Vamos lavar a louça, disse Harold Wilson à rainha: uma aventura de Isabel II com 15 primeiros-ministros (um deles disse que ela era "aço pintado como madeira")

8 set, 22:52
Rainha Isabel II (Associated Press)

Relato breve mas relevante sobre as relações de Isabel II com os 15 primeiros-ministros diferentes com quem trabalhou. A rainha morreu esta quinta-feira, tinha 96 anos

1. Winston Churchill, Partido Conservador. 1951–1955 

O cargo não era uma novidade para Churchill mas era-o para a rainha. Ele já tinha 77 anos quando assumiu o governo britânico e foi o primeiro a fazê-lo no reinado de Isabel II, numa altura em que ela tinha apenas 25. A diferença de idades não terá sido um entrave para a relação criada entre ambos, quase como uma continuação da ligação que o político já tinha com o pai da monarca, o rei George VI. Segundo o British Heritage, Isabel II e Churchill eram próximos e o primeiro-ministro não hesitava em elogiar a rainha, um ato que pouco ou nada se verificou com os seus sucessores. Antes de abandonar o cargo disse que “todas as pessoas de cinema do mundo, se tivessem vasculhado o globo, não podiam ter encontrado alguém tão adequado para o papel”, referindo-se à aptidão quase orgânica de Isabel II para o cargo de rainha. 

Em 1955, já com a oficialização do anúncio do fim do mandato de Churchill, a monarca escreveu uma carta a Churchill para dizer que, embora a sua confiança no próximo primeiro-ministro fosse completa, “seria inútil fingir que Anthony Eden [que assumiu de seguida o cargo] ou qualquer um daqueles sucessores que um dia possam segui-lo no cargo jamais será, para mim, capaz de ocupar o lugar de meu primeiro primeiro-ministro, a quem tanto o meu marido quanto eu devemos muito e por cuja sábia orientação durante os primeiros anos do meu reinado sempre serei profundamente grata”, como se lê no site da International Churchill Society. Anos depois, quando Churchill, com quase 80 anos, viu uma fotografia da rainha num jornal, o antigo primeiro-ministro murmurou: “O país tem tanta sorte”.

Em 1950, ao lado de Winston Churchill, dois anos antes de se voltarem a encontrar: ela como rainha Isabel II e ele como o seu primeiro-ministro (AP Photo, File) 

2. Anthony Eden, Partido Conservador. 1955–1957

Se com Churchill a relação era de proximidade, até por estar habituada a vê-lo junto do seu pai, com Anthony Eden a relação foi mais “formal”, diz a imprensa britânica, mas as reuniões eram semanais e muitas vezes com temas fracturantes, como o caso do canal Suez - tendo, pela primeira vez, um primeiro-ministro mostrado documentos confidenciais do governo à rainha - e o possível (esteve quase a acontecer) casamento da sua irmã Margaret com o capitão Peter Townsend, divorciado e pai de duas crianças. 

A relação entre os dois “era de impecável propriedade constitucional” e foram feitas e mantidas “confidências”. “A rainha foi capaz de aproveitar essas experiências em audiências posteriores com Margaret Thatcher durante a Guerra das Malvinas”, lê-se no site do governo britânico.

No entanto, apesar de manter uma boa relação com a rainha e de a manter a par de tudo, o falhanço de Anthony Eden na tentativa de recuperar o recém-nacionalizado canal Suez por parte do Egito, diz a Time, culminou na sua saída do governo, uma saída que é ainda hoje classificada como humilhante, mas não há relatos de trocas de palavras em público por parte da rainha. 

3. Harold Macmillan, Partido Conservador. 1957–1963

Foram confidentes em todas as reuniões e essa proximidade foi ainda procurada pela rainha já após a reforma de Harold Macmillan, como aconteceu em 1965 quando a monarca lhe pediu conselhos sobre questões como a construção do memorial inglês ao presidente John F Kennedy em Runnymede. E ao seu sucessor deixou um breve aviso, tendo descrito a rainha com “aço pintado como madeira”, relata o The Washington Post.

