"Tenho 16 anos, eu não devia estar aqui. Os meus colegas não deviam estar aqui." Estes estudantes "arriscam" tudo para salvar o planeta

15 nov, 08:00

Dormiram em tendas e tomaram banho nos balneários da escola: tudo pelo fim dos combustíveis fósseis e pela demissão do ministro da Economia. Depois de uma semana de ocupação, que consideram um sucesso, vão fazer uma pausa e preparar-se para novas ações de luta na primavera

As mochilas espalhadas no chão e os portões fechados a cadeado não deixavam espaço para dúvidas: não haveria aulas no Liceu Camões, determinaram os jovens ativistas que durante uma semana dormiram naquela escola secundária de Lisboa, recusando-se a sair até que as suas reivindicações fossem reconhecidas. 

Às 07:00 da manhã desta segunda-feira, alunos, pais e professores foram apanhados de surpresa com centenas de estudantes barricados, que vestiram a pele de ativistas, transformaram caixotes do lixo em tambores e colheres de metal em baquetas e entoavam, em uníssono, palavras de ordem como “Abaixo o Sistema, Não o Clima!” e “Fora Costa Silva!”. O ambiente parecia de festa, mas o motivo para este bloqueio era tudo menos festivo: a crise climática.

Com o olhar cansado e as mãos cobertas da tinta que ilustra as faixas afixadas no portão da escola, Inês Esteves, uma das ativistas do movimento "Fim ao Fóssil: Ocupa", lamentou que os jovens tenham de chegar a este ponto para serem ouvidos por uma causa que deve preocupar todos, das gerações mais novas às mais velhas.

"Chegámos a um ponto de rutura, a um ponto de indignação sem precedentes. Eu sou do 11.º ano, tenho 16 anos. Eu não devia estar aqui. Os meus colegas não deviam estar aqui. Acho que as pessoas não têm noção do quanto estamos a arriscar. Estamos a arriscar-nos a ser presos, estamos a arriscar-nos a ter processos disciplinares, estamos a arriscar-nos a sermos expulsos.” 

Manuel de Almeida/LUSA

Mas o tempo urge e os batuques que ecoaram dos tambores improvisados fazem lembrar os ponteiros dos relógios que teimam em rodar sem que nada seja feito pela ação climática. A preocupação destes jovens é que este relógio pare, comprometendo o futuro para que tanto se preparam.

“A questão climática é como a política ou a religião: é uma questão que vai afetar todos os domínios sociais, todos os domínios económicos, enfim, toda a estrutura da nossa vida. Eu sou uma pessoa muito ambiciosa, tenho grandes planos para o futuro, mas, muito realisticamente, não sei sequer se vou ter um futuro”, afirmou Inês, que há cinco anos veio da Covilhã para Lisboa com a família e trouxe com ela o espírito reivindicativo que sempre lhe fora característico. É que o pai trabalha em assuntos administrativos relacionados com o Estado e em casa sempre se falou abertamente de política e questões sociais.

Aliando o espírito reivindicativo à criatividade, Inês decidiu enveredar pelo mundo das artes e no futuro quer ser artista plástica, sem nunca descurar o associativismo. “Sempre tive um grande interesse e desacordo pela forma como os moldes da sociedade estão estabelecidos”, contou à CNN Portugal. Foi neste contexto que há cerca de dois meses decidiu associar-se ao movimento “Fim ao Fóssil: Ocupa”. Trata-se de um movimento internacional que teve início este ano letivo, promovido por jovens estudantes de várias escolas e universidades de todo o mundo que utilizam as suas instituições de ensino como palco de ações de protesto contra os combustíveis fósseis.

"As nossas famílias estão do nosso lado"

Há uma semana, um grupo de jovens ativistas da Greve Climática Estudantil replicou este movimento em seis escolas e faculdades de Lisboa, numa ação de protesto que, segundo Inês, levou dois meses a preparar. No âmbito deste protesto, um grupo de estudantes do Liceu Camões recusou sair da escola durante uma semana. Almoçaram e jantaram no interior das instalações, tomaram banho nos balneários e dormiram em tendas no pátio. A comida chegava das mãos de familiares, que a entregavam em sacos reutilizáveis por cima do portão.

“Temos um grupo de pais muito envolvido nas nossas causas e pronto a ajudar-nos. As nossas famílias estão do nosso lado e têm-nos ajudado imenso nesta causa”, reconheceu Inês, acrescentando que a própria direção da escola apoiou as ações de protesto.

