O seu coração, a sua saúde, a sua cintura: o jejum intermitente funciona mesmo? Estudo revela efeitos contrários

CNN , Sandee LaMotte
6 abr, 10:00
Jejum intermitente (Maskot/Getty Images)

Uma nova investigação mostrou que o jejum intermitente pode estar associado a um aumento do risco de morte por doença cardiovascular. Alguns especialistas, preocupados, alertam que os resultados deste estudo são demasiado preliminares

O jejum intermitente é uma das muitas formas que estão na moda para perder ou manter o peso.

Também conhecida como alimentação com restrição de tempo, esta prática é um método de perda de peso que limita a janela de alimentação de uma pessoa a determinadas horas - normalmente oito horas durante um período de 24 horas - sendo apenas consumidos líquidos limpos durante as restantes 16 horas. Outros métodos incluem dois ou três dias de jejum durante uma semana ou um mês.

Quão bem é que o jejum intermitente funciona?

Pesquisas anteriores mostraram vantagens na restrição de tempo. Uma revisão de estudos em humanos e animais de dezembro de 2019 encontrou benefícios em restringir calorias a um período mais curto do dia, incluindo maior longevidade, uma redução da pressão arterial e perda de peso. (No entanto, vários desses estudos foram realizados em ratos e os realizados em humanos foram de duração muito mais curta, meros meses).

No entanto, um estudo com um ano de duração, publicado em abril de 2022, que acompanhou 139 adultos chineses com excesso de peso ou com obesidade significativa, não encontrou qualquer benefício na contagem de calorias para a perda de peso ou na melhoria da saúde cardiovascular.

Sobre as novas descobertas

Uma investigação apresentada em março deste ano suscitou imediatamente dúvidas e críticas por parte dos especialistas ao sugerir que comer dentro de uma janela de oito horas ou menos estava significativamente associado a um aumento de 91% do risco de morte por doença cardiovascular, quando comparado com comer num período de 12 a 16 horas.

Um resumo da investigação preliminar, que ainda não foi revista ou publicada pelos pares, foi apresentado na segunda-feira, dia 18, em Chicago numa conferência da American Heart Association.

"Ficámos surpreendidos ao descobrir que as pessoas que seguiam um horário alimentar restrito de oito horas tinham mais probabilidades de morrer de doenças cardiovasculares", afirmou o autor sénior do estudo, Victor Wenze Zhong, professor e chefe do departamento de epidemiologia e bioestatística da Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai, na China.

"Os resultados do nosso estudo encorajam uma abordagem mais cautelosa e personalizada das recomendações dietéticas, assegurando que estão alinhadas com o estado de saúde de cada indivíduo e com as mais recentes evidências científicas", afirmou Zhong num comunicado.

Os novos resultados são demasiado preliminares

O novo estudo analisou os dados de 20.000 pessoas que responderam a perguntas sobre os seus hábitos alimentares durante 24 horas por dia, em dois dias, durante o primeiro ano de inscrição numa análise a longo prazo da saúde dos adultos norte-americanos e, em seguida, analisou os registos de óbitos nos anos seguintes.

A análise mostrou uma ligação entre uma janela de alimentação de oito horas e a morte por doença cardiovascular, mas o estudo não conseguiu determinar se este padrão alimentar causou as mortes, disseram os autores.

Muitos especialistas manifestaram a sua preocupação com a nova investigação.

"O resumo da conferência é suficiente para lançar grandes dúvidas sobre se o estudo pode mostrar o que pretende mostrar", afirmou Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada na Open University, no Reino Unido, que não esteve envolvido no estudo.

"Os investigadores classificaram as pessoas em diferentes padrões alimentares com base no que e quando disseram ter comido em apenas dois dias, durante um período de estudo com uma média de oito anos", afirmou McConway num comunicado. "Relacionar esses padrões com uma intervenção alimentar deliberadamente restrita e de longo prazo parece estar a ir muito além dos dados".

O resumo também não revela se as pessoas que praticam uma alimentação com restrição de tempo trabalham em horários "antissociais", como acontece frequentemente com os camionistas, os trabalhadores noturnos e os profissionais de saúde, disse Tom Sanders, professor emérito de nutrição e dietética no King's College de Londres, que não esteve envolvido no estudo.

"Isto é importante porque há provas de que este tipo de prática laboral está associado a um risco acrescido de diabetes tipo 2 e de DCV (doenças cardiovasculares)", afirmou Sanders num comunicado.

Também não há informação no resumo sobre o consumo de tabaco e álcool, atividade física ou nível de pobreza entre os que disseram praticar jejum intermitente, que são todos fatores de risco para doenças cardíacas, disse Duane Mellor, um dietista registado e professor sénior da Aston Medical School em Birmingham, no Reino Unido. Mellor não esteve envolvido no estudo.

"Temos de ser muito cuidadosos para não gerar manchetes e histórias preocupantes com base em informações tão limitadas", afirmou Mellor num comunicado. "Talvez seja mais importante o que se come e o estilo de vida em geral do que se se comeu toda a comida em menos de oito horas em dois dias na última década".

O jejum intermitente é bom para si?

Tal como acontece com muitas investigações científicas, a pesquisa pode produzir resultados contraditórios, muitas vezes dependentes da qualidade do estudo e do facto de todos eles terem medido a mesma coisa da mesma forma.

No caso do jejum, os especialistas dizem que os estudos estão espalhados por todo o lado, com alguns a estudarem o jejum durante dois ou mais dias durante a semana, alguns a avaliarem-no entre as 08:00 e as 16:00 e outros entre o meio-dia e as 20:00 ou noutras alturas.

"Os dados não são muito convincentes, na minha opinião, para o jejum intermitente. É uma coisa difícil de estudar e publicar com resultados claros", disse o investigador de nutrição Christopher Gardner ao correspondente médico chefe da CNN, Sanjay Gupta.

"E não se dá ênfase à qualidade, certo?" questionou Gardner, professor investigador de medicina no Stanford Prevention Research Center em Palo Alto, na Califórnia. “Receio que as pessoas digam: ‘É a janela, por isso posso comer meio litro de gelado ou bolachas, ou o que quer que seja, porque o mais importante é a janela".

Como perder peso

O que se come e a quantidade que se come é mais importante do que qualquer outra coisa, dizem os especialistas.

"Resumindo, o fator decisivo na perda de peso, bem como na redução da gordura corporal, da gordura visceral, da pressão arterial e dos níveis de glicose e dos lípidos, está dependente da redução da ingestão de calorias, independentemente da distribuição dos alimentos e das bebidas consumidos ao longo do dia", afirmou Alice Lichtenstein, diretora e cientista sénior do Laboratório de Nutrição Cardiovascular da Universidade de Tufts, à CNN numa entrevista anterior. Não esteve envolvida neste estudo.

Além disso, um ensaio clínico aleatório de setembro de 2020 - considerado o padrão de ouro da investigação - que analisou 116 pessoas não encontrou diferença significativa na perda de peso entre as pessoas que restringiram a alimentação entre as 20:00 e o meio-dia do dia seguinte e aquelas que não o fizeram.

Um estudo observacional realizado em janeiro com 547 pessoas também não encontrou qualquer diferença real entre os períodos de restrição alimentar e a perda de peso.

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