A "jogada ousada" de Biden que o "pode prejudicar nas presidenciais de 2024", mas que revela que é "um bom líder do mundo ocidental"

21 out, 12:00
Joe Biden (Lusa)

O presidente dos Estados Unidos desligou-se dos timings eleitorais e avançou com um pacote histórico na política externa americana. "Felizmente, nem todos os líderes vivem completamente presos aos calendários eleitorais

O presidente dos Estados Unidos comunicou ao país na quinta-feira que iria submeter ao Congresso a aprovação de um pacote de 100 mil milhões de dólares para financiar “necessidades de segurança nacional”.

Segundo a imprensa norte-americana, o pacote contempla pelo menos 60 mil milhões de dólares (cerca de 56,7 mil milhões de euros) para a Ucrânia, 14 mil milhões de dólares (13,2 mil milhões de euros) para Israel, 14 mil milhões de dólares para a fronteira dos Estados Unidos com o México e 7 mil milhões de dólares para o Indo-Pacífico (6,6 mil milhões de euros)

O pedido de Joe Biden surge numa altura em que a Câmara dos Representantes está praticamente paralisada devido à destituição do seu anterior líder, o republicano Kevin McCarthy, e à dificuldade em encontrar o seu sucessor.

Para além disso, o apoio dos americanos ao envio de armamento para a Ucrânia está a diminuir. Segundo uma sondagem da Reuters/Ipsos publicada no dia 5 de outubro, apenas 41% dos norte-americanos concordam que os Estados Unidos devem fornecer armas à Ucrânia, número inferior aos 46% que concordavam com a premissa em maio.

A oposição ao envio de armas também subiu nesse período, de 29% para 35%, de acordo com a mesma sondagem.

Apesar disto, Biden decidiu avançar com o megapacote de ajuda militar e financeira, decisão que Diana Soller considera “inteligente”.

“Se a ajuda à Ucrânia estivesse num pacote individual, provavelmente teria mais dificuldades em passar no Congresso”, diz a comentadora da CNN Portugal e investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais.

Durante o seu discurso de quinta-feira, o presidente norte-americano mencionou as autocracias, os Estados agressores e o terrorismo como “ameaças existenciais” aos Estados Unidos, e assegurou que o pacote é um “investimento inteligente que iria pagar dividendos para a segurança dos EUA durante gerações”.

“Mais do que o próprio pacote ser inteligente no sentido de diluir a questão da Ucrânia, do ponto de vista financeiro, o discurso de ontem vem explicar que as ameaças que existem estão interligadas. Não podem ser vistas como ameaças separadas umas das outras, mas sim como um grande eixo, no fundo, que contempla, por um lado, a relação tensa entre os Estados Unidos e a China, que permite e encoraja autocracias como a Rússia a terem comportamentos imperialistas, e organizações terroristas como o Hamas, apoiadas por Estados para criar situações de profunda desestabilização”, diz Diana Soller.

“Tudo isso em conjunto, constitui uma ameaça à segurança americana e ao papel hegemónico dos Estados Unidos no sistema internacional e, portanto, não se pode olhar para uma sem olhar para as outras”.

O timing do anúncio do pacote é especialmente importante uma vez que os americanos vão novamente a votos daqui a cerca de um ano para eleger o presidente do país, e as primárias estão a escassos três meses de distância. Apesar de não estar num mínimo histórico, a percentagem de aprovação de Joe Biden situa-se nos 40%, de acordo com a última sondagem da Reuters/Ipsos, de 10 de outubro, uma queda de dois pontos percentuais face a setembro.

Poderá este pacote afundar mais os ratings de Biden e prejudicá-lo nas presidenciais de 2024? “Efetivamente, pode. É uma jogada ousada”, diz Diana Soller, que elogia a atitude e a coragem do líder norte-americano. “Normalmente, a política externa não decide eleições nos Estados Unidos, mas mesmo assim há um risco, e Biden tem preferido correr esse risco e fazer uma boa política externa e ser um bom líder do mundo ocidental. Não faz política por razões eleitoralistas, que poderiam deixar o mundo cair numa situação caótica, que ele considera que é altamente nociva para a política norte-americana, quer interna, quer externa”, afirma.

“Portanto, sim, ele pode ser castigado [devido ao pacote], mas, felizmente, nem todos os líderes vivem completamente presos aos calendários eleitorais. É ousado, mas absolutamente coerente com a sua política externa desde o início da guerra da Ucrânia. Está a assumir as responsabilidades”.

A especialista em assuntos internacionais Helena Ferro de Gouveia também elogia o papel de “estadista” que Joe Biden tem desempenhado desde o início da guerra da Ucrânia e agora durante o conflito entre Israel e o Hamas.

“Neste contexto geopolítico, é uma sorte para os Estados Unidos terem um presidente com uma experiência política longa, de 40 anos. [Joe Biden] teve a coragem de ir a dois países em guerra aberta sem a proteção do exército norte-americano. Ele foi à Ucrânia, ele foi a Israel. E, portanto, isto demonstra uma compreensão que vai para além daquilo que é político-partidário. Tem a noção dos interesses nacionais e de segurança norte-americanos, mas também do papel que os Estados Unidos continuam a ter enquanto líder do mundo livre”, explicou a comentadora da CNN Portugal.

Partilhando da opinião de Diana Soller, de que a política externa não costuma decidir as eleições presidenciais dos Estados Unidos, Helena Ferro de Gouveia não avança, no entanto, se Biden pode vir a ser prejudicado pelo pacote de 100 mil milhões de dólares.

“Ainda é muito cedo neste ciclo eleitoral, e muitas vezes as decisões eleitorais fazem-se bem mais perto das urnas. Ainda faltam as primárias e o resultado também vai depender das circunstâncias políticas da altura”.

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