Manuel de Almeida/LUSA

Às vozes dos alunos em uníssono e aos batuques dos tambores juntaram-se as buzinadelas dos carros que por ali passavam. Olhares curiosos aproximavam-se e, enquanto uns gravavam o cenário pela lente dos telemóveis, outros, de sobrancelha franzida, não resistiam a soltar um esgar de reprovação. 

Manuela Cesário, de 60 anos, interrompeu a caminhada que fazia em direção ao carro para observar o protesto. Os lábios desenhavam-lhe um sorriso de nostalgia. É que há 30 anos era Manuela quem estava do outro lado do portão, a reivindicar por melhores condições de ensino naquela escola. Naquela altura, as reivindicações eram outras, mas nada mudou, suspirou. “Ao fim de 30 anos, estamos exatamente igual ou pior do que estávamos.”

Por saber como é estar do outro lado, Manuela distancia-se das críticas dos mais velhos, que reduzem esta ação de protesto a uma forma de faltar às aulas. “Eles têm direito, agora é que estão na idade de fazer estas coisas. Desde que não façam asneiras e só dancem e cantem, está tudo bem.”

"Está na hora do Costa Silva ir embora"

Diogo Brissos, de 17 anos, frequenta o 12.º ano do curso de Humanidades e está entre os ativistas que protestaram no Liceu Camões. Tal como Inês, também ele sente que o futuro é incerto e, por isso, resolveu juntar-se ao movimento. Para o estudante, “a estrutura do capitalismo, os grandes grupos económicos e os lóbis financeiros” que promovem o uso do carvão, do petróleo e do gás natural vão acabar por “destruir o planeta”, pelo que urge combatê-los.

É neste contexto que os jovens ativistas exigem também a demissão do ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva. “É um ministro que já veio abertamente dizer que apoia a exploração do petróleo, é um ministro que está do lado das petrolíferas, dos grupos económicos, e é por isso que exigimos a sua demissão. E só saímos daqui quando as nossas reivindicações forem cumpridas ou nos tirarem daqui. Até lá, continuaremos aqui unidos, trancados e a lutar”, disse Diogo, horas antes de o movimento ter "dado fim a esta vaga de ocupações", anunciando novos protestos para a primavera, num comunicado enviado à CNN Portugal ao final da noite.

Face às reivindicações dos ativistas, que no sábado invadiram uma reunião da Ordem dos Contabilistas para exigir a demissão do ministro, Costa Silva mostrou-se disponível para “dialogar” com os estudantes, mas acabou por recusar o convite para estar presente esta segunda-feira no Liceu Camões e assistir a uma palestra dinamizada pelos alunos. Em resposta, os estudantes criaram um “busto” do ministro e não pouparam nas palavras de ordem dirigidas contra o governante, exclamando vezes sem conta “Fora Costa Silva!” e "Está Na Hora do Costa Silva ir Embora".

Perante a insistência dos jovens, ao final da tarde, fonte do Ministério da Economia e do Mar adiantou que António Costa Silva receberá os ativistas no Ministério, num encontro marcado para as 17:00 desta terça-feira.

Os ativistas receberam a notícia com satisfação, mas prometem não baixar os braços e continuar a lutar. "Estamos esperançosos, mas mesmo que [o ministro] mostre abertura para mudar, os nossos protestos não terão fim", vincou Inês, reiterando assim a promessa de Diogo.

À mesma hora do encontro com Costa Silva terá lugar uma concentração no Largo Camões, "para que todas as pessoas se possam juntar neste protesto".

Primavera de luta

A reunião com o ministro ainda vai acontecer, mas para o movimento uma coisa é certa: "estas ocupações foram um sucesso".

"As ocupações estudantis que começaram no dia 7 de novembro marcam uma nova etapa no movimento estudantil e no movimento por justiça climática: as estudantes estão a radicalizar-se e a escalar as suas táticas à medida que a crise climática escala também. Não vamos parar, não vamos ser silenciadas", garantem.

O ministro não se demitiu nem foi demitido, as reivindicações não foram "ainda" atendidas, mas os agradecimentos não foram esquecidos: "Queremos agradecer às centenas de estudantes que ocuparam as suas escolas e que têm a coragem e determinação para lutar por todas nós e pelo nosso direito à vida e à educação. Queremos também agradecer aos pais, membros da comunidade educativa, e centenas de professores e de artistas que apoiaram os estudantes em luta e estiveram do nosso lado."

E é precisamente no "ainda" que vão agora trabalhar na "próxima vaga de ocupações", prometendo, desde já, que vão voltar "mais fortes e mais capazes na primavera".

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