4. Alec Douglas-Home, Partido Conservador. 1963–1964

Quando Macmillan renunciou em outubro de 1963, a rainha foi acusada de ter conspirado para bloquear que o vice-primeiro-ministro, Rab Butler, seguisse como sucessor, o que levou “à controversa nomeação de Alec Douglas-Home como o novo primeiro-ministro”, continua o site do governo do Reino Unido. Douglas-Home era amigo próximo da família real e, no meio de toda a polémica, a rainha decidiu distanciar-se da questão, ficando em Londres e alocando as responsabilidades das conversações entre o Castelo de Windsor e o Gabinete do primeiro-ministro ao seu secretário particular e assistente, Edward Ford, como relata o governo britânico.

5. Harold Wilson, Partido Trabalhista. 1964–70 e 1974–1976

Wilson, que veio de uma família de classe média-baixa, tornou-se o primeiro primeiro-ministro do Partido Trabalhista da rainha e o único a ocupar duas vezes o cargo. Segundo a CNN Internacional, Wilson quebrava muitas vezes tradições nas reuniões com Isabel II e gostava de ajudar a lavar a louça depois dos churrascos em Balmoral – uma das residências da rainha. A rainha gostou desde o primeiro momento da presença informal de Wilson e até o convidou para ficar para beber algo depois do primeiro encontro, o que não era comum.

6. Edward Heath, Partido Conservador. 1970–1974

A relação da rainha com Heath foi difícil, principalmente devido à grande divergência dos pontos de vista. Em 2012, John Major (primeiro-ministro nessa altura) realizou um jantar com a rainha e com ex-chefes do governo mas foi Edward Heath o protagonista, tendo adormecido em frente a toda a gente. Conta o Daily Telegraph que, na altura, a rainha brincou com a situação tendo dito: “Não se preocupe, ele vai acordar um pouco mais tarde e não diremos nada sobre isso”.

7. James Callaghan, Partido Trabalhista. 1976–1979

“Uma das melhores coisas sobre ela é que ela sempre parece capaz de ver o lado engraçado da vida. Todas as conversas foram muito agradáveis”, disse James Callaghan sobre a rainha, citado pelo The Wall Street Journal

A relação de James Callaghan com a rainha era considerada boa, mas foram três anos de altos e baixos. Há relatos de algum à-vontade por parte da rainha - que terá até colocado uma flor na lapela do casaco de Callaghan durante um passeio no Palácio de Buckingham -, mas também de momentos de maior tensão. Numa entrevista com David Frost, da BBC, Callaghan falou sobre o momento em que pediu a opinião a Isabel II e que dela apenas teve uma resposta: “É para isso que é pago”.

8. Margaret Thatcher, Partido Conservador. 1979–1990

Se Wilson gostava dos convívios com a rainha - e ela da sua presença, pois não era habitual convidar um primeiro-ministro a ficar além do período estipulado para a reunião -, já a ‘Dama de Ferro’, como ficou conhecida, considerava os encontros semanais e o evento anual um atraso para o seu trabalho. De acordo com um documentário de 2014, The Queen and Her Prime Ministers, Thatcher chegava sempre 15 minutos mais cedo aos encontros com Isabel II e a rainha fazia-a sempre esperar.

Segundo a CNN Internacional, Thatcher teve uma relação tensa com a monarca durante as suas tradicionais reuniões. Mas, apesar disso, diz-se que Thatcher foi incrivelmente respeitosa com a rainha e tornou-se a chefe de Governo que mais anos esteve no poder durante o reinado de Isabel II. “Sempre achei a atitude da rainha em relação ao trabalho do Governo absolutamente correta”, escreveu Tatcher na sua autobiografia (Margaret Thatcher: The Autobiography). “É claro que as histórias de confrontos entre ‘duas mulheres poderosas’ eram demasiado boas para não serem contadas”, escreveu. 

Apesar das divergências, Isabel II nomeou Thatcher para a Ordem do Mérito, uma das mais altas honras do Reino Unido, e quebrou o protocolo para estar no funeral da antiga primeira-ministra, em 2013.

A rainha Isabel II com Margaret Thatcher, primeira-ministra, em 1979 (AP Photo, File)

9. John Major, Partido Conservador. 1990–1997 

Em entrevista à Sky News, citada pelo The Wall Street Journal, aquele que foi o primeiro-ministro a estar no declarado annus horribilis por parte da rainha (1992) classificou a monarca como “astuta”. Na mesma entrevista, reconheceu porém que era fácil conversar com a rainha: “De muitas maneiras é catártica”.

