As ginastas que pintam a ouro a busca pela perfeição

20 nov 2019, 10:10
Rita Ferreira e Ana Rita Teixeira

Rita Ferreira, estudante de Medicina, e Ana Rita Teixeira, aluna do 10.º ano, chegam a treinar mais de 30 horas por semana e não param de ganhar medalhas... sobretudo de ouro

Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

São 17 horas de uma sexta-feira escura, fria e chuvosa. Chegamos ao Acro Clube da Maia e são muitos os ginastas que já se encontram a treinar. Nos minutos que se seguem, vão chegando mais e mais. As aulas já terminaram, mas para eles o fim-de-semana ainda não chegou. É aqui que trabalham os atletas que fizeram história para Portugal ao conquistarem nove medalhas no Campeonato da Europa de ginástica acrobática disputado em Holon, Israel, há duas semanas.

Rita Ferreira e Ana Rita Teixeira foram responsáveis por trazerem três dessas medalhas. O par feminino venceu dois dos três ouros portugueses (no all around e no exercício dinâmico) e uma prata (no exercício de equilíbrio). O Europeu é o ponto alto de um ano em que já tinham conquistado medalhas de ouro em três Taças do Mundo (na Maia, nos EUA e na Bélgica) e em que tinham vencido o Circuito de Taças do Mundo.

 

Ana Rita, a volante, tem 15 anos e pratica ginástica desde os nove, depois de uma passagem pela natação. «Não tinha nada a ver comigo», esclarece. Este é o primeiro ano de sénior e disputou em Israel o seu primeiro Europeu e a maior competição internacional até agora.

Rita, a base, tem 19 anos e muito mais experiência a alto nível, embora este seja também o seu primeiro ano de sénior. Começou na ginástica aos seis anos e é uma das ginastas portuguesas mais medalhadas: além dos títulos deste ano, em 2014 conquistou a medalha de bronze no Mundial como juvenil. Um título inédito para Portugal. E a partir daí, foi sempre a subir. Em 2015, no mesmo escalão, venceu o ouro nos Europeus, em 2017, já como júnior, conquistou três medalhas de ouro nos Europeus e foi ainda campeã do mundo em 2016 e em 2018 como júnior.

Ana Rita é estudante do 10.º ano e Rita está no segundo ano do curso de medicina. Além das aulas dedicam cerca de 27 horas por semana à ginástica, que aumentam para mais de 30 nas fases em que a competição é mais intensa.

«A nossa rotina diária é: escola, treinos e depois ir para casa dormir… ou estudar», conta Ana Rita.

«Duas vezes por semana ainda temos treinos antes de irmos para a escola e para a faculdade. Começámos às 6h30 e fazemos um treino mais físico, mais de preparação muscular e resistência. Depois vamos para as aulas e depois voltamos», acrescenta Rita. Chegam a sair do pavilhão às 21 horas e o único dia em que não treinam é ao domingo.

«O que gostam de fazer nos tempos livres?» A pergunta que parecia ter lógica aquando da preparação da entrevista, começa a tornar-se um pouco desfasada da realidade quando ficamos a saber como é a rotina destas jovens. Mas arriscamos e perguntamos na mesma. A resposta surge com o bom humor de quem já está habituado a não ter muitas horas do dia sem ocupação.

«É um pouco estranho. Nem sabemos muito bem. Gostamos de fazer tudo e nada», contam a rir.

Mais a sério, Ana Rita diz que «é um pouco difícil conciliar tudo para estar com a família e os amigos» e admite sentir «um bocadinho de pena» por perder «as festas de aniversário, as saídas com os amigos».

«As outras coisas ficam em suspenso», diz Rita. «Temos noção de que a ginástica não dá sempre, não dá para fazer profissionalmente aos 40 anos, por exemplo, por isso temos de aproveitar enquanto nos aguentamos e depois fazemos o resto», acrescenta a base, que frisa: «Quando não estamos aqui fazemos as coisas habituais da nossa idade.»

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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«O que é que vos faz continuar a fazer esse esforço diário após tantos anos?» Ana Rita tem a resposta pronta: «Por causa dos nossos objetivos».

«Eu nem sei bem», começa por dizer Rita, mais pragmática. «A base é mesmo o gostar muito. Ninguém, mesmo com objetivos altos, vem para aqui todos os dias cinco ou seis horas sem gostar muito. Não dá. É impossível.»

E como é que se consegue conjugar a ginástica com a carreira académica? Rita explica: «No secundário eu não estudava muito em casa. Estava muito concentrada nas aulas e estudava um bocado aos fins-de-semana. Passei bem.»

A estudante de Medicina conta que «na faculdade está a ser mais difícil». «São muitas disciplinas diferentes, maior carga horária e exige muito mais tempo», mas Rita Ferreira explica que a ginástica até lhe traz uma vantagem. «Eu não fiz as cadeiras todas, mas conheço pessoas que estudam imenso e fizeram as mesmas cadeiras. Eu tenho esse foco, que me vem da ginástica, de aproveitar todo o tempo que tenho e concentro-me muito nas aulas.»

