Porque é que nos esquecemos cada vez mais de tantas coisas? Daqui a pouco “passamos a ter menos capacidade de atenção do que um peixe”

17 abr, 22:00
Homem a apontar tarefas para realizar. (Pexels)

Por vezes achamos que estamos apenas mais distraídos e até brincamos com a ideia de ter uma memória de peixe, mas a verdade é que a nossa concentração e capacidade de nos lembrarmos já viram melhores dias. Estilo de vida (mais e mais digital) é um dos principais culpados, alertam especialistas

O nome de uma cara conhecida que não vem à mente, a chave do carro que foi pousada sabe-se lá onde na hora de sair de casa, um brunch com os amigos que resultou numa hora de atraso porque o esquecimento falou mais alto. Tudo isto são exemplos de casos esporádicos e momentâneos de falta de memória, mas a verdade é que tendem a ser cada vez mais recorrentes e a aparecer cada vez mais cedo.

À CNN Portugal, os especialistas em neurologia e psiquiatria dizem que são muitos os fatores que podem estar a contribuir para este cenário, sendo o stress e a tecnologia aqueles que mais se destacam, com especial atenção para o segundo, que surge cada vez mais cedo na vida das pessoas e acaba por ter um impacto direto na capacidade de concentração e memória. E há ainda que incluir nesta equação o avançar dos anos.

“O próprio envelhecimento normal leva à perda de faculdades de forma gradual e progressiva, sendo que a atenção, a concentração, o rendimento de trabalho e algumas formas de memória são das primeiras dimensões a ser afetadas em idades tão precoces como a partir dos 30-35 anos”, começa por explicar Alexandre Amaral e Silva, neurologista no Hospital CUF Tejo e no Hospital CUF Santarém.

“Não é uma questão de preguiça ou de perder a acuidade”, diz Amir-Homayoun Javadi, professor de Psicologia e Neurociências Cognitivas na Universidade Kent, Reino Unido. O especialista aponta o dedo à pandemia, também ela um fator determinante para a memória. “Como estamos a passar por uma fase pandémica nos últimos dois anos, isso faz com que se torne mais difícil para os nossos cérebros criar e relembrar memórias”.

O mito do multitasking

Em 2018, a Universidade de Stanford publicou uma entrevista a Anthony Wagner, professor de Psicologia e diretor do Stanford Memory Laboratory, em que o especialista alertava para as consequências do multitasking - execução de várias tarefas ao mesmo tempo, como estar a “assistir” a uma série enquanto se faz scroll numa rede social, estar a estudar enquanto se mantém uma conversa por escrito com outra pessoa, trabalhar em mais do que um projeto em simultâneo.

Para muitas pessoas, a capacidade de fazer mais do que uma tarefa em simultâneo é uma valência positiva, quase que um super-poder dos tempos modernos - e muitas vezes até presente como requisito em anúncios de emprego - mas a verdade é que o nosso cérebro não gosta assim tanto desta sobrecarga de trabalho. Até pode estar a fazer duas tarefas ao mesmo tempo, mas a atenção dada a cada uma delas é deficitária e a memorização fica em causa.

Segundo Wagner, que, ao longo de uma década, estudou a memória em ambiente de múltiplas tarefas realizadas em simultâneo, tendo publicado os resultados dessa investigação na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o multitasking afeta diretamente a memória de trabalho e a atenção e compromete tarefas simples de memória, como lembrar onde deixou a chave de casa no dia anterior.

O neurologista Alexandre Amaral e Silva considera que, “na maior parte das situações, o multitasking é prejudicial, não só para a memória como para o desempenho cognitivo em geral”. E explica o porquê: “a divisão da atenção por diversas tarefas em simultâneo pode comprometer a concentração, diminuir a velocidade de processamento da informação e comprometer a qualidade do desempenho, levando a uma menor eficácia na realização das tarefas”. No fundo, diz, saltar de tarefa em tarefa, tentando na verdade realizá-las ao mesmo tempo, dificulta “a apreensão e retenção dos detalhes de cada uma e levando ao registo de informações fragmentadas e menos estruturadas”.

Em 2020, a revista Nature publicou um outro estudo que vem apontar o dedo ao multitasking, revelando que o uso em simultâneo de várias ferramentas digitais - como estar a fazer uma pesquisa online ao mesmo tempo que se “vê” televisão - pode prejudicar a atenção, sobretudo em adultos jovens (entre os 18 e os 26 anos), tornando pior a sua capacidade de recordar mais tarde situações ou experiências específicas.

O resultado, alerta  Alexandre Amaral e Silva, é “uma sobrecarga de informação que induz uma simplificação da abordagem das tarefas e impede uma reflexão adequada sobre os acontecimentos que seria fundamental para uma eficaz consolidação das memórias dele decorrentes”. “Em crianças e jovens há evidências claras de perturbações da atenção, distúrbios do sono e da ansiedade com impacto em termos de rendimento académico relacionados, em particular, com o multitasking digital”, continua o neurologista.

Stress: o combustível para o estado de alerta

O stress é uma resposta fisiológica com papel importante para colocar o organismo num estado de preparação para um desafio físico e cognitivo. É o combustível para o estado de alerta e atenção, mas apenas quando se faz sentir com peso e medida, o que, nos estilos de vida atuais, tem vindo a ser cada vez menos frequente.