10. Tony Blair, Partido Trabalhista. 1997–2007

Blair considerava a relação do Reino Unido com a monarquia uma instituição antiquada e estava determinado a modernizá-la, uma posição que não caiu totalmente bem aos britânicos - e foram algumas as vezes em que se dizia que a rainha estava frustrada com as medidas de Blair. No seu livro A Journey, o antigo primeiro-ministro fez troça da tradição anual de visitar a rainha na casa real em Balmoral, dizendo que “toda a cultura disso era totalmente alienígena - não que a realeza não fosse muito acolhedora”.

Pessoas próximas da rainha disseram na altura que Isabel II ficou decepcionada e chateada pelas revelações feitas por Blair.

No mesmo livro, Blair revela ter notado duas características na rainha: “era bastante tímida, estranhamente para alguém com a sua experiência e posição”, mas que ao mesmo tempo era “direta”. E também já tinha dito que as reuniões com a rainha após a morte da princesa Diana eram “difíceis”. 

11. Gordon Brown, Partido Trabalhista. 2007–2010

No seu livro My Life, Our Times, o antigo primeiro-ministro classificou a sua primeira conversa oficial com a rainha como “agradável e profissional”. Diz a CNN Internacional que embora se acredite que a rainha e Brown tenham tido uma relação próxima, essa mesma proximidade não foi suficiente para garantir ao primeiro-ministro um convite para o casamento do príncipe William com Kate Middleton. No entanto, há relatos de que a monarca ocasionalmente imitava alegremente o seu sotaque escocês e que a audiência final de Brown com a rainha foi realizada com a presença dos seus filhos e da sua esposa, o que nunca tinha acontecido.

12. David Cameron, Partido Conservador. 2010–2016 

Primo em quinto grau da rainha e o primeiro-ministro mais jovem do seu reinado. Para Cameron, as audiências com a rainha eram “valiosas”, mas também deixou passar cá para fora o que não devia. Em 2014, teve de pedir desculpa por ter dito que a rainha “ronronou” de felicidade com o 'não' da Escócia sobre a independência. Na altura, conta o The Guardian, o então primeiro-ministro dizia-se “embaraçado” com a situação.

Já no final do seu mandato e a propósito do 90.º aniversário da rainha, Cameron classificou Isabel II como “uma rocha de força para a nossa nação”. “À medida que as areias da cultura mudam e as marés da política vazam e fluem, Sua Majestade tem sido firme - uma rocha de força para a nossa nação, para a nossa Comunidade e em muitas ocasiões para o mundo inteiro”.

13. Theresa May, Partido Conservador. 2016–2019

Após a renúncia de Cameron, Theresa May passou a ser a segunda mulher a liderar o Governo do Reino Unido durante o reinado de Isabel II. Não se sabe muito sobre a relação entre a governante e a monarca, sobretudo a nível mais pessoal, mas há relatos de que Isabel II “ansiava” pelos encontros semanais com a primeira-ministra. Porém, o Brexit parece ter causado alguns solavancos na relação entre as duas - conta o The Guardian que, no final de 2016, a rainha estava decepcionada com a primeira-ministra e que o silêncio de ambas sobre o assunto era um mau presságio.

14. Boris Johnson, Partido Conservador. 2019-2022

Foi possivelmente o primeiro-ministro mais defensor da monarquia, mas também aquele que mais vezes teve de pedir desculpas - e logo após ter sido aceite como primeiro-ministro, pois revelou algo que a rainha lhe terá dito e que deveria ter ficado entre os dois. Mas foi o partygate que levou à sua saída do cargo. Johnson manteve uma relação de proximidade com a rainha e preferiu até escusar-se a tecer comentários quando se soube que um membro da família real terá perguntado a Meghan Markle o quão escura seria a pele do seu filho.

“A melhor coisa que posso dizer é que sempre tive a maior admiração pela rainha e pelo papel unificador que ela desempenha no nosso país e em toda a Commonwealth. Quanto ao resto, todos os outros assuntos relacionados à família real, passei muito tempo sem comentar assuntos da família real e não pretendo afastar-me disso”, disse Boris.

15. Liz Truss, Partido Conservador. 2022

A relação não passou da indigitação. Mas fica a lembrança de que aos 19 anos a atual primeira-ministra do Reino Unido pediu a abolição da família real: “Não acreditamos que as pessoas nasçam para governar”.

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