta, a qual viu como uma “ameaça gerada por uma campanha de ódio que exacerbou a toxicidade”.

Monfalcone atrai vários imigrantes, nomeadamente do Bangladesh, que vão para lá trabalhar na indústria da construção naval. Com os trabalhadores vieram as famílias, mulheres e filhos, mas a chegada de Cisint começou a mudar o paradigma.

Dos cerca de 9.400 estrangeiros que vivem em Monfalcone, mais de seis mil são do Bangladesh, de acordo com a própria autarca, que vê nisso um problema.

“Se não fosse a contribuição da comunidade estrangeira, Monfalcone seria uma cidade-fantasma”, diz Enrico Bullian, conselheiro da ala esquerdista da região de Friuli-Veneza, também citado pelo The Guardian.

Em vez disso a cidade tornou-se diferente. Muitas lojas e restaurantes são dos imigrantes, que também trouxeram para a cidade um meio de transporte que ali era menos comum: a bicicleta.

Mas Cisint, que é apoiada pela Liga do ministro Matteo Salvini e pelos Irmãos de Itália da primeira-ministra Giorgia Meloni, ganhou as eleições de forma fácil em 2022, numa campanha em grande parte feita contra a imigração.

Com poder reforçado, uma das primeiras medidas foi retirar os bancos da principal praça de Monfalcone. A razão? A maioria das pessoas que os utilizavam eram imigrantes. Depois Cisint tentou limitar o número de crianças estrangeiras nas escolas, abolindo também a prática do críquete, um dos desportos mais famosos no Bangladesh, no festival desportivo da cidade.

Mais recentemente, e numa das medidas mais polémicas, anunciou mesmo a proibição do burquini, fato de banho utilizado pelas mulheres muçulmanas mais conservadoras.

Mas houve uma medida que teve mais impacto que qualquer outra. Em novembro Cisint anunciou a proibição dos encontros na instituição de Konate e numa outra similar. “Teve um enorme impacto”, admite o homem, que vive em Itália há 40 anos.

“Rezamos pacificamente há mais de 20 anos. Mas isto não era apenas um local de reza. As pessoas vinham para se encontrarem, para falarem. As crianças vinham aqui depois da escola. Há muitos centros islâmicos onde podemos rezar em toda a Europa, e ninguém os proíbe”, nota.

Só que Cisint alega que os muçulmanos ali presentes estão a colocar em causa as regras da cidade, defendendo que as ruas devem ser utilizadas para o comércio, e não para rezas.

“Eu não disse ‘fechem e não pode rezar’”, defendeu-se a autarca, em entrevista ao Observer, acrescentando que “o espaço estava a ser utilizado de forma distorcida, era uma mesquista. Eles têm de respeitar as leis”.

E Cisint tem o respaldo do governo. Questionada sobre o caso em janeiro, Meloni afirmou que “aqueles que escolhem viver em Itália devem respeitar as normas italianas”.

Mas a comunidade muçulmana garante que respeitas as regras, o que está a provocar uma crescente tensão, tendo já havido protestos com milhares de pessoas numa cidade que tem pouco mais de 30 mil habitantes.

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