«Acho que a ginástica nos vai ajudar para a vida toda na organização, no foco», frisa a futura médica.

Rita Ferreira e Ana Rita Teixeira durante o treino

Ana Rita, ainda no ensino secundário, concorda com essa ajuda da ginástica na concentração, e também tem objetivos ambiciosos para a universidade, com o curso de Design ou Arquitetura como o futuro desejado. «Nós estamos habituadas à exigência desde pequeninas», aponta.

Ambas foram parar à ginástica pelo mesmo motivo: muita energia e um gosto pelo desporto. Os pais levaram-nas para a modalidade, não imaginando o que o futuro lhes traria.

«Os meus pais não acharam muita piada quando eu entrei em alta competição. Diziam: ’Vais partir-te toda, vais trabalhar muitas horas’. Eles agora adoram. Quando eu chego cansada e digo: ‘Estou farta daquilo’, eles dizem: ‘vai tomar um banhinho que isso passa’», conta Rita. «Os meus pais também são assim», anui Ana Rita.

As lesões e as dores musculares fazem parte da carreira. «Acho que é raro não termos dores. Até nas férias. Mas nós gostamos disto e acabam por ser dores boas porque é por uma boa causa», conta Rita.

«É um bocado desconfortável», acrescenta Ana Rita. «Mas acabamos por nos habituar.»

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Quem as vê treinar ou em competição nota uma grande sintonia e confiança, como se trabalhassem juntas há muitos anos, mas, na verdade, só há pouco mais de um ano fazem par. Rita já foi volante, depois base num par, depois base num trio com a mesma volante, e depois base num trio com uma volante diferente, até agora começar a trabalhar com Ana Rita.

Apesar de ambas ainda terem idade para serem juniores, Rita já não tinha nenhum objetivo nesse escalão e a solução encontrada pelo treinador foi juntá-las num par novo. Uma decisão que, olhando agora, foi acertada, mas que não foi fácil.

«No início é difícil a adaptação da mão, das pegas, a coordenação, saber quando é que ela vai saltar e quando é que eu tenho de atirar – o meu pulso na pega dela não é igual ao que eu fazia no ano passado», explica Rita. «No início da época, poucas foram as provas em que não caímos. Nunca caí tanto como neste ano, mas a dificuldade do que fazemos é muito maior», adianta.

E a adaptação não é só física, é também preciso criar essa relação de confiança. «No início é um pouco complicado, mas com o tempo essa confiança vai nascendo. Por exemplo, eu estou a fazer pino e vou para o lado, sei que ela me vai buscar», conta Ana Rita, a volante.

«Eu tento sempre passar confiança às pessoas com quem trabalho e acho que é isso que me tem dado também estes títulos», explica Rita, a base, que admite: «Quando começámos a trabalhar juntas foi um choque para mim porque a Ana Rita nunca tinha estado em grandes competições, saltou vários escalões. Ela há um ano e pouco não fazia um décimo do que faz hoje. Mas ela tem uma grande maturidade e correu bem e acabámos por nos adaptar uma à outra.»

Ana Rita admite ainda sentir «um friozinho na barriga ao entrar no praticável». Rita vê um crescendo de confiança na parceira ao longo da época e admite o seu próprio nervosismo nas grandes competições. «Não é medo de falhar ou fazer mal. E o medo de não fazer perfeito porque treinamos tanto para estas competições, depois temos dois minutos e meio para mostrar o que sabemos fazer, que temos receio de não fazer aquele milímetro.»

«Desde os 13 anos, quando entrei na classe de elite, quando fiquei em terceiro no campeonato do Mundo, um resultado inédito em Portugal, eu percebi que tinha de procurar sempre a perfeição», conta Rita. E assim tem feito até agora.

 

As duas ginastas trabalham agora para o Mundial de maio de 2020 e para os Jogos Mundiais em 2021.

E depois? «Gostava de ficar ligada à ginástica de alguma forma, porque acho que é uma coisa que me vai marcar sempre», diz Rita que, quando questionada sobre se pudesse viver hoje só da ginástica, pararia o curso de medicina, não hesita: «Com um ordenado? Sim. Neste momento fazia isso porque a faculdade vai continuar lá e, quando deixasse a ginástica, tiraria o curso.»

Numa altura em que há novos desportos a entrarem nos Jogos Olímpicos, as duas jovens ginastas lamentam que a ginástica acrobática ainda não faça parte desse lote, pela visibilidade e pelo apoio que isso traria. «É um bocado frustrante. É o sonho de toda a comunidade da acrobática», conta.

É que estes anos na ginástica não exigem delas apenas tempo e dedicação, mas também dinheiro. «Eu paguei idas à China, a França… as idas a todas as provas foram os meus pais que pagaram. E ainda pagamos a mensalidade do clube. Em seniores a federação [de Ginástica] paga muitas coisas, mas fatos de competição, que custam 200 euros e nós precisamos de três, somos nós que pagamos», conta Rita.

Para já, a ginástica acrobática ainda fica de fora dos Jogos Olímpicos, mas as jovens ginastas têm esperança. «Acho que vai acontecer. Se calhar já não é para nós, mas podemos ajudar a que isso aconteça.»

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