“A ciência começa a reportar em animais que há um efeito do stress no envelhecimento celular, mas ainda não se consegue passar para humanos e perceber qual o impacto a longo prazo”, diz Sofia Rocha, neurologista no Hospital de Braga, que adianta que a Universidade do Minho tem realizado algumas investigações sobre o impacto do stress no funcionamento cognitivo, seja de profissionais, como professores universitários e enfermeiros, ou estudantes.

De acordo com um estudo publicado em 2009 na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience, “o stress é um forte modulador da função da memória, no entanto, a memória não é um processo unitário e o stress parece exercer efeitos diferentes dependendo do tipo de memória, como a explícita e a de trabalho”. A memória de trabalho é um componente cognitivo que permite o armazenamento temporário de informação com capacidade limitada, podendo chamar-se memória do presente, aquela que nos ajuda a lembrar algo aqui e agora e que vai construindo 'gavetas' com memórias futuras.

“A exposição a níveis de stress elevados pode inclusive levar à produção excessiva de determinadas hormonas como o cortisol que têm um impacto negativo na performance do cérebro e podem até condicionar alterações da sua morfologia”, explica Alexandre Amaral e Silva.

E o papel do stress na memória é quase como um círculo vicioso: o stress afeta o sono, que por seu turno afeta a concentração e esta, quando melindrada, impacta a capacidade de reter informação para lembrança futura, comprometendo a memória.

Ecrãs: inimigos da concentração e memória

Muito associados ao multitasking aqui já descrito, os ecrãs dos dispositivos móveis são, por si só, inimigos da concentração e memória, sobretudo quando usados em excesso.

“Os dispositivos móveis e as suas cada vez mais diversificadas aplicações competem permanentemente pela nossa atenção contribuindo para o aumento dos índices de distratibilidade, na medida em que as pessoas tendem a perder a capacidade de dirigir voluntariamente a sua atenção navegando ao sabor dos estímulos digitais”, diz Alexandre Amaral e Silva. 

No caso das redes sociais, que acabam por ser um dos principais entretenimentos online, João Cardoso, psiquiatra na Clínica Leite, não hesita em dizer que “estão feitas para isso”, para prender as pessoas, fazer com que queiram passar mais e mais tempo nelas. “O Instagram e o TikTok têm um algoritmo para dar sempre a novidade e isso mexe com o nosso sistema de seeking [procura]. Tudo isto tem a ver com a dopamina, quando procuramos uma coisa boa produzimos endorfinas, endocanabinoides, mas é a dopamina que nos leva a procurar coisas”, refere.

No caso dos adultos, diz a neurologista Sofia Rocha, os dispositivos móveis e as redes sociais acabam por “cultivar bastante em termos de informação”, contudo, podem ter “o efeito de nos tornar menos ativos socialmente e a estimulação social com outras pessoas é essencial para o funcionamento cognitivo adequado”. 

Nas crianças, por seu turno, a situação “é completamente diferente”, uma vez que o uso constante de gadgets “traz danos, porque [as crianças] estão numa fase de desenvolvimento neuronal, ficam mais irritadas e isso interfere na aprendizagem”, alerta a médica.

“Temos alguns estudos que revelam que o tempo de concentração de uma criança diminuiu nos últimos 20 anos. Antes conseguiam ter, salvo erro, 12 segundos de foco, e um peixe dourado tinha oito segundos, passados 20 anos, as crianças têm em média sete segundos e passamos a ter menos capacidade de atenção do que um peixe e isso é preocupante. Temos de repensar tudo o que é ecrãs, são péssimos”, alerta.

O psiquiatra diz que “não fomos feitos para levar com tanta informação” e que, “numa fase da vida na transição da adolescência, os neurónios mais usados ficam e os menos usado vão embora”. 

E qual o impacto dos gadgets, do consumo desenfreado de informação online e das redes sociais na memória a longo prazo? “Ligue-me daqui 50 anos e falamos”, diz o psiquiatra, lamentando que ainda não é possível medir os danos, mas que se estimam maus.

Quando é que as pequenas falhas de memória devem ser um motivo de preocupação?

Segundo o neurologista Alexandre Amaral e Silva, nas pessoas mais jovens, apesar de estarem mais à mercê do multitasking e dos efeitos dos ecrãs na concentração, “raramente existe um compromisso primário da memória, sendo os motivos mais comuns dessas falhas pontuais e transitórias são fatores como os distúrbios de ansiedade/depressão, sobrecarga intelectual/emocional, distúrbios nutricionais e hormonais ou perturbações do sono”.

“Pequenos lapsos pontuais, sem repercussão relevante, como a dificuldade em lembrar um nome ou saber onde está um objeto, não são motivo de alarme tanto mais que são habitualmente ultrapassados em poucos segundos”, salienta o médico neurologista. Porém, destaca que, “apesar das causas serem maioritariamente “benignas”, no sentido de não se tratarem de doenças com caráter degenerativo, elas não devem ser menorizadas e devem motivar uma correta avaliação e abordagem, particularmente se tiverem impacto relevante no desempenho diário”. 

Para Alexandre Amaral e Silva, “a frequência dessas falhas, o seu impacto no desempenho escolar, profissional ou familiar, com diminuição do rendimento e da produtividade ou compromisso das relações interpessoais, são os sinais de alerta mais relevantes e que devem motivar o recurso a um apoio especializado”.

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